sábado, 6 de fevereiro de 2016

Os pivetes de François Truffaut (les mistons, 1957)


A cinefilia é característica presente nos trabalhos de quase todos os cineastas da nouvelle vague. Chabrol fazia sempre referências a Hitchcock, até pela escolha por constantemente filmar suspenses. Rohmer já preferia um caminho mais clássico que o aproximava de Murnau, aquele que parece ter sido seu cineasta preferido - difícil e controverso colocar Rohmer na nouvelle vague, mas façamos pelo bem do argumento. Godard fazia uma miscelânea de referências. Como Truffaut.

Já em seus primeiros filmes, antes mesmo de estourar para o mundo com Les quatre-cent coups, Truffaut já filmava reverenciando os mestres que o ensinaram a ver. Em Les mistons, talvez seu curta mais conhecido desta safra pré-reconhecimento, o cineasta já mostrava suas competências em conseguir reunir diferentes estilos num filme bem estruturado, e o que é mais importante, orgânico. Digo orgânico porque ao reunir influências que vão de cineastas extremamente diferentes como Hitchcock e Vigo é fácil que uma mente bem intencionada produza um monstro de Franskenstein cujas partes não se casam.

Em Les mistons, ou Os pivetes como o filme foi nomeado em terras brasileiras - título simpático - Truffaut consegue reunir todas suas influências de cinefilia num filme de quase vinte minutos com leveza, transformando-o num verdadeiro filme de Truffaut. Ao reunir diferentes estilos em seu filme, Truffaut aglutina todos, digere, e ganha a consciência de como filmar de modo próprio, de modo que lhe seja mais confortável. Insere no seu cinema algumas das características que seguiriam pelo resto de sua carreira.


Uma das características mais claras, e esta que todos os cinéfilos convictos da nouvelle vague seguiam em maior ou menor frequência, é o lado voyeur do espetáculo cinematográfico - coisa aprendida pelo cineasta que todos eles reverenciavam, Alfred Hitchcock. Tanto na construção de um filme quanto em seu visionamento estamos num jogo "voyeurístico". Truffaut compreendeu isso e o inseriu em boa parte de seus filmes. Doinel, para além de cinéfilo, estende seu lado observador para o cotidiano, enquanto segue os outros, observa os gestos alheios. Aqui em Les mistons, Truffaut encontra um grupo de crianças que pratica este ato observador. Passa uma garota bonita de bicicleta e eles, de longe, se contentam em simplesmente observá-la. Num ato que tende mais ao cinema de Cocteau, Truffaut filma uma das crianças se aproximando da bicicleta e beijando o acento vazio onde, uma vez, a desejada jovem esteve sentada.

Há mais em Les mistons, há Vigo. Esta influência é marcante no cinema de Truffaut a partir do ponto revolucionário em que as crianças são tratadas no cinema por Zéro de conduite. As crianças ainda não estão totalmente inseridas nas relações de conformação com as regras impostas pela sociedade e por isso podem se rebelar com maior facilidade. Os adultos, por estarem nelas inseridas, têm maiores dificuldades de enxergar como seria a vida fora delas, acreditando que sem elas haveria o caos completo. Vigo, enquanto anarquista, enxerga no caos infantil que toma conta da escola algo melhor que a ordem imposta. Truffaut, enquanto uma criança rebelde que foi, acredita nele. E assim, a certo ponto do curta, ao interromper um encontro de sua musa com o namorado, as crianças brincam de batalha. Que outro modo haveria de mostrar o caráter revolucionário das crianças numa linguagem que os adultos possam compreender? Crianças não precisam de armas de verdade para combater, diferente dos adultos desprovidos de imaginação. Ao mesmo tempo que parece fazer referência a Vigo, ela retoma à batalha de bolas de neve de Cocteau.

Já em seu curta-metragem de estreia, Truffaut demonstra maturidade na composição de uma peça cinematográfica. Maturidade que já demonstrava em seus artigos, afinal foi aos 22 anos que ele escreveu Uma certa tendência do cinema francês, artigo que balançaria as estruturas da crítica e que daria o pontapé inicial à nouvelle vague e às suas tentativas de exploração das capacidade de expressão com a linguagem cinematográfica. E a carreira de Truffaut já estava bem desenhada antes mesmo de seu sucesso em Cannes.

Assistir ao filme: Les mistons (sem legenda em português)

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