sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Fausto de F. W. Murnau (Faust - eine deutsche volkssage, 1926)


direção: F. W. Murnau;
direção de fotografia: Carl Hoffmann;
estrelando: Gösta Ekman, Emil Jannings, Camilla Horn.

O cinema alemão da década de 1920 é um dos mais avançados da história desta expressão artística. Seus autores pensavam o que cabia ao cinema, o que fazia dele uma arte em especial, e partiam deste princípio para poder contar uma história. Foi neste momento em que ocorreu um grande crescimento intelectual do cinema alemão que influenciou cineastas de outros países (exemplo disso é Hitchcock, que em entrevista dada à Truffaut não se furta de falar do cinema alemão como influência para o seu trabalho e sua ideia do que seja  a sétima arte). É também neste momento em que surge uma nova forma estética dentro do cinema, que é chamada e conhecida por muitos como sendo o expressionismo alemão. Na escola expressionista (que tem como marco inicial "O gabinete do doutor Caligari" em 1919) as imagens do filme devem apresentar aspectos da subjetividade dos personagens que estão sendo retratados, cujas histórias estão sendo contadas.

Ligar o cinema à um movimento proveniente da pintura é muito caro ao cinema alemão deste momento. Tal como uma pintura não (idealmente) necessita de texto para mostrar o que está sendo representado ali, também o cinema não necessitaria de textos contando o que estariam acontecendo na tela, e daí até mesmo mostrar, por meio exclusivamente das imagens. os sonhos e desejos de tais personagens por meio das imagens. A câmera consegue provocar este desnudar, mostrar aquilo que permanecia escondido, aquilo que somente à olhos nus não conseguiríamos ver - tal como uma pintura expressionista.


Neste filme Murnau se ultrapassa. Ele não mantém a ideia de fazer um filme somente com as imagens, parte para os letreiros que mostram as falas dos personagens, ao contrário do que já havia feito anteriormente em "A última gargalhada" (1924) filme que não possui nenhum letreiro com fala de personagem. Mas aqui, Murnau consegue desenvolver sua poesia fílmica, tendo à mão os efeitos visuais mais ousados que poderia existir. Com relação aos efeitos, é interessante pontuar que devido à eles o filme ficou com orçamento elevado que não retornou quando exibidos nos cinemas. 

O filme trata da famosa história de Fausto (Gösta Ekman), um alquimista, que atormentado com as mortes causadas pela peste em sua terra, e por não conseguir fazer uma cura para a doença, faz um pacto com o diabo com o intuito de salvar a população de sua cidade. Mas tão logo que uma das doentes se apresenta para Fausto com um crucifixo em mãos ele não consegue tocá-la, a população percebe que ele fizera um pacto com o diabo. Fausto foge, mas ainda possui os poderes do diabo à sua disposição. Para contar esta história, Murnau se inspira em diversas pinturas, em diversas representações feitas desde a publicação da história escrita por Goethe.


O filme começa com os cavaleiros do apocalipse se dirigindo à terra. É uma imagem belíssima. São esqueletos montados em bestas, todos assustadores, sem vida, formados somente de ossos cabelos e algumas roupas (além de armas). Uma fumaça se faz presente, como se eles estivessem atravessando as nuvens para chegar em direção à terra. Na primeira vez em que o diabo chega à cidade, a construção é magnífica. Emil Jannnigs, no papel do diabo, de pé, fantasiado, com suas enormes asas escurecendo boa parte do quadro, enquanto a cidade de Fausto se apresenta como uma miniatura aos seus pés. Ele, o diabo, está a observar a vida na cidade, e nela joga a peste.

Quando Fausto finalmente decide fazer o pacto com o diabo, a cena, cheia de efeitos (que ao contrário dos filmes atuais, não se fazem desnecessários - eles são de extrema importância para o que está acontecendo) nos prende na cadeira. O circulo que Fausto havia desenhado ao seu redor no chão pega fogo, em seguida círculos de fogo começam a subir, envolvendo-o nos poderes do diabo que não o deixará em paz pelo resto de sua vida. Fausto chama o diabo mais uma vez e, ao longe, surge um cavalo com seu esqueleto à mostra, cavalgando pelos céus, e Mefisto surge - do fogo - sentado em uma pedra ao lado do alquimista. São as imagens que demonstram o poder do personagem de Jannings, mais nada. É o exemplo de um cinema puro.


Os efeitos especiais ousados servem para que a história seja contada com as imagens, mostrando as aflições de Fausto, seus desejos, e aquilo que Mefisto trama para manter o alquimista ao seu lado e poder conquistar a terra. Estes efeitos especiais auxiliam Murnau a criar para o filme imagens muito semelhantes às ilustrações feitas por pintores. Mas nem somente de efeitos é feito esta película. Quando Fausto, com a juventude que lhe fora dada pelo diabo, retorna para a sua cidade durante a páscoa, encontra Gretchen (Camilla Horn), e por ela se apaixona. Aqui Murnau necessita somente de uma troca de olhares, sem nada além de um plano em que ambos apareçam e o olhar de descontentamento de Mefisto ao fundo. Fausto está claramente encantado, apaixonado, pela jovem, que assutada com a figura de Mefisto corre para assistir a missa de páscoa.

Murnau neste filme se reafirma como cineasta-poeta.

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