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quinta-feira, 12 de novembro de 2015

A batalha do Chile, parte II: golpe de estado de Patricio Guzman (La batalla de Chile: La lucha de un pueblo sin armas - Segunda parte: El golpe de estado, 1976)


Continuando em sua saga de documentação de um processo político caótico, Patricio Guzman chega, enfim, no derradeiro momento. O golpe é efetuado. Mas em seu processo de construção didática de seu arquivo, é necessário que muito mais seja dito. E assim, a história se segue aos fatos em que havia terminada a primeira parte de A batalha do Chile. Se lá a burguesia se levantou contrária ao governo de esquerda de grande apoio e apelo popular, aqui será visto o imenso estrago que este levante é capaz de fazer.

A primeira parte termina com o assassinato de um câmera pelas forças militares golpistas. O que não fica explicado neste primeiro momento é que os diversos ataques efetuados por parte dos militares revoltosos não resultou de imediato no golpe. E que nem todos os setores do militarismo chileno deu apoio à derrubada da democracia. Os revoltosos, de cabeça baixa, entregam-se após muito terem feito no país - mortes, destruições. Mas dentro desta cabeça está a maquinação mais complexa de como o golpe deve ser efetuado para que tenha sucesso.


O sucesso do golpe, o narrador nos diz, vem de seu apoio externo, da Casa Branca. Temendo mais um governo comunista em seu quintal, os estadunidenses junto com seu serviço de inteligência, a CIA, passam a tramar a derrubada do presidente Salvador Allende frente à sua política de viés marxista e que cada vez mais vinha sendo vista com bons olhos pela população. Tão poucas vezes se viu uma população de um país abraçar seu governante assim, mesmo que o governo esteja passando por maus bocados, como era o caso. O boicote dos empresário é enxergado em seu cerne: um conflito de interesses políticos. A população não se cega.

Mas este lado - o da população - é deixada de lado, por enquanto, por Guzman que prefere narrar a sucessão dos fatos que levam ao golpe. Buscando uma aproximação com os militares, Allende cria uma secretaria de diálogo com os mesmos. Trás ao seu lado algumas das chefias do exército e da marinha que se puseram fortemente contrários ao golpe, seguindo a constituição. A atitude do presidente é má vista por muitos, especialmente em alguns setores da esquerda, que veem os militares como ganhando mais poder.


O que acontece em seguida é a demonstração de que não há acordo e de que para mais uma tentativa de instauração de um golpe é questão de tempo. Um dos militares constitucionalistas é assassinado num atentado. O militar em questão era uma das figuras chamadas por Allende para fazer parte de seu conselho. No funeral a imagem síntese do momento: Allende cercado por diversos militares. Os trajes militares, os quepes. Os rostos impassíveis. O que poderia estar passando por trás daqueles rostos todos? A câmera em zoom varre aquelas figuras partindo do rosto do presidente em meio a todos eles. O presidente cercado. O presidente sem ter para onde ir. Um prenúncio do ataque que viria a sofrer.

Neutralizando os militares constitucionalistas, os golpistas aproveitam para, num 11 de setembro, efetuar sua busca de tomada de poder. Tomam as forças de proteção do país e da população para atacá-los. Bombardeiam o prédio da presidência, de onde Salvador Allende só sairá morto.


Do alto das sacadas dos prédios, escondidos por trás de muros e corrimão de escadas, os câmeras documentam todo o processo de ataque dos militares. Os aviões que cortam o céu, as bombas que explodem no telhado de La Moneda. Mas a imagem que realmente mostra a queda do presidente não é esta, e sim aquela do funeral. Aqui, em meio ao bombardeio, não vemos o presidente. Lá sim. Um presidente encurralado. Um homem que conseguiu chegar ao governo do país graças ao povo, mas que não tinha o poder em mãos. E não teve o aval de possuí-lo.

sábado, 7 de novembro de 2015

A batalha do Chile, parte I: a insurreição da burguesia de Patricio Guzmán (La batalla de Chile: La lucha de un pueblo sin armas - Primera parte: La insurreción de la burguesía, 1975)


Finda a segunda grande guerra e a população mundial se depara com as imagens do horrores promovidos no velho continente. Mais do que serem assombrados pelos fantasmas dos soldados mortos, estas imagens trazem ainda os espectros passivos de quem morreu sem lutar. Os campos de concentração nazistas eram, para muita gente, uma novidade desagradável. Os soldados aliados chegam aos territórios ocupados pelas forças alemãs e os encontram em todos os lados. Junto a eles, equipes jornalisticas munidos de câmera de filmes coloridos e em preto e branco documentam a barbárie que criam imagens. As pilhas de corpos, de roupas, de óculos, de cabelos. A humanidade reduzida a peso, a números. O homem enquanto coisa.

Em frente a esta realidade até então velada, Adorno, filósofo alemão, é primeiro a dar a sentença: não há mais poesia depois de Auschwitz. No cinema, este pensamento é seguido no país ao lado, na França, onde Godard e alguns de seus parceiros de Cahiers du Cinéma enxergarão o grande mal do silêncio imagético do cinema. A documentação tardia dos campos de concentração somente serviu para mostrar ao mundo o resultado de tudo aquilo, ao invés de ter podido mostrar a sua construção e promover o alerta. O cinema, inserido politicamente neste mundo de homens políticos, não pode deixar passar algo assim.


Passam-se anos até que o cinema possa redimir-se de seu silêncio. E é justamente na América-Latina onde ele encontra as injustiças do mundo necessárias de serem denunciadas. É verdade que a miserabilidade do povo latino-americano já vem de muitos anos, e não será em 1970 que se mostrará seu princípio. Mas o objetivo não é este. Porque há outro ser surgindo, outra sombra que se ergue em frente ao sol da liberdade e que cobre milhões de pessoas. Mais uma vez, o fascismo se levanta fazendo com que o povo seja oprimido para que alguns pouco beneficiados possam se servir dos bens de um país rico.

Neste processo, A batalha do Chile surge como um documentário imediatista. Utilizando filmagens inteiras de material que as televisões normalmente recortam para utilizar segundos, Patricio Guzmán encontra o cerne realista de sua profissão de documentarista. A câmera de filmar de Guzmán (apesar de não dirigida por ele) é sempre ciente de produzir um filme, um documento de uma época (porque, inicialmente, servem à tevê, veículo imediatista criador de imagens descartáveis). As imagens são mantidas desde o bater da claquete (que aqui é a mão do entrevistador no microfone que ele segura e aparece na imagem) até o surgimento das informações relevantes ou não. O primeiro ato que diferencia este filme de seus antepassados é exatamente este detalhe: um filme que deixa abertamente o fato de ser um filme.


A câmera de filmar é capaz de documentar um fato histórico. E assim, sempre em zoom, A batalha do Chile insere seu espectador dentro de um processo divisor de um país, um processo político. Nas ruas, a câmera encontra multidões de pessoas, gritos distantes e próximos, pessoas sorridentes ao ver que foram escolhidas pela equipe para dar seu testemunho. Abrem as portas de suas casas para dizer em quem votou. Na eleição em que existem dois lados bem definidos: a esquerda popular socialista, e a direita conservadora de viés religioso.

Os resultados das eleições, acompanhados de perto por todos, inicialmente mostra um favorecimento da direita conservadora, mas ao abrir outras urnas, o crescimento da esquerda se mostra vencedor - normal em qualquer eleição, visto que em algumas zonas eleitorais existem eleitores de certo perfil eleitoral. Acreditando ter havido fraude no processo, um primeiro sopro de um futuro que Guzmán nos mostrou nos primeiros frames de seu filme: a violência golpista. Se o filme abre com o bombardeamento do palácio do presidente da república, é porque um processo lento foi sendo construído que o levasse até este momento. Processo lento que também enxerga a explosão de bombas, como ao não admitir a derrota nas eleições.


O aprofundamento desta separação entre oposição e governo somente cresce com o passar dos meses. Os burgueses lutam para ter seus benefício de mandatários únicos de um país trazidos de volta para si. A esquerda, que inicialmente acreditou ter saído vitoriosa das urnas, se vê derrotada dia após dia no parlamento. E o povo, por sua vez, sentindo as dores destas pancadas. Para enfraquecer o governo, os empresários tentam parar o país. A oposição monta seus sindicatos para poder unir alguns trabalhadores em prol de sua causa. Todos estes atos acompanhados de perto pelas imagens agrupadas por Guzmán, que mantém as gravações sem corte, em que ouvimos a equipe falando. É necessário manter o realismo deste filme, evitar o discurso manipulador próprio do totalitarismo que distorce os princípio ideológicos da montagem para transformar o cinema em arma propagandística.

As forças de esquerda resolvem sair às ruas também. Numa passagem em frente ao partido Democrata Cristão são recebidos com tiros. As imagens são brevemente captadas pelos câmeras de Guzmán, que também necessitam se proteger para não serem mais um dos feridos. Mas enquanto a câmera ou procura se esconder ou procura as imagens dos atiradores no prédio, os sons dos tiros ecoam para além da imagem. Pouco depois, o narrador fala que houveram naquele dia seis feridos e um morto - a impotência de um cinema realista de ser onipresente, próprio a um cinema transcendental, fictício. Acompanhando o funeral deste morto, comparece uma multidão de chilenos que cobre as ruas de Santiago.

A necessidade estética do fascismo: a organização dos corpos, a uniformização, o simbolismo (nos braços)*
Depois desta passeata, em que a greve dos sindicados que apoiam a oposição ao presidente Allende chega ao fim, tanto direita quanto esquerda saem às ruas, cada um com seu manifesto, com seus gritos de guerra. Se o filme começa com o entrevistador perguntando às pessoas na rua, opositores de Allende, se ele deve ser deposto por fins democráticos ou não e todos respondem que por meios democráticos, a primeira parte de A batalha do Chile mostra que aquelas manifestações verbais não levariam a local algum senão a um golpe violento de estado.

O cinema, desta vez, encontra-se no centro das atenções quando um câmera filma a correria de passantes fugindo do som de tiros e explosões. De trás de um prédio surge um carro cheio de militares, que para na esquina oposta. A câmera filma as pessoas que haviam se escondido por trás de uma escadaria e que saem correndo ao ver a chegada dos militares - a correria que delata quem são os reais vilões da história, de quem as pessoas têm medo. Leonardo Henricksen, câmera argentino, mantém seu posicionamento filmando aqueles militares. Um deles, aponta a arma para um homem caído no chão. Ao ver que sua ação está sendo gravada, este mesmo militar levanta o revolver e dispara contra o câmera, que morre no local. A imagem de um cinema urgente e um prólogo para o que estaria por vir.


*Ver Arquitetura da destruição.