sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Experiência do tempo - Béla Balazs


Já foi dito que o panorama transporta a realidade do espaço para um alcance maior do que faz a montagem. Dos planos conectados não podemos fazer mais que inferir de que estão eles no mesmo setor de espaço ou não. Tudo o que temos que fazer é ir ao conteúdo do plano, e lógica e inter-relação dos eventos e de nossa própria memória, mesmo que o filme tenha nos mostrado uma vez todo o espaço em que a cena é promulgada.

Mas o panorama nunca nos deixa abandonar este espaço. Por força de identificação, exploramos em companhia da câmera e nosso sentir o tempo mede a distância entre os vários objetos. O próprio espaço, e não a imagem do espaço apresentado em perspectiva é o que experimentamos aqui.

Em Joana d’Arc de Dreyer, nunca vemos todo o espaço em que o julgamento acontece. A câmera, se movendo junto com os bancos, faz close-ups impressionantes das cabeças dos juízes e por esta ininterrupta panorâmica, mede a real dimensão do espaço que não vemos. Como resultado, estamos conscientes de espaço toda vez que olhamos para a procissão de close-ups. Não vemos nada além das fisionomias individuais, olhamos faces de extraordinárias personalidades e ainda não esquecemos a multidão – porque vemos, com a câmera, que está junto a eles.

O diretor japonês de Shadow of Yoshiwara fez uma panorâmica de um objeto a outro tão rapidamente que se poderia ver escassamente o que estava no espaço intermediário. Os objetos entre não eram importantes para o diretor, porque tudo o que ele queria era fazer-nos conscientes da distância e espaço. Por esta razão ele não cortou, não saltou o espaço intermediário. Em tal filme, o espaço não é meramente o lugar no quais pessoas e coisas podem ser mostrados: ele alcança uma realidade própria e tem sua significância própria, independente dos objetos que o preencham.


Joe May, em seu filme Asphalt mostrou o quarto de um sargento de polícia alemão. Com meticulosidade pedante, a câmera fez uma panorâmica de um objeto a outro. Guarda-roupa, mesa, gaiola com passarinho, relógio, grande foto dos pais. Vemos tudo e ainda sabemos tudo; vemos e compreendemos a ingenuidade da vida de um pequeno burguês – e apenas depois disso que a câmera se volta para o próprio homem. Primeiro vemos o ambiente que ele habita; não apenas os próprios objetos, mas o que é mais importante, sua sufocante proximidade uns dos outros. Vemos o pequeno confinamento deste mundo. A realidade do panorama pode transportar isto muito melhor que a perspectiva de um plano longo.

(Theory of the filme, traduzido por: Edith Bone, p.140)

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