sábado, 22 de março de 2014

Noites de Circo de Ingmar Bergman (gycklarnas afton, 1953)


direção: Ingmar Bergman;
roteiro: Ingmar Bergman;
fotografia: Hilding Bladh, Sven Nykvist;
estrelando: Ake Gronberg, Harriet Andersson, Hasse Ekman.

Albert Johansson (Ake Gronberg) é proprietário de um circo. Ele sofre porque seu trabalho não é tão apreciado quanto ele acha que deveria ser e sonha com a América, terra das oportunidades, onde um proprietário de circo poderia ser rico, ao contrário de seu país, em que quem trabalha no circo não é visto com bons olhos. É em um país com uma formação mais erudita que Bergman coloca de modo sutil o embate dentro da arte: qual a diferença entre circo, teatro e cinema?

O circo vai de mal a pior. As instalações não são das mais confortáveis e o urso está morrendo. Albert não vê sua família há três anos, tendo arranjado uma amante muito mais jovem para si neste meio tempo e que o acompanha com o circo. Mas enfim o circo se instala na cidade em que sua família vive e finalmente ele poderá ver sua esposa e filhos novamente. A chegada é fria. Seus filhos são crianças e têm dificuldade para reconhecer o pai. A esposa também o recebe de maneira fria demonstrando com esta abordagem que não quer que ele fique em casa.


Na cidade existe um grande teatro onde Albert e Anne, sua amante (Harriet Andersson), aparecem para pedir à companhia, que lá está a ensaiar uma peça que em breve estrearão, algumas roupas emprestadas para poderem apresentar suas performances. É aqui em que surge o primeiro embate. O diretor da peça (Gunnar Bjornstrand) e aparente diretor da companhia, volta-se para o dono do circo e coloca que o teatro é uma forma superior de representação: o teatro é arte enquanto o circo é simples entretenimento. Ambos são modelos de arte, poderia ser a abordagem de Bergman para este filme, uma sendo mais popular que a outra, ou ao menos tendo maior apelo popular.

Quanto ao cinema: o filme inicia com uma cena um tanto estranha. Albert vai conversar com o cocheiro e lhe diz que não vê sua família há três anos. O cocheiro então conta-lhe uma história sobre a dificuldade de trabalhar num circo e ser casado. Na história, a mulher de um palhaço vai tomar banho de mar nua com diversos soldados que estão fazendo um treinamento com canhões à beira da praia. Uma pessoa vai contar ao palhaço o que está acontecendo e este vai até a praia acompanhado de toda a trupe do circo. Chegando lá ele tira a esposa da água e a carrega de volta, nua, para o circo. Esta história não será comentada em nenhum momento pelo resto do filme, mesmo tendo ocorrido com um palhaço da trupe de Albert (com a exceção de um breve comentário feito pelo próprio Albert, mas que nada influencia para o andamento no enredo). A cena tem momentos mudos, quase alcançando a atmosfera de um sonho.


Neste ponto temos três formas diferentes de expressão artística muito semelhantes. Uma delas é o circo, tomado como simples entretenimento e sem qualquer valor artístico. O segundo é o teatro, embebido de uma aura refinada. A terceira, que surge de forma mais sutil nesta história que abre o filme, é o cinema. O cinema pode criar formas diferentes, com seu trabalho feito com o tempo e espaço, desenvolvendo assim outros mundos, podendo servir para mostrar o lado subjetivo de quem estamos a acompanhar. Já o circo e o teatro são extremamente próximos, diferenciando-se somente pela forma como a comunidade artística os encara.

Anna passa a ter um caso com um ator do teatro que diz para Albert que dormiu com sua amante durante uma apresentação do circo. É nesta cena, uma das ultimas do filme, em que o embate entre as artes se resolve. Albert e o ator do teatro brigam no centro do picadeiro mostrando que ambas as performances são mais próximas do que ambos poderiam imaginar. Num teatro pode ser encenada uma comédia farsesca como é apresentada num circo e isso não diminuiria a sua aura de refinação. Por que então o circo não é tão bem visto?

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