sábado, 3 de outubro de 2015

Corrida contra o destino de Richard C. Sarafian (vanishing point, 1971)


Após das primeiras publicações na década de 1940, a corrente existencialista do pensamento ganha o mundo nos anos 1950 com a popularização de O ser e o nada de Sartre e os escritos literários de Camus (que sempre disse não ser existencialista, apesar de constantemente vinculado à corrente). Em boa parte, este movimento ganha força por uma aura de pessimismo que o cerca (o que nem sempre é verossímil). Da incapacidade humana de agir. Do esvaziamento do ser promovido por Sartre. Dentre os frutos deste pensamento está a noção de absurdo. Esta se dá quando algo acontece sem explicação. Como a peste que surge e desaparece subitamente no romance de Camus, A peste. Ou o assassinato do árabe em O estrangeiro.

O sucesso do existencialismo somente encontrará o cinema hollywoodiano nos anos 1970. Momento de uma grande ressaca para a juventude que nutriu, por toda a década de 1960, muitas esperanças com relação a um futuro próximo. A década da desilusão marca Hollywood com seu obscurantismo - bem refletido pelas imagens com pouca iluminação de O poderoso chefão de Coppola. Os filmes de anti-heróis surgem. O protagonista é o mafioso ou o racista. E nenhum deles tem para onde ir com suas vidas. Estão entregues à própria sorte.


Corrida contra o destino surge neste cenário e flerta com todas estas temáticas. A narrativa sente a necessidade de construir o psicológico daquele personagem. Mostra-nos suas desilusões. Forma-se não somente a sua figura como também uma imagem daquela revolução de costumes realizada na década anterior. Primeiro, vem a guerra. Kowalsky lutou na guerra. Ferido, foi logo retirado. Tornou-se policial, mas viu que os homens da lei não a cumprem tão bem quanto deveriam. Vai ser pilotos de corridas que, apesar de eletrizante, é extremamente convencional para ele. Por fim, tem um relacionamento com uma garota. Seu amor é engolido por uma onda do mar.

É o filme retrato de uma geração, ao que tudo consta. Uma geração que nasce com uma guerra e que percebe que o amor se perdeu já neste principio. Por isso o filme começa com Kowalski indo até a oficina em que trabalha. Pega um carro para entregá-lo ao dono em São Francisco. Precisa cruzar alguns estados e um de seus amigos diz ser impossível. Fazem uma aposta, naturalmente. Em dois dias, Kowalski diz, estará na Califórnia. Aposta feita, o carro sai em disparada. Cruza não só as ruas como também a noite. Quando percebemos já é dia e o carro não parou de girar em momento algum.


No retrovisor surgem as motocicletas policiais. Um deles faz gesto para Kowalski parar e ele se recusa. É verdade que neste momento ele está sob o efeito de drogas para não dormir. Deve chegar a seu destino o quanto antes. Mas é muito estranha esta corrida dele. Diz levar o carro para o dono, e se arrisca tanto com o automóvel. Empurra o carro para cima dos motociclistas e, mais tarde, contra um carro que lhe chama para um racha. Se o carro não é dele, por que agir desta forma? Por que arranhar a pintura, amaçar a lataria? Tudo o que ele diz é que tem que chegar em São Francisco segunda-feira. Uma garota a quem ele dá carona pergunta: o que tem em São Francisco? Lar, diz ele. Será verdade?

O caso é que Corrida contra o destino soa muito existencialista ao se defrontar com esta aventura de Kowalski. A corrida não tem motivo. É feita para passar o tempo. Um radialista - um cego, que como um profeta, parece enxergar além dos demais - diz que ele é a imagem da liberdade perdida. A figura que mantém viva esta esperança, correndo pelas estradas estadunidenses. Talvez ele realmente fosse, e estivesse em busca desta libertação. Mas talvez ele esteja muito mais tendente a este lado absurdo, como na literatura de Camus. Ele corre porque está vivo e tem que fazer alguma coisa. Precisa preencher sua existência praticando algo. Ele não pensa assim, simplesmente age. Os outros buscam sentido em suas ações. Projetam significados. Nem sempre parecem certos.


Kowalski é triste. Parece ter perdido muito mais que o amor, como as imagens de seu passado nos mostram. Parece ter percebido que se tornou coisa, como o carro. Avança em direção aos outros veículos nas pistas, sempre conseguindo se desviar no ultimo segundo. Mas sua corrida, como o título brasileiro diz, não tem destino. E a cena do deserto é muito significativa. Ele corre de um lado para outro, passa por cima das linha que seus pneus haviam deixado para trás, sem encontrar a saída. Sem encontrar um destino. No fim das contas, talvez ele simplesmente não tenha um. Está fadado a viver dentro de suas limitações, fazendo-se. Desenvolvendo quem ele realmente é.

O motorista encontra uma brecha entre dois tratores. Acredita que por eles pode passar, mas se choca. Explode. O carro que rasgava as estradas e o deserto agora é uma bola de chamas. Richard Sarafian parece mandá-lo para um plano espiritual, ao que indica pela música de encerramento. Se no mundo material não há muita saída, apesar de parecer que tem como a brecha indicava, quem sabe apostando na vida pós-morte? Esta é uma aposta para quem firmemente acredita que este é um caminho. Enquanto isso, melhor nós, vivos, tratarmos de colocar algum conteúdo no vazio que é nossa existência.

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