quarta-feira, 24 de agosto de 2016

René Clair: Uma garota e uma pistola

Este texto faz parte de uma enquete realizada por Jacques-Doniol Valcroze e François Truffaut, em ocasião da edição especial de Cahiers du Cinéma a respeito do amor no cinema. Neste caso, os dois críticos da revista perguntaram a diversos cineastas suas opiniões a respeito do erotismo no cinema.


Os leitores dos Cahiers têm em memória os títulos dos vinte e cinco filmes deste grande poeta da tela, que é o autor de Belles de nuit e por isso o enumeramos aqui. Lembramo-nos somente que em Quatorze Juillet - talvez seu melhor filme - René Clair nos forneceu algumas cenas "intimistas" que justifica dirigirmos a ele nosso questionário.

O erotismo possui virtudes secretas que não tem nada em comum com o gosto de exibição desoladora de um deliciamento moroso que é próprio aos colegiais.

Quando Griffith falou em seu tempo de "uma garota e uma pistola", ele a definia da seguinte maneira: aquele que atira para a tela a atenção vulgar. Nada mudou, se não é que hoje o pudor não deixe de se tornar a mais singular das audácias.

O erotismo, tal como o cinema pode utilizá-lo, é um valor publicitário de um rendimento certo, um investimento de pai de família para os produtores, uma patente de "coragem" para os autores avisados e, na segunda linha depois da violência, a mais eficaz armadilha para a crítica.

Cortaram algumas passagens de meus filmes, mas muito poucas. Em I married a witch, Veronika Lake foi ofuscada por uma nuvem de fumaça. E como eu disse que nenhum espectador pode entrever uma parcela de sua nudez, me responderam: "Certo, mas o espectador pode ver que Frederic March, que a encara, vê que ela está nua!"

Esta que é uma sutileza puritana própria para alegrar o palácio dos sábios.

(publicado originalmente em Cahiers du Cinéma, n° 42, de dezembro de 1954, tomo VII, p. 54)

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