sábado, 25 de julho de 2015

Eisenstein - sobre o som no cinema


"O som em nosso cinema não foi introduzido a título de capricho, de novidade, de moda. 

Para melhor limitarmos os termos, o som não se introduziu no cinema mudo: ele originou-se daí.

Ele originou-se da necessidade que levava o nosso cinema mudo a vencer os limites da pura expressão plástica.

E essa necessidade de alargar o círculo de sua ação foi largamente pressentida pelo nosso cinema desde o seu nascimento.

Desde os seus primeiros passos, o cinema mudo, entre nós, procurou oferecer, através de todos os meios possíveis, não somente a imagem plástica, mas a imagem sonora.

Encontramos, já, em A Greve um esforço nesse sentido. Há lá uma cena curta - muito popular quando apareceu - que mostra os grevistas discutindo sob a aparência  de inocentes transeuntes que cantam ao som do acordeão. 

Esta cena termina com uma passagem na qual tentamos oferecer o som por meios puramente visuais.

As duas películas do futuro - a película-imagem e a película-som - serão substituídas por uma superimpressão de duas películas-imagem. Sobre a primeira registrou-se a mancha branca de um pântano distante ao pé da colina, de onde vêm em direção à câmara grupos de gente que passeia com um acordeão. Sobre a segunda, enquadrando ritmicamente a paisagem, movimentam-se tiras luminosas - as pregas da caixa de um enorme acordeão, ocupando toda a largura da tela - que, graças ao seu deslocamento e ao jogo de variações de seus ângulos, dão plenamente a sensação da melodia que acompanha a cena. Em suma, é o ancestral desse 'acordeão de cinema' que o filme sonoro de hoje nos inflige à saciedade."

(EISENSTEIN, S. Reflexões de um cineasta. tradução: Gustavo A. Doria. Zahar Editores. Rio de Janeiro, 1969. p. 132 - 133)

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