sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Abel Gance – As brumas do amor

Este texto faz parte de uma enquete realizada por Jacques-Doniol Valcroze e François Truffaut, em ocasião da edição especial de Cahiers du Cinéma a respeito do amor no cinema. Neste caso, os dois críticos da revista perguntaram a diversos cineastas suas opiniões a respeito do erotismo no cinema.


Nossos leitores encontrarão no próximo número dos Cahiers a filmografia completa e detalhada de Abel Gance. Assinalemos somente hoje que Abel Gance seja talvez o único cineasta francês que abordou o erotismo no cinema quase sem restrições (Le droit à la vie, Napoléon, Lucrète Borgia).

Vocês me interrogam a respeito do erotismo no cinema, mas se faz necessário antes falar do erotismo como um todo que, de acordo com um aforisma de Nietzsche, é um dos pontos culminantes ou um dos cumes do espírito humano, para onde, subconscientemente, tendem grande parte de nossos pensamentos. É evidente que o cinema faria muito enriquecendo nossa visões, nossas percepções eróticas, mas temos de antemão a censura, e em seguida uma longa limitação que o hábito nos obriga a conservar. Se tivéssemos os cotovelos livres para o erotismo, faríamos os mais belos filmes do mundo.

Ultimamente, me pediram para fazer Les liaisons dangereuses, de Laclos; é muito bonito, Les liaisons dangereuses, muito difícil, muito tênue, muito delicado. Novamente, os sentimentos são empurrados; o erotismo não vem somente das imagens de mulheres nuas, o erotismo surge sobretudo das formas do expressionismo, nas situações, nos sentidos em que uma cena se refere a outra. Podemos não mostrar nada e ser muito mais erótico que mostrar as Três Graças esculpidas num vaso. Os censores não sabem onde isto começa e onde termina, eles creem que o é porque as mulheres estão nuas, ou um homem que beija uma mulher, que há erotismo, mas de forma alguma.

Há muitos anos (não citarei o nome de uma personalidade que pediu para dirigir um filme dessa laia), tive a ideia de filmar L’embarquement pour Cythère ou mais a sequência de L’embarquement pour Cythère. Me encurralando na folhagem de Watteau e utilizando a delicadeza de um lápis e sua sensibilidade para chegar o mais longe que pudesse sem cair naquilo que foi chamado de pornografia, esperava dar ao público o “aviso” das impressões eróticas de boa qualidade e que tinham verdadeiramente roteado o cinema por uma via extraordinariamente fértil; infelizmente, como acontece com a maior parte de nossos desejos, este filmes não permanece mais do que como um sonho, um projeto, e permaneço com as belas personagens que montaram esta pequena peça e que estão prestes a serem empurradas nas brumas do amor.



(publicado originalmente em Cahiers du Cinéma, n° 42, de dezembro de 1954, tomo VII, p. 52)

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