terça-feira, 17 de novembro de 2015

Tu dors Nicole de Stéphane Lafleur (2014)


É verão. A indumentária de Nicole indica calor. Ela anda de bicicleta pelas ruas abertas, sombreadas por grandes árvores, do subúrbio. Está só em sua casa. No quintal há um grande jardim e uma piscina. Seu pai liga para passar-lhe instruções sobre como tomar cuidado da casa, para além de uma lista deixada na geladeira. Pergunta como estão os dias da filha, mas em momento algum a escuta. De longe, em off, soa a voz de sua mãe perguntando se a mala que se perdeu no aeroporto foi enviada para casa. Não, nenhuma notícia. Se despendem, por fim.

Tu dors Nicole passeia por este momento crepuscular da consciência humana, o ponto divisor entre estar acordado e dormir. Deita na cama, assiste filmes, conversa com os amigos que se encontram em sua casa. Os olhos cerrados parecem sempre prontos para uma noite de sono. Ou uma manhã. Ou uma tarde. Mas ela não dorme. Permanece neste estágio do meio entre uma coisa e outra. Encontra sua amiga de infância e com ela conversa, anda pelo bairro, joga mini-golfe e toma sorvete. O cartão novo chegou. Podemos usá-lo. Vamos para a Islândia?


Mergulhada neste ponto, as ações de Nicole parecem flertar com o imaginário. A linha tênue entre a realidade e os sonhos. Teria sido imersa em seu mundo de sonhos que ela comprou a passagem para a Islândia? Ela parece não perceber o absurdo, e se envolve com eles como se fizesse parte de sua realidade. Sentada no estacionamento do mini-golfe surge um garoto de quem ela costumava tomar conta, trabalhando como babá. A criança de dez anos abre a boca e emite uma voz de homem. Ele fala que sua voz é só a primeira coisa que começará a mudar. Mas será que mudou tanto assim? Não seria mais uma criação da imaginação de Nicole? Uma intervenção de sua criatividade? Ou ela finalmente dormiu e está sonhando?

O exagero em Tu dors Nicole é muito discreto. Nada surge muito grandioso quanto as imagens de sonhos de Fellini em 8 1/2. Elas devem aparecer mais naturais para que possam dar a impressão de terem sido engolidas pela percepção da realidade. Em algumas cenas os elementos fantasiosos são destacados dos demais por aquele elemento clichê do som de harpa. Nicole sentada na lanchonete com Véronique tomando sorvete, vê um objeto ser lançado para o alto por um jato de água, por trás de um muro vegetal. Ela olha para aquilo com um sorriso de conforto, de quem finalmente está a dormir - ela dormiu ou já estava dormindo enquanto conversava com a amiga?


Depois de ter passado pela casa de Véronique, as duas vão até a casa de Nicole. Carregando latas de biscoitos as duas encontram a banda do irmão de Nicole ensaiando na casa. Aquela paisagem será constantemente modificada pela inserção daquele trio ali. Os homens, os instrumentos. Em cada cômodo eles colocarão um instrumento para gravar um demo. Depois escutam. O irmão de Nicole é o líder da banda. Não gosta do que escuta. A banda continua tocando pelos dias seguintes. Véronique e Nicole se interessam pelo novo baterista da banda. Mas Véronique, sendo mais ativa que a sonolenta Nicole, logo se apresenta ao rapaz.

A banda toca seu rock no meio da sala de estar, todos juntos. Véronique sai da cozinha e vem para a sala. A câmera realiza um movimento lento de panorâmica para encontrar aquele grupo tocando. O filme, tomando Nicole como protagonista, adquire o ritmo de sua consciência. Se move da esquerda para a direita para encontrar banda como quem pouco preocupada com tudo aquilo está. Como quem não faz mais parte daquele ambiente. Como quem está prestes a abandoná-lo sem sair do lugar.


Em um dos episódios do filme, Nicole decide se exercitar, experimentando se o cansaço é capaz de provocar sono. Pouco consegue disso. Numa de suas caminhadas noturnas se depara com um carro dando voltas. Para ao lado da janela do carona e se abaixa para falar com o motorista. Perdido? Não, está fazendo o bebê no banco de trás dormir. Nicole entra no carro e seu sono também começa a se manifestar, mas ainda não é o suficiente para desligá-la. Ela anda pelas ruas, conversa com os amigos, os conhecidos, tenta flertar com o baterista.

Talvez toda sua realidade seja um sonho. Num ultimo golpe, atira o bumbo da bateria na piscina. Como num gêiser o instrumento é atirado ao alto. Nicole trouxe a Islândia para seu quintal, no Canadá. Será que ela não estaria dormindo o tempo todo? Não. Nicole dorme acordada. Nicole é como a câmera de cinema, que enxerga o fantástico num mundo cotidiano. Se até a música se transforma num martelar de parede, o melhor é viver num sonho. Se não melhor, ao menos mais bonito.

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