terça-feira, 9 de setembro de 2014

Distante, de Nuri Bilge Ceylan (Uzak, 2002)


direção: Nuri Bilge Ceylan;
roteiro: Nuri Bilge Ceylan, Cemil Kavukçu;
estrelando: Muzaffer Ozdemir, Emin Tropak.

Nuri Bilge Ceylan deixa bem clara a influência que Andrei Tarkovski possui sobre seu cinema. Principalmente neste Distante. Um grupo de amigos conversam sobre o cineasta soviético durante um almoço. Mahmut - o fotografo que parece ser o auterego de Ceylan - assiste a um dos filmes de Tarkovski na televisão. Para além destas informações que nos são passadas pelo roteiro, está a forma pela qual Ceylan trata a estória que conta. E antes mesmo de ser uma estória, Distante nos apresenta a relação entre dois homens, ou a distância entre eles.

Os longos plano-sequência efetuados pela câmera de Ceylan buscam sempre estes dois personagens saídos do interior falido da Turquia em busca de uma vida nova na capital Istambul. Mahmut conseguiu tornar-se um fotografo famoso, mas pagou um preço. A solidão logo lhe encontra. O encontramos nesta obra quando sua ex-mulher está para se mudar para o Canadá. Seu enclausuramento dentro de seu apartamento torna-se mais profunda e seu contato com outras pessoas cada vez mais raro. Trabalhar como fotógrafo parece ajudar o aprofundamento desta solidão. É quando chega Yusuf. Vindo da mesma cidade que Mahmut, Yusuf busca emprego após a usina em que trabalhava em sua cidade natal ter entrado em falência e demitido seus mil empregados. Se esta presença no apartamento de Mahmut poderia parecer um encontro, o fim de sua solidão, Ceylan mostra que duas pessoas podem morar juntas e mesmo assim permanecerem distantes.


Não raro são os momentos em que Ceylan procura fazer uma conciliação entre dois personagens tão diferentes. Ele os pões juntos na sala de estar da casa de Mahmut enquanto assistem tevê, mas nada parece ajudar. Seus gostos são diferentes. Não assistem aos mesmos programas de tevê Nenhuma conversa consegue vingar. E nenhum dos dois personagens tenta fazer tal aproximação. Yusuf sai sempre do apartamento em busca de emprego, ou mesmo para ver outras pessoas. E mesmo que deseje aproximar-se dos outros, os outros parecem não querer se aproximar dele. E nem ele sabe como se aproximar dos outros. A câmera o filma sentado ao lado de uma garota no ônibus, mas ela se levanta e o deixa só. O que sobra é um primeiro plano - este enquadramento tão adorado pelos cineastas dos primeiros tempos do cinema - que o isola do mundo e que traduz a sua solidão interior.

Por meio de telefonemas aos seus familiares, Yusuf é claramente o personagem que busca contato com outras pessoas. Ele tenta em alguns casos aproximar-se de Mahmut, mas este recusa. Trava-se o distanciamento entre os dois personagens ao qual o título nacional se refere. Tal como já estava presente na cena de abertura do filme. Yusuf, caminhando em direção à câmera em uma paisagem gelada, desaparece por um momento por trás da câmera que precisa efetuar uma panorâmica para encontrá-lo numa estrada. Ele ergue o braço para pedir carona a um carro que se aproxima. Antes que o carro pare ou ignore o pedido de Yusuf, Ceylan corta a cena para apresentar-nos o título do filme. A distância está impressa em filme e não será mostrada a tão desejada aproximação até a ultima cena. 

A cena de encerramento do filme é preparada por todo filme. Em determinado momento, Yusuf oferece a Mahmut um cigarro barato, que este recusa. Quando, sem aviso prévio, Yusuf vai embora, Mahmut encontra no quarto de seu antigo inquilino o maço de cigarro que outrora lhe fora oferecido. Sentado à beira do mar, Mahmut ascende o cigarro de Yusuf selando o fim da distância. A câmera, por sua vez, sela esta aproximação com um zoom-in. Com esta cena fecha o primeiro filme de Nuri Bilge Ceylan que assisti, e que certamente me dará espaço para as demais obras deste interessante cineasta.

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