sábado, 6 de março de 2021

High Sierra, 1941, Raoul Walsh



[atenção, este texto contém revelações da trama do filme]

Roy Earle (Humphrey Bogart) recebe um perdão não explicado vindo diretamente do governador. Qual poderia ser a motivação do governador em conceder tal indulto a um ladrão de bancos convicto, que assim que sair da prisão será levado até seus comparsas para planejar mais um roubo, desta vez de cofre num hotel na costa leste dos EUA?

O roteiro do lendário John Huston, em parceria com o autor do romance que gerou High Sierra não responde a estas questões. O que fica estabelecido desde o princípio é que Roy Earle é um bandido de cara muito bem conhecida por aquelas bandas, e precisa de novos ares para poder atuar.

Passando por uma fazendinha, onde aparentemente cresceu, Roy encosta o carro para sentir o ar e conversar com um homem encostado numa cerca: é a idílica vida no campo. Um menino passa por ali com uma vara de pescar no ombro. Roy pergunta se pegou algum peixe, o menino nega. Algo nessa conversa desperta a memória do homem simples a descansar sob a sombra: sua expressão transtornada indica que Roy tem que partir rapidamente. Não é mais uma cidade onde ele encontraria a paz para repouso, nem sequer para uma conversa rápida sobre qualquer banalidade.

A banalidade é um sonho que Roy busca para sua vida, o típico bandido de coração mole, mas pulso firme na hora de seus trabalhos fora da lei. Assegurado pelo roteiro de Huston, a fuga de Roy em direção à vida do homem comum traduz-se por meio do encontro com uma família de roceiros a mudar de vida. Estão indo junto com a neta para Los Angeles. Percebendo que aquelas pessoas desconhecem por completo seu passado, Roy se aproveita, apresenta-se ao trio apenas como “Collins”. Mais tarde o filme cometerá mais um erro de roteiro ao fazer com que o segundo encontro de Roy com o patriarca da família seja marcado pelo avô chamando-o de “Roy”, o que até então não lhe havia sido dito.

High Sierra se apresenta assim como um filme de fuga, marcante pela cena de perseguição e tentativa de fuga na porção final do filme, mas especialmente por fuga das personagens de suas próprias personas. Mas tal como o cachorro Pard está lá para mostrar, a história de todas elas já estão destinadas a um caminho do qual não podem fugir.

Roy tenta escapar de seu inevitável destino de bandido. Enquanto planeja o roubo e espera para que receba o sinal verde para atacar o hotel, visita a família de Velma apenas para vê-la. Cria para a jovem uma imagem de sonho. Ela seria a moça decente, inocente, que o levaria a uma vida tranquila em algum lugar retirado da realidade atribulada em que vive.

Maria (Ida Lupino) acompanha os bandidos que trabalharão no golpe junto com Roy. Foi encontrada por um deles num salão de danças. Ela não quer voltar para aquela vida, e também não quer permanecer com os homens que a tiraram de Los Angeles. Em Roy ela enxerga essa possibilidade de fuga. Passa a dormir em sua cabana, acompanha-o para o assalto, e fica com ele na fuga. Alimenta o sonho de Roy de finalmente poderem viver uma vida tranquila com o dinheiro do assalto. O último assalto de que tanto falam os bandidos de coração mole dos filmes de roubo.

Velma (Joan Leslie) aparenta ser a boa moça, o sonho da vida tranquila numa casa afastada, de Roy. Desde a primeira vista ela flerta com ele. Raoul Walsh não se furta a mostrar os pequenos movimentos da moça aproximando-se de seu anti-herói. Sem sair do carro em seu primeiro encontro, Velma penteia o cabelo para parecer mais bonita a Roy. No segundo encontro, salta do carro mostrando seu pé (em plano detalhe) manco para que Roy se apiede de sua situação.

Aparências que desmoronam as concepções que as personagens fazem deles mesmos. O durão Roy logo acolhe Marie e o cachorro Pard em sua cabana, nas montanhas, onde seu bando se refugia antes do assalto. Ele paga pela cirurgia de Velma, que tão logo vê o sucesso da operação revela que sua vida não será com Roy: ela quer viver a juventude.

Não há um verdadeiro julgamento do filme quanto à mudança de Velma. Ela recusa Roy, diz que quer viver a vida, dançar toda noite como não pode fazer antes, viajar por aí. Seu avô a abraça, compreendendo-a. Quem não a compreenderia?

Enfim, chega o dia do assalto. Um policial entra no hotel na hora errada. Saca um revólver, atira em Roy, que atira de volta. O policial é morto, os comparsas de Roy morrem quando o carro vira durante a fuga com um sobrevivente: o atendente do hotel, comparsa dos bandidos. Será ele o responsável por entregar a identidade do assassino aos policiais. Não tarda para que a foto de Roy esteja estampada nos jornais da costa leste também, fazendo de seu rosto reconhecível por qualquer um.

Roy recebe a chamada para pegar o dinheiro pela sua parte das joias roubadas. No mesmo momento descobre que seu rosto está estampado nos jornais. Sua cautela é tamanha que faz com que Marie e Pard peguem um ônibus: a matéria do jornal descreve o trio viajando junto. Perante tamanho cuidado, soa implausível a parada de Roy numa tabacaria para comprar cigarros, a caminho de pegar seu dinheiro. Obviamente, seu rosto é prontamente reconhecido, iniciando a perseguição final.

Esta é uma das cenas mais memoráveis dos filmes de assalto. O carro de Roy corre por estradas de terra, levantando poeira, sendo acompanhado por motocicletas e carros da polícia. Os veículos sobem perigosamente ligeiros por pistas de colinas. A câmera é posta em pontos chave para mostrar o perigo de toda operação. Errar o cálculo por pouco e o carro pode escapulir da estrada, sendo engolido pelo precipício.

A rapidez da ação não dá tempo para tanta preocupação com carros perdendo seu caminho. Não estamos a ver um daqueles filmes em que o bandido possui todos os recursos enquanto carros policiais batem em tudo, explodem, caem de ribanceiras.

A história de Roy Earle está toda desenhada para que seu final seja tão cerrado quanto o topo da montanha onde ele se refugia. Tentando escapar da polícia pelo único caminho que lhe parecia possível, a personagem de Bogart também se encurrala num caminho sem volta.

A estrada termina e ele não tem para onde correr senão subir a montanha com armas em punho. Consegue um bom lugar onde ficar entrincheirado, de onde pode atingir os policiais em sua perseguição, mas não pode ser atingido. Lá ele fica por uma noite inteira, sendo procurado por holofotes que asseguram sua manutenção no mesmo lugar (esta sequência certamente teve alguma influência na perseguição da montanha, em Contatos imediatos do terceiro grau).

Ouvindo a história do bandido cercado na montanha, Marie desce do ônibus e vai até o sítio do confronto com Pard. Um jornalista identifica-a, é a mulher que acompanhava Roy Earle. A polícia a mantém sob custódia, para que ela convença Roy a se entregar, mas ela recusa. Serão os latidos do cachorro que farão a identificação da presença de Marie na montanha, desguarnecendo Roy de seu lugar de segurança.

Desarmado, Roy é alvejado por um atirador de elite. Encontra sua liberdade uma vez que reconhece a incapacidade de experimentá-la a fundo enquanto estiver debaixo desta persona. Seu rosto é conhecido por todos, sua figura de durão, de bandido nunca o abandonarão. Marie e o cachorro são a desculpa para que a vida idílica buscada por ele finalmente se concretize de modo radical através da morte – num sentido cristão, seria sua verdadeira libertação, por meio do amor encontrado em Marie e Pard.

A imagem final de Roy é velada por Walsh. Seu corpo desceu rolando pelas pedras até parar junto a um arbusto seco. Não vemos seu corpo da cintura para cima, apenas suas pernas. Este é o princípio do processo de liberdade definitiva de Roy Earle, o abandono da imagem batida do bandido, da identidade de fora da lei que o perseguiu de costa a costa do país.

Tal como a pergunta esdrúxula de Patricia Franchini perante o corpo de seu amante morto ao final de Acossado (qu’est ce que c’est déguéulasse), Marie pergunta ao jornalista “what does it mean when a men crashes out?”, desta vez recebendo uma resposta: significa que ele está livre, responde o jornalista.

Curioso encontrar nos cabelos de Marie o laço que em Velma eram sinal de sua inocência. Marie, chorando o amante morto, é inocentada pelo liberto. As máscaras finalmente caem, revelando a candura da maldade.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

A metafísica da cinefilia - lançamento do livro

 


Apresento aos leitores deste blog meu livro de estreia, sobre cinema.

Nele, procuro desenvolver uma teoria abrangente acerca do espectador de cinema, fundamentando na metafísica de Henri Bergson. Desta fundamentação surge a busca pela compreensão da cinefilia como uma emoção.

Espero que seja do agrado dos cinéfilos que acompanham as postagens, cada vez mais raras, deste sítio.

O livro pode ser baixado gratuitamente no site da editora. Deixo aqui o link para acesso. Também pode ser encomendado impresso.

A Metafísica da Cinefilia

Compre a versão física aqui

Na imprensa:

Jornal Grande Bahia

Livr'andante

Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia

Acorda Cidade

Canal Agenciamentos Contemporâneos

Laboratório de Ensino de Filosofia da UEFS

Rebeca - Revista Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Olney, um cineasta fora da festa

 [transcrição de entrevista dada para o jornal Folha de São Paulo, publicado em 17/05/1977]

texto de Tamar de Castro


"No momento em que a Embrafilme e o Ministério de Educação e Cultura iniciam as comemorações dos 80 anos do Cinema Brasileiro, é necessário lembrar que, se por um lado, o governo estimula a produção de filmes através da Embrafilme, por outra entrega o mercado exibidor praticamente inteiro ao filme estrangeiro."

A reclamação - que se junta a de todos os cineastas brasileiros - desta vêz é de Olney São Paulo. Seu filme "O Forte", baseado no romance do escritor Adonias Filho, estreou na última quinta-feira em São Paulo. Nos cines Metro I e Gemini II sem qualquer preparação publicitária por parte da Embrafilme - que é a co-produtora - "sem qualquer aviso ao diretor para que este, se quisesse ou pudesse, acionasse um mínimo de publicidade para a fita".

"Com uma produção anual entre 70 a 100 filmes, o cinema brasileiro vê apenas 10 por cento desse total chegar às casas exibidoras com uma certa dignidade. O restante da produção é acumulação para tapar buracos em relação à lei de exibição obrigatória.".

Apenas uns poucos produtores fortes ou associados a exibidores conseguem furar este verdadeiro bloqueio ao filme nacional. Mas todos os filmes de produção "independente" - 80 por cento da produção brasileira - caem neste esquema, segundo Olney.

"O exibidor, quando vê aproximar-se o prazo final para pagamento da lei dos 112 dias obrigatórios, pede à distribuidora ou à própria Embrafilme uma fita brasileira qualquer para exibição. Desta forma, abruptamente, sem publicidade, o filme brasileiro vai para as salas exibidoras. Depois, o exibidor alega que o filme não deu lucro e o tira rapidamente de cartaz".

O lançamento nas diversas praças de exibição também é realizado de maneira totalmente aleatória. "Um filme leva às vezes dois anos para ir de um Estado a outro".

"O Forte, por exemplo, foi lançado comercialmente em primeiro lugar na Bahia, em 1975, dando excelente renda. Mas isso de nada valeu e só depois de algum tempo na prateira, "O Forte" foi jogado em Brasília e Vitória (durante o carnaval". Agora chegou a São Paulo, devendo alcançar o Rio em agosto ou setembro".

"O mercado é o ponto vital da questão cinematográfica brasileira. Com um mercado potencial dos maiores do mundo, pouco adiantam incentivos governamentais ao nível de produção se os filmes não forem bem exibidos. E a recíproca não é verdadeira: se o mercado para filme brasileiro for bom, não são tão necessários os financiamentos da Embrafilmes. Uma vez que as fitas nacionais comprovadamente podem dar quatro vezes seu custo de produção, sempre terá gente investindo no cinema brasileiro", afirma Olney.

O primeiro longa-metragem de Olney foi "O Grito da Terra", lançado em São Paulo em 1965. O segundo, "Manhã Cinzenta", baseado nos conflitos estudantis de 1968, com cenas tomadas nas ruas do Rio, premiado na Alemanha Ocidental em 1970, na Semana Internacional de Mannheim, e interditado pela censura no Brasil.

Baiano, 40 anos, Olney formou-se como muitos outros cineastas de sua geração, na escola prática de documentários de curta-metragem. Segundo depoimento de Adonias Filho, o cineasta conseguiu transpor com felicidade a atmosfera carregada de "baianidade" de seu livro para o cinema.

"O Forte" - diz Olney - é uma história de amor, que aconteceu em um dos mais belos cenários do Brasil, a cidade de Salvador, com seus casarões coloniais, sua luz, seu mar, e o clima humano tão peculiar à terra".



terça-feira, 10 de novembro de 2020

Sobre o absoluto, o sublime, e a verdade extática


Werner Herzog

Tradução para o inglês de Moira Weigel

Traduzido da versão em inglês por Yves São Paulo

 

[esse texto foi originalmente apresentado por Werner Herzog na forma de palestra em Milão, Itália, em sequência à exibição de seu filme Lições da Escuridão, sobre os incêndios no Kwait. Foi pedido para que o cineasta falasse sobre o Absoluto, mas ele espontaneamente mudou seu tema para o Sublime. Portanto, boa parte do que segue foi improvisada no momento.]

 



O colapso do universo estelar ocorrerá – como a criação – em um grandioso esplendor.

Blaise Pascal



 

As palavras atribuídas a Blaise Pascal que servem de prefácio ao meu filme Lições da Escuridão são, na verdade, minhas. Pascal não poderia ter dito melhor.

Esta citação falsificada, e como mais tarde demonstrarei, não falsificada citação serve como um primeiro indicativo sobre o que estou querendo lidar com este discurso. De todo modo, para reconhecer um falso como falso serve apenas como triunfo a quem conta.

Por que estou fazendo este percurso, você pode se perguntar? A razão é simples e provém de considerações práticas, e não teoréticas. Com esta citação como prefixo eu elevo [erheben[1]] o espectador, antes que ele tenha visto o primeiro frame, a um alto nível para adentrar no filme. E eu, o autor do filme, não o deixo descer desta altura até que a obra seja terminada. Apenas neste estado de sublimidade [Erhabenheit] algo de profundo pode se tornar possível, uma espécie de verdade que é inimiga do meramente factual. Eu chamo de verdade extática.

Depois da primeira guerra no Iraque, enquanto os campos de óleo queimavam no Kwait, a mídia – e aqui quero dizer a televisão, em particular – não estava em posição de dizer de que se tratava, para além de ser um crime de guerra, um evento de dimensões cósmicas, um crime contra a própria criação. Não há um único quadro em Lições da es­curidão em que você consiga reconhecer nosso planeta; por esta razão o filme é catego­rizado “ficção-científica”, como se somente pudesse ter sido filmado numa galáxia dis­tante, hostil à vida. Quando foi lançado no Festival de Berlin, o filme recebeu uma orgia de ódio. Dos gritos raivosos do público eu apenas podia entender “estetização do horror”. E quando me encontrei sendo ameaçado e cuspido no pódio, lancei apenas uma reposta simples e banal. “Seus cretinos”, eu disse, “isto é o que Dante fez em seu Inferno, o que Goya fez, como também fez Hieronymus Bosh”. Em meu momento de necessidade, sem falar a respeito, evoquei meus anjos da guarda que nos familiarizaram com o Absoluto e o Sublime.

O Absoluto, o Sublime, a Verdade... o que estas palavras significam? Esta é, devo confessar, a primeira vez em minha vida em que tive que assentar tais questões fora de minha obra, o que compreendo, primeiro e acima de tudo, em termos práticos.

A título de qualificação, devo adicionar já que não me aventurarei a definir o Ab­soluto, mesmo que este conceito lance uma sombra sobre tudo o que eu fale aqui. O Ab­soluto põe um dilema interminável para a filosofia, a religião, e a matemática. A mate­mática talvez chegue o mais próximo de resolver esta questão quando alguém finalmente provar a hipótese de Riemann. Esta questão envolve a distribuição de números primos, permanecendo sem resposta desde o século XIX, alcança as profundezas do pensamento matemático. Um prêmio de um milhão de dólares foi posto para quem resolvê-lo, e em um instituto matemático em Boston atribuíram pelo menos mil anos para que alguém apareça com a prova. O dinheiro está esperando por vocês, assim como sua imortalidade. Por dois mil anos e meio, desde Euclides, esta questão têm preocupado os matemáticos; descobrir que Riemann e sua hipótese brilhante não estão certos, lançaria tremores que balançariam a matemática e as ciências naturais. Somente posso vagamente começar a entender o Absoluto; não estou em posição para definir o conceito.

 

A verdade do oceano

Por enquanto, ficarei no confiável campo da práxis. Mesmo que não consigamos apreender, gostaria de falar para vocês sobre um encontro inesquecível que tive com a Verdade enquanto filmava Fitzcarraldo. Estávamos filmando nas selvas peruanas ao leste dos Andes, entre os rios Camisea e Urubamba, onde mais tarde eu içaria um enorme barco a vapor por cima da montanha. Os indígenas que viviam ali, os Machiguengas, eram a maioria dos extras da equipe e nos deram permissão para filmar em sua terra. Em adição ao pagamento, os Machiguengas queriam mais alguns benefícios: queriam treinamento para seu médico local e um barco, para que pudessem levar suas colheitas até o mercado alguns quilômetros rio abaixo, ao invés de vender para algum intermediário. Finalmente, eles quiseram ajuda na batalha legal pelo título da terra entre os dois rios. Uma companhia depois da outra tinha se aproveitado do local para pilhar seus estoques de madeira; recen­temente, também empresas de óleo tinham posto seus olhos gananciosos sobre o local.

Toda petição com a qual entramos desapareceu na labiríntica burocracia provin­cial. Nossas tentativas de suborno falharam também. Finalmente, tendo viajado até o mi­nistério responsável por tais assuntos, na capital Lima, me disseram que, mesmo que ar­gumentássemos a respeito do título legal com base em história e cultura, havia dois blocos que se chocavam. Primeiro, o título não se encontrava em nenhum documento legalmente verificável, tendo o suporte apenas do ouvir-falar, o que é irrelevante. Segundo, ninguém nunca tinha inspecionado a terra para traçar uma fronteira reconhecível.

No fim das contas, contratei alguém para fazer a inspeção, que entregou aos Ma­chiguengas um mapa preciso de sua terra natal. Esta foi minha parte em sua verdade: tomou a forma de uma delineação, uma definição. Admito, eu briguei com o inspetor. O mapa topográfico que ele forneceu estava, ele me disse, incorreto em certos pontos. Não correspondia à verdade porque não levava em consideração a curvatura da terra. Em um pedaço tão pequeno de terra? Eu perguntei, perdendo a paciência. É claro, ele disse rai­vosamente, atirando seu copo d’água em minha direção. Mesmo com um copo d’água você tem que ser claro, o que estamos lidando aqui não é nem mesmo a superfície. Você deveria ver a curvatura da terra como você a veria num oceano ou num lago. Se você fosse realmente capaz de perceber tal como realmente é – mas você é muito simplista – você veria a terra curvar. Nunca me esquecerei desta severa lição.

A questão do ouvir-falar tinha uma dimensão mais profunda e requeria uma pes­quisa de tipo completamente diferente. [Reclamando pelo título da terra], os indígenas podiam apenas reivindicar que eles sempre estiveram ali, o que eles souberam por meio dos avós. Quando, finalmente, o caso parecia sem esperança, consegui uma audiência com o presidente, Fernando Belaúnde. Os Machiguengas de Shivankoreni elegeram dois representantes para me acompanhar. Quando nossa conversação ameaçou chegar num impasse [no escritório do presidente, em Lima], apresentei a Belaúnde o seguinte argu­mento: na lei Anglo-Saxônica, ainda que ouvir-falar seja geralmente inadmissível como evidência, não é absolutamente inadmissível. Tão distante quanto em 1916, no caso Angu vs. Atta, uma corte colonial na Costa do Ouro (hoje Gana) declarou que ouvir-falar pode­ria servir como uma válida forma de evidência.

Aquele caso era completamente diferente. Tinha relação com o uso do palácio do governador local; no caso, também, não havia documentos, nada de oficial que pudesse ser relevante. Mas, a corte julgou, o enorme consenso dos boatos dos tribais sendo repe­tido e repetido passou a constituir uma manifestação da verdade que a corte pode aceitar sem maiores restrições. Com esta apresentação, Belaúnde, que viveu por muitos anos na selva, quedou quieto. Ele pediu por um copo de suco de laranja, então disse Bom Deus, e então soube que tínhamos o conquistado. Hoje, os Machiguengas têm o título de sua terra; mesmo os consórcios de firmas de óleo que descobriram uma das maiores reservas de gás natural [no mundo] nas proximidades teve de respeitar a decisão.

A audiência com o presidente ainda concedeu outro estranho vislumbre da essên­cia da verdade. Os habitantes da vila de Shivakoreni não tinham certeza de que do outro lado do Andes houvesse uma enorme quantidade de água, um oceano. Em adição, ainda havia o fato de esta monstruosa quantidade de água, o Pacífico, ser supostamente salgada.

Dirigimos até um restaurante ao sul de Lima, à beira da praia, para comer. Mas nossos delegados indígenas não pediram nada para comer. Permaneceram em silêncio e ficaram observando por cima dos parapeitos. Não se aproximaram da água, apenas enca­raram. Então um deles pediu por uma garrafa. Dei a ele minha garrafa de cerveja vazia. Não, esta não era a certa, tinha que ser uma garrafa que pudesse ser selada. Então trouxe uma garrafa de vinho chileno barato, abri, e derramei o vinho na areia. Enviamos a garrafa para a cozinha para que fosse limpa o mais cuidadosamente possível. Então os homens pegaram a garrafa e foram, sem uma palavra, até a margem. Ainda usando as calças jeans, os tênis, e as camisetas que tínhamos comprados para eles no mercado, eles adentraram nas ondas. Adentraram, olhando por cima do oceano Pacífico, até que a água alcançasse suas axilas. Então, provaram da água, encheram a garrafa, e a fecharam cuidadosamente com a cortiça. Esta garrafa cheia de água era sua prova para a vila de que realmente existia um oceano. Perguntei cautelosamente se não seria apenas parte da verdade. Não, eles disseram, se há apenas uma garrafa de água do mar, então todo o oceano tem que ser verdade também.

 

O ataque da realidade virtual

Daquele momento em diante, o que constitui a verdade – ou, para colocar de uma maneira muito mais simples, o que constitui realidade – se tornou um mistério muito maior para mim do que já era. As duas décadas intermediárias colocaram desafios sem precedentes para nosso conceito de realidade.

Quando falo de assaltos ao nosso entendimento de realidade, me refiro às novas tecnologias que nos últimos vinte anos se tornaram artigos de uso geral cotidiano: os efeitos digitais que criam realidades novas e imaginárias no cinema. Não que eu queira demonizar estas novas tecnologias, elas permitiram à imaginação humana alcançar coisas grandes – por exemplo, convincentemente reanimar dinossauros nas telas de cinema. Mas, quando consideramos todas as formas de realidade virtual que se tornaram parte da vida cotidiana – na internet, nos videogames, e nos reality shows da tevê; às vezes tam­bém em algumas formas estranhas, misturadas – a questão do que é “realmente” a reali­dade se coloca novamente.

O que realmente está acontecendo no programa de TV Survivor? Podemos real­mente confiar numa fotografia, agora que sabemos quão fácil tudo pode ser falsificado com o Photoshop? Algum dia seremos completamente capazes de confiar num email, quando nosso filho de doze anos nos mostra que o que estamos vendo é provavelmente uma tentativa de roubar nossa identidade, ou talvez um vírus, ou um “cavalo de troia”, que tenha vagado até o nosso núcleo e adotado cada uma de nossas características? Será que já existo em algum lugar, clonado, como um Doppelganger, sem saber a respeito?

A história oferece uma analogia sobre a extensão da mudança trazida pelo virtual, outros mundos com os quais estamos sendo confrontados. Por séculos e séculos, as cam­panhas de guerra eram praticamente as mesmas, exércitos de cavaleiros lutadores, bri­gando com espadas e escudos. Então, um dia, estes guerreiros se encontraram encarando uns aos outros através de canhões e armas. As campanhas de guerra nunca mais foram as mesmas. Também sabemos que as inovações do desenvolvimento de tecnologia militar são irreversíveis. Apresento alguma evidência que pode ser de interesse: em partes do Japão no começo do século XVII, houve uma tentativa de extinguir as armas de fogo, para que os samurais pudessem lutar uns contra os outros com espadas novamente. Esta tentativa durou muito pouco tempo; era impossível de ser mantida.

Alguns anos atrás, vim entender o quão confuso o conceito de realidade se tornou, de um jeito estranho, por meio de um incidente acontecido em Venice Beach, em Los Angeles. Um amigo estava fazendo uma festinha em seu quintal – um churrasco – e já estava escurecendo, quando, não muito longe, escutamos alguns tiros que ninguém levou a sério até que helicópteros da polícia apareceram com luzes de busca e mandaram, atra­vés de seus alto-falantes, que entrássemos em casa. Compreendemos o caso apenas em retrospecto: um garoto, descrito por uma testemunha como tendo algo em torno de 13 ou 14 anos de idade, estava vadiando ao redor de um restaurante uma quadra adiante de onde estávamos. Quando um casal saiu, o garoto gritou, This is for real, e atirou nos dois com uma semiautomática, fugindo em seguida em seu skate. Ele nunca foi apanhado. Mas a mensagem do louco era clara: isto não é um videogame, estes tiros são reais, isto é reali­dade.

 

Axiomas de sentimentos

Devemos perguntar à realidade: quão realmente importante você é? E: quão im­portante, realmente, é o Factual? É claro, não podemos ignorar o factual, ele possui um poder normativo. Mas ele não pode nunca nos dar o tipo de iluminação, o flash extático, de onde a Verdade emerge. Se apenas o factual, sobre o qual o chamado cinema vérité [cinema verdade] é fixado, fosse de significância, então se poderia argumentar que a vé­rité – a verdade – quando muito concentrada deve residir na agenda telefônica – em suas milhares de entradas que são todas factualmente corretas e, então, correspondem à reali­dade. Caso fôssemos ligar para todo mundo listado na agenda sob o nome de “Schmidt”, centenas desses telefonemas confirmariam que se chamam Schmidt; sim, seu nome é Schmidt.

Em meu filme Fitzcarraldo, há uma troca que levanta a questão. Partindo para o desconhecido com sua embarcação, Fitzcarraldo para num dos postos mais distantes da civilização, uma estação missionária:


Fitzcarraldo: o que os índios mais velhos dizem?

Missionário: não podemos curá-los da ideia de que a vida comum é ape­nas uma ilusão, atrás da qual está a realidade dos sonhos.


O filme é sobre uma ópera sendo encenada numa floresta tropical; como vocês sabem, eu realmente parto para produzir uma ópera. Tal como fiz, uma máxima era cru­cial para mim: um mundo inteiro precisa sofrer uma transformação para música, deve se tornar música; apenas então teríamos produzido uma ópera. O que é bonito numa ópera é que a realidade não tem lugar nela de modo algum; e o que acontece numa ópera é a superação da natureza. Quando olhamos para um livreto das óperas (e aqui a Força do destino, de Verdi é um bom exemplo), vemos muito rapidamente que a história é tão implausível, tão removida de qualquer coisa que poderia ser uma experiência real que as leis matemáticas da probabilidade são suspensas. O que acontece na trama é impossível, mas o poder da música permite ao espectador experimentá-la como verdade.

É a mesma coisa com o mundo emocional [Gefühlswelt] da ópera. Os sentimentos são tão abstratos que não podem ser subordinados à natureza do cotidiano humano, por­que estiveram concentradas e elevadas ao grau mais extremo e aparecem em sua forma mais pura; e apesar de tudo isso as percebemos, na ópera, como natural. Sentimento na ópera é, no fim das contas, como axiomas em matemática, o que não pode ser mais con­centrado ou explicado para além daquilo que já é. Os axiomas de sentimento da ópera nos levam, contudo, dos modos mais secretos, numa linha direta para o sublime. Aqui pode­ríamos citar “Casta Diva”, na ópera Norma, de Bellini como um exemplo.

Você pode perguntar: por que você diz que o sublime se torna acessível para nós na ópera, de todas as formas, considerando que a ópera não inovou em nenhum modo essencial ao longo do século XX, como aconteceu com outras formas artísticas? Isto ape­nas parece ser um paradoxo: a direta experiência do sublime numa ópera não é depen­dente de qualquer desenvolvimento ulterior, ou de novos desenvolvimentos. Sua sublimi­dade permitiu à ópera a sobrevivência.

 

A verdade extática

Todo nosso senso de realidade foi questionado. Mas não quero duelar com este fato por muito mais tempo, uma vez que o que me move nunca foi a realidade, e sim a questão que se encontra por trás dela: a questão da verdade. Às vezes, os fatos excedem nossas expectativas – tendo um poder incomum, bizarro – parecendo ser inacreditáveis.

Mas nas belas artes, na música, na literatura, e no cinema, é possível alcançar um extrato mais profundo da verdade – uma verdade poética, extática, que é misteriosa e pode apenas ser apreendida com esforço; é possível atê-la por meio da visão, estilo, cons­trução. Neste contexto, vejo a citação de Blaise Pascal sobre o colapso de um universo estelar não como falso, mas como um meio de fazer possível uma experiência extática de uma verdade interior e profunda. Assim como não é falsidade quando Michelangelo em sua Pietà retrata um Jesus de 33 anos e sua mãe com apenas 17.

Contudo, também ganhamos nossa habilidade de ter experiências extáticas de ver­dade através do Sublime, por meio das quais somos capazes de nos elevar sobre a natu­reza. Kant diz: A irresistibilidade do poder da natureza nos força a reconhecer nossa impotência física enquanto seres naturais, mas ao mesmo tempo revela nossa capacidade de nos julgarmos independentes da natureza, assim como superiores à natureza... estou deixando algumas coisas de lado aqui, em nome da simplicidade. Kant continua: Neste sentido, a natureza não é estimada em nosso julgamento estético como sublime porque ela excita medo, mas porque ela evoca nosso poder (que não é da natureza)...

Eu deveria tratar Kant com a necessária cautela, porque suas explanações com relação ao sublime são tão abstratas que sempre permaneceram estrangeiras às minhas práticas de trabalho. Contudo, Dionísio Longino, quem primeiro vim a descobrir ao ex­plorar estes temas, está muito mais próximo de meu coração, porque ele sempre fala em termos práticos e oferece exemplos. Não sabemos nada sobre Longino. Especialistas nem sequer sabem se este é realmente o seu nome, e apenas podemos especular que ele viveu no primeiro século depois de Cristo. Infelizmente, seu ensaio Sobre o sublime é também fragmentário. Nos mais antigos escritos que temos datando do século X, o Codex Parisi­nus 2036, existem algumas páginas faltando em todos os lugares, e às vezes grandes quan­tidades de páginas.

Longino procede sistematicamente: aqui, desta vez, não posso falar sobre a estru­tura de seu texto. Mas ele sempre cita exemplos muito vivazes da literatura. E aqui vou eu, novamente, sem seguir qualquer ordem esquemática, para apoderar-me do que me parece mais importante.

O que é fascinante é que, logo ao princípio de seu texto, [Longino] invoca o con­ceito de Êxtase, mesmo que ele faça num contexto diferente do que eu identifiquei como sendo “a verdade extática”. Em referência à retórica, Longino diz: O que quer que seja sublime não leva os ouvintes à persuasão, mas a um estado de êxtase; a todo o tempo e de toda forma possível impondo seu discurso com o feitiço que lança sobre nós, prevale­cendo sobre aqueles que buscam apenas a persuasão e a gratificação. Podemos controlar nossas persuasões normalmente, mas as influências do sublime trazem poder, reinando supremo sobre o ouvinte... Aqui ele usa o conceito de ekstasis, a pessoa saindo de si mesma em direção a um estado de elevação – onde podemos nos elevar sobre nossa pró­pria natureza – o que o sublime revela ser “como um raio”[2]. Ninguém antes de Longino havia tão claramente falado sobre a experiência de iluminação; aqui, estou falando da liberdade de aplicar esta noção a momentos raros e fugazes em filme.[3]

Ele cita Homero para demonstrar a sublimidade das imagens e de seu efeito ilu­minador[4]. Aqui um exemplo da batalha dos deuses:


Aidoneus, senhor das sombras, com medo saltou de seu trono e gritou alto para que acima dele a terra não fosse dividida por Poseidon, o Agitador da Terra, e sua morada fosse mostrada para ver os mortais e os importais – a morada terrível e úmida, a qual os próprios deuses odeiam: grande foi o barulho que surgiu quando os deuses entraram em confronto.


Longino era um homem muito lido, que sabia citar com exatidão. O que é impres­sionante aqui é que ele toma a liberdade de soldar juntas duas passagens diferentes da Ilíada. É impossível que isso tenha sido um erro. Contudo, Longino não está falsificando, e sim, ao invés disso, concebendo uma nova verdade, mais profunda. Ele afirma que sem a verdade e a grandeza da alma, o sublime não pode vir a ser. E ele cita uma declaração que pesquisadores hoje dizem ser ou de Pitágoras ou de Demóstenes:


Pois verdadeiramente bela é a afirmação do homem que em resposta a uma pergunta sobre o que temos em comum com os deuses, respondeu: a capacidade de fazer o bem e a verdade.


Não deveríamos simplesmente traduzir euergesia como “caridade”, de tal forma que esta noção foi apropriada pela nossa cultura cristã. Nem mesmo a palavra grega para verdade, aletheia, é simples de apreender. Etimologicamente falando, provém do verbo lanthanein, “esconder”, e é relacionada à palavra lethos, “escondido”. A-letheia é, por­tanto, uma forma de negação, uma definição negativa: é o ‘não-escondido”, o revelado, a verdade. O que os gregos quiseram com o pensar através da linguagem foi, portanto, de­finir a verdade como um ato de divulgação – um gesto próximo do cinema, onde um objeto é lançado à luz, e então uma imagem latente, mas ainda não visível, é conjurada no celuloide, onde primeiro tem que ser processada, e então divulgada.

A alma do ouvinte ou do espectador completa este ato; a alma atualiza a verdade através da experiência da sublimidade: ou seja, completa um ato independente de criação. Longino diz: Nossa alma é elevada acima da natureza por meio da verdadeira sublimi­dade, movendo-se com os altos espíritos, sendo preenchida com prazer orgulhoso, como se criasse o que estivesse a escutar.[5]

Mas não quero me perder em Longino, a quem considero como um bom amigo. Me apresento perante vós como alguém que trabalha com filme. Gostaria de apontar al­gumas cenas de outro filme meu como evidência. Um bom exemplo seria O grande êxtase do entalhador Steiner (1974), onde o conceito de êxtase já aparece no título.

Walter Steiner, um escultor suíço e múltiplas vezes campeão de salto de ski, eleva a si mesmo como se em êxtase religioso no ar. Ele voa tão temerosamente alto, que pe­netra na região da morte: apenas um pouquinho mais longe e ele não poderia aterrissar, ao invés disso se acidentando. Steiner fala, ao final, de um jovem corvo do qual ele cuidou e que foi seu único amigo de infância. O corvo perdia cada vez mais penas, o que prova­velmente tinha relação com a alimentação proporcionada por Steiner. No final, outros corvos atacaram o seu, torturando-o tão temerosamente que o jovem Steiner não teve outra escolha: Infelizmente, eu tive que atirar nele, disse Steiner, porque era tortura ter que assistir como ele foi torturado por seus próprios irmãos porque ele não podia mais voar. E então, num corte rápido, vemos Steiner no lugar de seu corvo, voando, num en­quadramento terrivelmente estético, em extrema câmera lenta, lentamente entrando na eternidade. Este é o voo majestoso do homem cuja face está contorcida pelo medo da morte como se perturbado por um êxtase religioso. E então, pouco antes da zona da morte – para além do declive, no plano, onde ele poderia ser esmagado pelo impacto, como se ele tivesse pulado do Empire State Building em direção ao chão abaixo – ele pousa sua­vemente, salvo, e um texto impresso é superposto na imagem. O texto foi tirado do escri­tor suíço Robert Walser, e lê:


Eu deveria estar completamente sozinho neste mundo

Eu, Steiner e mais ninguém.

Sem sol, sem cultura; eu, nu numa pedra alta

Sem tempestade, sem neve, sem bancos, sem dinheiro

Sem tempo e sem suspiro.

Então, finalmente, não teria mais medo de nada.

 

 

 Referências para a tradução:

Texto originalmente publicado na Revista Arion, vol. 17, n° 3 (Inverno de 2010), pp. 1-12. Disponível em: https://www.bu.edu/arion/on-the-absolute-the-sublime-and-ecstatic-truth/

Utilizamos também como fonte de consulta a tradução para português da mesma palestra publicada em Revista Carbono: http://revistacarbono.com/artigos/01sobre-o-absoluto_wernerherzog/



[1] Interessante pontuar que são três os termos mais comuns de ser trabalhados pela filosofia no âmbito do sublime, o grego hypsos, o alemão erhabene, e o de origem latina sublime. Neste caso, tanto hypsos quanto erhabene têm em comum sua direta indicação de elevação. [nota do tradutor]

[2] “...o sublime, produzido no momento certo, faz tudo em pedaços como um raio” (1.4). [aqui utilizamos a tradução de Marta Vázeas do tratado de Longino]

[3] A citação completa desta passagem, na tradução de Marta Várzeas: “1.4 O extraordinário não leva os ouvintes à persuasão mas ao êxtase; e o maravilhoso, quando acompanhado de assombro, prevalece sempre sobre o que se destina a persuadir e a agradar; pois se, em geral, a persuasão depende de nós, o sublime impõe-se com força irresistível e fica acima de qualquer ouvinte. E enquanto a mestria na invenção, a disposição e o arranjo do material não saltam à vista facilmente ao fim de um ou dois passos mas no conjunto da obra, o sublime, produzido no momento certo, faz tudo em pedaços como um raio e, num instante, mostra toda a força do orador.” Em: LONGINO. Do sublime. Tradução: Marta Isabel de Oliveira Várzeas. Coimbra (Portugal), São Paulo (Brasil): Imprensa da Universidade de Coimbra, Annablume Editora, 2015. [nota do tradutor]

[4] Aqui Herzog fala de iluminação em referência ao espírito sendo revelado a uma nova capacidade reflexiva, abrindo caminho para um sentimento complexo, i. e. o sublime. [nota do tradutor]

[5] Seguindo a tradução de Marta Várzeas: “De fato, o que está de acordo com a natureza é que, sob o efeito do verdadeiro sublime, a nossa alma se eleve e, adquirindo uma espécie de esplêndida altivez, se encha de prazer e de exaltação, como se ela mesma tivesse criado o que ouviu”. 7.2 Em: LONGINO. Do sublime. Tradução: Marta Isabel de Oliveira Várzeas. Coimbra (Portugal), São Paulo (Brasil): Imprensa da Universidade de Coimbra, Annablume Editora, 2015. [nota do tradutor]



segunda-feira, 6 de julho de 2020

O cinéfilo do século XXI

Manohla Dargis
Tradução de Yves São Paulo

cena do filme Maldição, de Béla Tarr, 1987

Nosso complexo industrial de entretenimento atua como se apenas um punhado de filmes blockbuster dos grandes estúdios importassem. Ainda assim, em março de 2003, num mês rico para os filmes dentre muitos outros, um cinéfilo de Los Angeles poderia ir a um cinema da universidade, uma sala de arte ou para uma cinemateca, e assistir a filmes chineses de artes marciais dos anos 1940, o filme policial de Jean-Pierre Melville, Le cercle rouge, e o mais novo lançamento do autor mexicano Arturo Ripstein. Naquele mesmo mês, um cinéfilo bem comprometido poderia ter comprado DVDs de filmes da Áustria e da Coréia do Sul, assim como poderia comparecer a festivais de cinema em estados como os de Maine e Texas.

Hoje, o amor pelos filmes significa comprar DVDs pela internet, se filiar a comunidades virtuais, e preencher os assentos de festivais regionais de cinema. Ao mesmo tempo global e local, a nova cinefilia simultaneamente abraça o velho e o novo, avant-garde e mainstream, live action e animação, drama e documentário, celuloide e vídeo. Dá apoio a esnobismos modernos e promove igualdade pós-moderna, venera mestres já falecidos ao mesmo tempo que os vivos, e toma as aspirações a arte dos filmes como obviedade. Adere à internet para buscar diretores de culto e postar críticas de filmes famosos e obscuros. Para estes novos amantes do cinema, velhas separações como trash contra arte, Hollywood contra o mundo, deram espaço para uma inclusão expansiva dos cinemas de todo o mundo.

Em 1996, cinema e cinefilia pareciam postos contra as cordas. Naquele ano, Susan Sontag publicou A decadência do cinema, um ensaio sobre o centenário do cinema lido sob a forma de obituário. “Os 100 anos do cinema parecem ganhar a forma de um ciclo”, Sontag declarou nesta revista, “um inevitável nascimento, a contínua acumulação de glórias, e os primeiros sintomas de uma última década de declínio irreversível e ignominioso”. Sontag amaciou seu veredito e disse que talvez não tenha sido o cinema a ter acabado, mas o amor que ele inspirava. “Filmes maravilhosos continuam a ser feitos”, ela continuou, “mas dificilmente se encontra, ao menos entre os jovens, o distinto amor cinefílico pelos filmes que não seja simplesmente o amor por, mas um certo gosto pelos filmes (enraizado num vasto apetite por ver e rever o máximo possível do glorioso passado do cinema)”.

Sontag estava enlutada por um mundo perdido, um mundo onde os filmes importavam mais que seus ganhos de bilheteria, e onde parecia haver um cinema de arte em cada esquina de Manhattan, mas ela não se deu conta de que um novo mundo de cinefilia estava surgindo. Os filmes independentes americanos estavam roubando grandes parcelas da audiência que um dia buscou uma alternativa a Hollywood em filmes estrangeiros. Ainda assim, a cinefilia se provou admiravelmente resiliente, suportando ciclos de declínio e renovação. Nos anos 1980, o repertório renasceu nas prateleiras de casas de vídeo aventurosas, como a Kim’s Video, no East Village. O VHS transformou consumidores em programadores, dando aos cinéfilos acesso a cineastas que de outra forma estariam indisponíveis ao seu alcance; mais tarde, o DVD transformaria os amantes do cinema em colecionadores.

É claro, num mundo de entretenimento imparável, pode ser difícil escutar o sinal para o barulho. As companhias de filmes independentes com nomes mais conhecidos, como a Miramax e a Fox Searchlight, são na verdade divisões de grandes estúdios. Enquanto isso, com a aquisição da MGM pela Sony em setembro, todos os maiores estúdios de Hollywood são partes de corporações multinacionais para as quais os filmes representam apenas uma parte de seus lucros totais. Dentre outras coisas, esta consolidação causa mudanças sísmicas em como os filmes alcançam o público, de modo que agora os impérios da mídia geram incessantemente suas próprias defesas. No Today Show, o anfitrião, Matt Lauer, apresenta um filme da Universal, companhia pertencente à General Electric, numa rede de televisão pertencente à General Electric, e assim em sequência, ad infinitum.

Esta é uma das razões do porquê de os festivais regionais terem se tornado tão importantes à cinefilia de hoje. Apenas nos Estados Unidos existem centenas de festivais, e são muitos mais ao redor do planeta. Em fevereiro, os amantes do cinema compareceram ao Festival de Cinema de Santa Bárbara, na Califórnia, onde assistiram filmes da Itália, China, Argentina, Dinamarca, Irlanda, Islândia e Irã. Enquanto isso, o Festival Internacional de Cinema dos Direitos Humanos viajou por 21 cidades. Dentre os filmes selecionados estavam o documentário Pinochet’s children, sobre o ditador chileno, e Rana’s wedding, um drama sobre uma mulher palestina atravessando bloqueios físicos e psicológicos.
Uma vez eventos culturais locais, lugares para acompanhar um diretor estrangeiro favorito ou descobrir algum novo, os festivais evoluíram para uma rede crucial de distribuição. São de particular importância para pequenos distribuidores como a Kino International, que nem sempre tem dinheiro para comprar a abertura de caminho em direção à consciência nacional. Até mesmo cineastas cujos filmes nunca são lançados comercialmente nos cinemas dos Estados Unidos podem alcançar dezenas de milhares de cinéfilos entusiastas em cidades que podem não ter mais uma sala de arte local. Os festivais são a melhor evidência pública da perseverança e expansividade de nosso amor pelo cinema, e um complemento cara a cara do lado mais privado e geek da cinefilia – para aqueles cinéfilos que hackeiam seus aparelhos de DVD para ganhar acesso ao mundo do cinema, ou trocar notícias pela internet sobre o mais novo ultraje do diretor japonês Takashi Miike.

Não surpreende, portanto, que a cinefilia contemporânea encontre sua mais forte expressão em blogues e revistas na internet escritas por fãs indiscriminados, pretensos crítico, acadêmicos sérios, e os frequentes descontentes, junto com sites de críticas como DVDBeaver, site organizado por geeks cujo apreço fetishistíco pela atenção técnica aproxima-se daqueles de audiófilos. A internet é o lar natural para este tipo mais raro de cinefilia, não apenas porque é barato, mas também porque fornece comunidades prontas. Muito do que se encontra na internet é originado por companhias de entretenimento, e muitos sites independentes dependem de links comerciais para suporte. Ainda assim, para os melhores sites, como a revista online Senses of Cinema, o amor pelo cinema não começa nem termina com o último lançamento da Miramax como acontece para muitas publicações offline. Para estes cinéfilos, o diretor húngaro Béla Tarr não é uma curiosidade de sala de arte; ele é uma estrela. Depois de publicado, o obituário de Sontag para o cinema inspirou outras elegias nostálgicas, ainda que muitos deles pareçam ter chorado a perda de sua própria juventude ao invés da perda dos filmes. Estavam saudando aquele momento quando, ao descobrir a Nouvelle Vague francesa, descobriram seus próprios ideais de expressão de curiosidade jovial e paixão. Hoje, audiências seletivas e até mesmo muitos críticos não têm familiaridade com Tarr e o cineasta de Taiwan Hou Hsiao-Hsien. Não porque seus nomes não sejam tão importantes quanto os de Bergman ou Fellini, mas porque o público e o reconhecimento crítico de seus trabalhos são ainda limitados. A maior diferença entre a cinefilia elogiada por Sontag e a de hoje é a homogeneidade do mercado – e a cumplicidade da mídia – forçando cinéfilos a se tornar seus próprios zeladores, a alcançar além dos multiplex e das cadeias de lojas de vídeos. Você tem que buscar – às vezes bem engenhosamente – para encontrar.

Mais cedo este ano, depois de comparecer a uma prévia da exibição do filme Zatoichi, uma tomada estilística sobre uma personagem popular do diretor japonês Takeshi Kitano, saí e comprei um DVD do filme. É um DVD da Região 3 e como tal não rodará na maior parte dos aparelhos de DVD disponíveis nos EUA, designada Região 1. Em meados dos anos 1990, um consórcio de companhias de hardware e software dividiu o mundo em oito regiões para os consumidores assistirem apenas os discos manufaturados para sua parte específica do planeta. Os estúdios de cinema não querem alguém em Tóquio fazendo amostragem do último lançamento de Hollywood em DVD antes que ele seja lançado nos cinemas japoneses. Nem querem os japoneses que assistamos Zatoichi antes que abra nas salas aqui.

Os cinéfilos aprenderam a circundar a proibição comprando aparelhos que toquem DVDs de qualquer região e em qualquer sistema de televisão, ou o fazendo ao hackear o próprio aparelho. Depois de comprarmos um aparelho de DVD feito na China, meu marido o transformou num aparelho livre de restrições de região ao baixar um código livre que ele gravou num CD e inseriu no drive. Agora com nosso aparelho podemos assistir filmes japoneses sobre a Yakuza, clássicos de sala de arte franceses, e programas de televisão britânicos que você não encontra numa loja Blockbuster. Apesar de comprar estes DVDs pela internet com revendedores estrangeiros, comprei Zatoichi em minha loja local porque estava lá na prateleira. As cores em meu DVD de Hong Kong estavam meio escuras (das 17 versões disponíveis, deveria ter ido na edição japonesa), mas agora eu posso assistir ao filme quando quiser.

Enquanto isso, o novo mundo do “home entertainment” permite que você alugue um DVD de um filme difícil como o sublime Elogio ao amor, de Jean-Luc Godard, pela Walmart.com, onde os consumidores avaliaram o produto com três estrelas de cinco. Tem algo de extraordinário na justaposição da maior companhia do planeta com Godard, mas tal é o complexo da realidade de nossas vidas saturadas pelas mídias – está aberta para todo mundo. Nos princípios dos anos 1960, qualquer um com um dólar poderia ir assistir filmes, mas apenas aqueles com algum conhecimento iriam até as salas de arte do Carnegie Hall Cinema para ver O ano passado em Marienbad, de Alain Resnais. Hoje os cinéfilos com acesso à internet podem ir à amazon.co.uk e comprar As Harmonias de Werckmeister, de Béla Tarr em DVD. Então eles podem encontrar “Film Directors – articles on the internet” e ler ensaios astutos sobre um dos diretores favoritos de Sontag.

Não muito tempo atrás, os filmes eram maiores que a vida; hoje você pode comprar um filme, segurar em sua mão, e levar pra casa para assistir de novo e de novo, um passo revolucionário na curta história deste meio. Como o VHS, o DVD mudou radicalmente nossa compreensão do significa ir para os filmes. Mas enquanto o VHS alcançou seu maior sucesso como uma mídia alugada, o DVD se tornou produto de compra impulsiva, produtos lançados para dentro do carrinho de supermercado junto com meias e lençóis. Como tal, os DVDs estão direcionando os lucros da indústria do entretenimento, e atulhando cômodos de entretenimento nas casas. Ainda assim, eles ajudaram a criar uma nova cultura cinematográfica que desafia o imperativo de homogeneidade da indústria, e no processo ajudaram a revitalizar a relação entre os filmes e seus amantes. Consumidores têm mais opções do que nunca; e também os cinéfilos.

Para aqueles que cresceram antes da era do DVD e da internet, deve haver algo de enervante em quão pequenos os filmes se tornaram, mas colocar uma cópia de Notas do subsolo na mochila não faz dela menos profunda. A televisão iniciou a transformação do cinema de um ritual comunal para uma atividade privada – e agora você pode colocar um DVD num computador e assistir a qualquer hora, em qualquer lugar. Godard sugeriu que você deveria olhar para a tela de cinema de baixo para cima, mas a televisão você assiste de cima para baixo. Mesmo com o ato de assistir um filme assumido o aspecto íntimo de ler um livro, a popularidade dos festivais sugere que não estamos prontos para abandonar os prazeres públicos de ir ao cinema. É muito cedo para saber o que perdemos na passagem do primeiro século do cinema para o segundo. Aqui, ao menos na fronteira da cinefilia, o sinal está soando mais alto que o barulho.

O texto original deste artigo pode ser encontrado no seguinte endereço:
https://www.nytimes.com/2004/11/14/movies/the-21stcentury-cinephile.html