domingo, 9 de agosto de 2015

Redenção de Roberto Pires (1959)


O mundo do cinema é feito de extremos. De um lado temos filmes que gastam fortunas para serem feitos e que dominam o mercado exibidor. A maior parte do público sabe de sua existência e prefere assisti-lo por pressão feita pela própria campanha propagandística. É um filme essencial de ser visto nesta temporada, dizem eles. E não poucos são os que embarcam nesta onda e mantém este jogo viciante em que o lucro se sobrepõe à obra. No outro extremo do tabuleiro encontramos filmes feitos sem verbas, que batalham longamente para serem produzidos e, em seguida, para encontrar um pequeno espaço no mercado exibidor. Sofrem com sua concorrência desleal. Mas se você me pergunta a que filme prefiro assistir, respondo prontamente que é este segundo tipo.

Os filmes feitos por grandes corporações podem, sim, ser feitos por pessoas com paixão pelo cinema. Que assistem números extraordinários de filmes e colocam esta sua paixão na tela. Mas isso não acontece na maioria dos filmes, e quando acontece não surge tão melhor quanto com estes filmes mais simples. As falhas de películas que duram quatro ou cinco anos em produção, dotados de orçamento reduzido, filmados em parcerias entre amigos que simplesmente querem ver aquele projeto ser concretizado podem ser facilmente perdoadas, ao contrário do que acontece aos chamados blockbusters. Porque num filme pequeno há, acima de tudo, a paixão pelo cinema. E isso surgirá em cada fotograma, por mais simples que seja a trama.


Redenção é o primeiro longa-metragem filmado no estado da Bahia. Fruto da paixão de um grupo de amigos pelo cinema, o filme chega até nós com muitos problemas. Por muito tempo o filme foi deixado de lado, considerado perdido em determinado momento desta caminhada, até retornar aos olhos do público. Como nem tudo são flores, partes da película utilizada para restaurar a obra ficou estragada, o que significa que cenas ou pedaços de cenas se perderam. Este é um primeiro ponto que nos faz olhar com calma para esta obra. Não mais com o olhar crítico de quem estivesse na época, mas com um olhar terno de quem vê um bebê (o cinema baiano) a dar os primeiros passos.

A crítica mais dura sobre o filme fica para o passado. A cinematografia baiana em muito ganhou com o passar dos anos, e hoje caminha lentamente em direção a um amadurecimento artístico protagonizado por nomes da envergadura de Edgar Navarro e Henrique Dantas. Mas é quase inevitável fazer menção à imaturidade da trama e da criação dos personagens deste Redenção. A escrita do roteiro exala este despreparo dos cineastas que tinham, sobretudo, boas intenções. Tão boas que chegaram a criar uma lente para imitar o sucesso do cinemascope. A imagem larga favorece, sobretudo, a abertura do filme, que desenha para si um mistério. Um táxi percorre uma pista à beira da praia. Vemos os coqueiros alinhados uns aos outros e o automóvel, que quebra. O taxista informa a seu passageiro que não poderão continuar viagem e de que ele terá que ou pegar carona ou pedir guarida numa fazenda de cocos não muito longe dali. O homem então escolhe a segunda opção.


Na fazenda moram dois jovens. Eles pensam em ampliar a fazenda para que possam lucrar mais. Um deles pensa em se casar, e o outro diz que ele deve conversar com sua namorada para conseguir um financiamento com o tio funcionário de banco para a fazenda de cocos ser ampliada. É quando alguém bate à porta, já noite. Ao abrir, imerso em sombras, está o passageiro do táxi que pede para se hospedar ali. Este é um plano muito interessante para introduzir o personagem aos demais membros da trama. No dia seguinte, a dupla sai pela cidade. Vão ao bar, à praia, à casa de um amigo jogar cartas. Lá um deles lê num jornal que um louco assassino fugiu de um manicômio: trama clichê do terror estadunidense dos anos 1980 (mas estamos na Bahia de 1950). Pouca atenção dão ao caso.

Mas o fato é que a suspeita que um deles levanta ao ler a descrição do louco está certa: o homem que hospedaram é mesmo o assassino. Numa das melhores sequências do filme, Roberto Pires monta em sucessão as ações simultâneas de seus personagens. A namorada de um dos jovens vai até a fazenda dar-lhes boas notícias, e o louco ainda não foi embora; os amigos tardaram para sair do jogo de cartas e agora retornam para casa à noite. O carro da menina entra na fazenda, estaciona em frente à casa. Eles ainda continuam longe. Ela entra na casa e é recepcionada pelo louco, que a ataca. Um tiro é ouvido. O que se segue são cenas quase desconexas que nos deixam implícito o que aconteceu naquela noite. Um corpo é retirado de detrás do caminhão e posto numa praia. Retornam para casa com a culpa. Mas logo a polícia baterá em sua porta. O que acontecerá?


Numa sobreposição de mãos apontando para um dos jovens, que supostamente realizou o disparo contra o homem que atacava a menina, ouvimos vozes dizendo: "assassino". Uma síntese do sentimento do jovem atormentado. Este tormento nos soa tão implausível quanto o de Orlac*, mas nem por isso faz da obra menos interessante. No que concerne à criação de uma trama, ela deixa a desejar. No resto, é uma peça no mínimo curiosa. Um filme de que foi picado pelo bichinho do cinema. O que torna tudo muito mais prazeroso de ser visto.


* em As mãos de Orlac

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