sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Os processos de aceleração e intensificação

Edgar Morin


"A música de cinema resume sozinha todos esses processos e efeitos. Por sua própria natureza ela é cinestésica - matéria afetiva em movimento. Ela envolve, embebe a alma. Seus momentos intensos têm uma certa equivalência com o close e muitas vezes coincidem. Ela determina o tom afetivo, dá o toque, sublinha com um traço (bem forte) a emoção e a ação. A música de cinema, de resto, como nos mostrou a Kinotèque de Becce, é um verdadeiro catálogo de estados de alma. Assim, sendo ao mesmo tempo cinestesia (movimento) e cenestesia (subjetividade, afetividade), ela faz a junção entre o filme e o espectador, ela se adiciona com todo seu impulso, acrescenta toda sua liga, seus eflúvios, seu protoplasma sonoro à participação.

A música, dizia Pudovskin, 'exprime a apreciação subjetiva' da objetividade do filme. Pode-se estender essa técnica a todas as técnicas do cinema. Elas tendem não apenas a estabelecer o contato subjetivo, mas criar uma corrente subjetiva. 'O ritmo desse universo é um ritmo psíquico, calculado em relação à nossa afetividade'.

Esse fluxo de imagens, de sentimentos, de emoções constitui uma corrente de consciência erstaz que se adapta e adapta a ela o dinamismo cenestésico, afetivo e mental do espectador. Tudo se passa como se o filme desenvolvesse uma nova subjetividade conduzindo a subjetividade do espectador, ou melhor, como se dois dinamismos bergsonianos se adaptassem e conduzissem um ao outro. O cinema é exatamente essa simbiose: um sistema que tende a integrar o espectador no fluxo do filme. Um sistema que tende a integrar o fluxo do filme no fluxo psíquico do espectador."


MORIN, Edgar. O cinema ou o homem imaginário, p. 127-128.
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