sexta-feira, 14 de março de 2014

Coeur Fidèle de Jean Epstein (1923)


direção: Jean Epstein;
roteiro: Jean Epstein, Marie Epstein;
fotografia: Léon Donnot, Paul Guichard, Henri Stuckert,
estrelando: Gina Manès, Edmond Van Daele, Léon Mathot.

No início do cinema, quando este ainda não tinha se exprimia por meio da fala, muitos cineastas se juntavam para poder pensar o que seria o cinema. Deste pensamento do que seria o cinema, buscando suas características, surgiu a teoria de cinema e com ela algumas formas diferentes de conceberem o espetáculo cinematográfico. Neste período surgiu um movimento na Europa que visava à criação de um cinema puro, que não dependesse de qualquer outra arte para que pudesse se expressar, constituído o cinema como uma arte com características próprias e não uma união de características de outras artes como é pensado. Foi graças a este pensamento que surgiram grandes obras de cineastas influenciados por aqueles cineastas que, além de filmar, também escreviam sobre seu veículo de representação. Entre os cineastas que estavam no meio deste movimento é Jean Epstein.

Epstein, cineasta e teórico de cinema francês, é uma das figuras que possuem a mais rica produção teórica de cinema, enquanto a criação de filmes foi escassa. No fim da década de 1910, o jovem Jean Epstein começa a escrever seus primeiros textos sobre esta recém-criada forma artística. Na virada da década de 1910 para 1920 ele assina contrato com a Pathé, o que lhe permite dirigir alguns filmes, ilustrando aquelas teorias que apresentava para o público. Se desligou da Pathé depois de poucos anos e filmes e fundou a sua própria empresa. Mas este empreendimento de Epstein não duraria muito. Tão logo surgiu o cinema falado (e, por conseguinte, o aumento dos orçamentos dos filmes) a empresa veio a fechar, o que não impediu o diretor de continuar a filmar. Com o início da guerra em 1939 e, logo em seguida, com a invasão alemã da França, Epstein se viu obrigado a parar de filmar, retomando apenas em 1947. Durante este período alguns de seus textos mais conhecidos foram concebidos (O cinema do diabo e A inteligência de uma máquina), mas não temos um exemplar muito bom que possa demonstrar em filme o que o cineasta estava a propor em texto.


Ainda na Pathé, Epstein filmou aquele que é tido por alguns críticos como sendo seu melhor filme (a exemplo de Georges Sadoul): Coeur Fidèle. O filme conta a história de Marie (Gina Manès) que é criada por pais adotivos que a forçam a trabalhar bastante. Eles querem que ela se case com Petit Paul (Edmond Van Daele), um mau-caráter que gosta muito de beber. Mas Marie está apaixonada por Jean (Léon Mathot) e ambos vivem um romance escondido. Jean vai falar com os pais de Marie que quer se casar com ela, mas estes não aceitam, dizendo que ela tem que se casar com Petit Paul.

É um típico melodrama, mas preciosamente construído. Epstein faz uma construção na montagem que nos evoca os sentimentos dos personagens. Por meio das imagens os sentimentos dos personagens transbordam para fora de seus corpos e inundam a tela. Não é necessário de uma música triste ou de um ator falando que está triste por este, este e mais este motivo, a imagem já está lá para dizer tudo aquilo que ele sente. A relação entre as imagens não possuem uma relação significativa como poderia ter no cinema de Eisenstein. Quando Epstein nos mostra Marie triste em logo em seguida nos mostra o mar sujo, é porque aquela imagem não fará bem a ninguém. É a busca pela expressividade da imagem. Hoje este serviço é muito facilmente deixado para a música, que há muito tempo atrás já soube realizar o trabalho de encontrar o lado sentimental de quem escuta. O cinema ainda não encontrou este caminho e cada vez mais parece distanciar-se dele.


Este cinema, feito por Jean Epstein, é chamado de cinema poesia. É um campo muito pensado na década de 1920 e que rendeu muitos bons frutos; além de Epstein temos Murnau, Germaine Dullac, Abel Gance... O cinema poesia se perdeu com o tempo, tendo sua ideia sendo retomada na década de 1960, quando cineastas de diversas partes do mundo (incluindo Glauber Rocha) retomaram pensamentos que eram correntes entre os cineastas da década de 1920 para que pudessem criar algo de novo. Mas o cinema poesia não foi tão bem desenvolvido com o cinema falado quanto foi quando o cinema ainda era mudo - e este filme é uma prova disso.

Falar "assista a este filme" não faz jus ao que ele realmente é, então digo: experimentem-no.

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