segunda-feira, 11 de abril de 2016

Uma princesa sagrada

por: Jacques Doniol-Valcroze

            A história da pastora que casa com o filho do rei, ou do pastor que casa com a princesa é um velho mito que o écran não se privou de explorar longitudinalmente, amplamente e transversalmente. Em Hollywood, é mais comum um rei se tornar um bilionário e o pastor um serviçal de bar, mas que um “romance” qualquer exploda a costa da cabeça das coronárias autênticas e os roteiristas dizendo que fariam muito errado em se privar de álibis desprovidos de realidade. Assim a abdicação de Édouard VIII inspira alguns filmes, como Food for Scandal com Fernand Gravey e a muito arrependida Carole Lombard. Mas que o monarca do mito fosse ele de carne enlatada, da Molvadia ou da atualidade, a essência do sistema seria o irrealismo, diga-se, a convenção de que os reis se casam com pastoras e que pastores se casam com princesas.

            A originalidade e a habilidade de Roman Holliday é de rejeitar o postulado e de substituir por este: a princesa Anne não pode de modo algum casar com o jornalista americano Joe Bradley. Tal pensamento jamais aflora de uma pessoa durante todo o desenrolar do recital. E poderia se surpreender; depois de tudo, ao ver nossos dias de príncipes e princesas renunciando a todos os direitos para desposar o objeto amado e incluir este incidente num roteiro poderia reclamar precedentes reais, mas a habilidade aqui consiste justamente em ser mais realista que o rei, em forçar a credibilidade na princesa Anna definida não por seu acidente possível, mas pela tradição intangível; e a habilidade é dupla porque, ao fazer da princesa um tabu absoluto, o espectador é invariavelmente atirado a buscar seu modelo, não mais na costa da Moldavia ou mesmo de Luxemburgo, mas na costa da Inglaterra porque é lá onde reside a única realeza, tal qual seja seu poder, que não é de modo algum a de uma opereta, a única que na opinião pública encarna ainda uma forma de majestade, de grandeza e de característica sagrada que não seja relativa a ela mesma. Os autores do filme são dados como álibis contra esta confusão que primeiro começa com a visita da princesa Anne, em viagem pelas capitais europeias, ao palácio de Buckingham; porque ela é recebida pela rainha Elizabeth, a confusão não é oficialmente possível, ela não pode ser a Princesa Margaret; e portanto esta confusão, que é a astúcia n° 1 do roteiro, se impõe. O filme debute das “Atualidades Paramout” e no fundo moradia eterna “destas” atualidades, nenhum plano indica jamais que estas atualidades estejam terminadas, e durante estas atualidades vemos a passagem da princesa Anne por Paris, por Londres, depois por Roma. Cada jovenzinha dirá que a Princesa Margaret fez uma estadia em Paris e na Itália e a visita ao palácio de Buckingham é um modo hábil de anexar os dois nomes. Quaisquer que sejam os álibis, e eles são indiscutíveis, nada o fará: a princesa Anne não pode ser a princesa Margaret.
            Assim posto, o filme torna-se fácil de fazer. Fácil... entendamos: para roteiristas da inteligência e sensibilidade de Ian MacLellan Hunter e John Dighton, e para um realizador da envergadura de William Wyler, para intérpretes com o talento de Audrey Hepburn e de Gregory Peck.

            Filmado em Roma, o filme sofreu – certamente voluntariamente – as influências dos métodos dos “neorrealistas”: nada de decoração artificial, nada de “transparência”, nada de um processo estilístico que nos remeta ao mito da pastora. Porque a princesa é “verdadeira”, não seria estrago mergulhas na “verdadeira”. Quando me disseram que este filme é o equivalente de uma comédia de Capra, não acreditei. Não tenho espaço para fazer a demonstração, mas é manifesto que em Capra o recital, mesmo quando ele começa do cotidiano, se eleva progressivamente ao conto de fadas, ao seu modo “moderno”. Aqui é um pouco ao contrário. Não se pode acreditar um só instante no conto de fadas, mais rapidamente o postulado realista de base remonta os heróis à razão. Mesmo o modo de explorar as gags é diferente. Toda a sequência do começo (a viagem da princesa) é em estilo de “atualidades”, e já há algum tempo que “acreditamos” na princesa quando surge o primeiro incidente cômico: aquele do sapato sob o vestido da princesa. Em Capra o incidente teria uma repercussão pública, os convidados na recepção perceberiam o incidente; aqui, tudo retorna à ordem do modo privado: não são mais que a dama de companhia e o embaixador (aliás direi: da Inglaterra) na Itália, as testemunhas. A partir deste momento compreendi que o filme, apesar de certas aparências, não será uma comédia americana, mas simplesmente uma charmosa e nostálgica história que o burguês Wyler entendeu contar deste modo.

            Wyler, que Jezabel, The best years of four lives e The little foxes o estabeleceram como mestre, nos desapontou a partir do décimo terço de Héritière. Esta decepção se confirma com Detective story e Carrie estragados por seus roteiros lamentáveis e pouco fizeram por ele. Com Roman Holliday ele retorna à cena de nossa admiração com uma elegância discreta e sensível. Realizando um filme de aparência fácil, ele demonstra que no gênero dito fácil ainda restam alguns buracos a preencher e que ainda não forma porque a “minoria” do gênero postulado geralmente faz um esforço menor. Ele, fez uma varredura limpa. Sobre este terreno estreito ele trabalhou como fez em The best years: em profundidade. Seu sujeito era o mais movente dos sujeitos do amor: seu nascimento e sua condenação ao instante mesmo onde ele nasce. E será exprimido no filme com grande delicadeza: jamais será a questão do amor. Não lembro de ter já visto um filme de amor ou jamais qualquer pessoa a ter dito a outra: “eu te amo”. Esta reserva insana surge, de modo mudo, à cena final da conferência de imprensa. Mas lá Wyler pode insistir porque o laço foi laçado, e o fosso do novamente alargado e porque esta cena é que é a verdadeira cena de amor do filme, mais que quaisquer beijos furtivos trocados às escondidas, porque são lá que são dadas as “evidências de amor” (a doação das fotos) e as promessas de fidelidade... de qualquer tipo metafísico.
            Frente a Gregory Peck, excelente como de costume, há, portando um nome terrível para o cinema, mas digno de portar, inominável em todos os pontos, Audrey Hepburn. Nem me darei ao ridículo de descobrir. Gigi, muito aplaudido, aclamado em Nova York em Ondine – e Giraudoux era o amado – “Oscar” 1954 – e quando farão eles mérito maior? – honrando as coberturas de Life, Time e Look, Audrey Hepburn é talvez hoje, aos vinte e quatro anos, a mais célebre das jovens iniciantes. Todos os adjetivos que faltam utilizar com precaução à convém: requintada, adorável, comovente, brincalhona como o vento, secreta como a noite, pequena lua, pequeno sol, jovem, princesa...

(publicado originalmente em Cahiers du cinéma, n° 34, em abril de 1954)

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