domingo, 14 de fevereiro de 2016

Van Gogh em preto e branco - Parte III

uma análise de Van Gogh, um filme de Alain Resnais
Martin Heidegger


Em A origem da obra de arte, Heidegger compõe uma interpretação de certa obra de Van Gogh que já se tornou muito famosa. Ele escreve sobre o par de sapatos de camponês, por sinal quadro que aparece no curta de Resnais. Escreve ele:
A partir da pintura de Van Gogh não podemos sequer estabelecer onde se encontram esses sapatos. Em torno deste par de sapatos de camponês, não há nada em que se integrem, a que possam pertencer, só um espaço indefinido. Nem sequer a eles estão presos os torrões de terra, ou do caminho do campo, algo que pudesse denunciar a sua utilização. Um par de sapatos de camponês e nada mais. Todavia...
Na escura abertura do interior gasto dos sapatos, fita-nos a dificuldade e o cansaço dos passos do trabalhador. Na gravidade rude e sólida dos sapatos está retida a tenacidade do lento caminhar pelos sulcos que se estendem até longe, sempre iguais, pelo campo, sobre o qual sopra um vento agreste. No couro, está a humildade e a fertilidade do solo. Sob as solas, insinua-se a solidão do caminho do campo, pela noite que cai. No apetrecho para calçar impera o apelo calado da terra, a sua muda oferta do trigo que amadurece e a sua inexplicável recusa na desolada improdutividade do campo no Inverno. Por este apetrecho passa o calado temor pela segurança do pão, a silenciosa alegria de vencer uma vez mais a miséria, a angústia do nascimento iminente e o temor ante a ameaça da morte.[1]

E por aí vai. (É preciso apontar o belo trabalho de tradução de Maria da Conceição Costa). O que é importante é que para chegar a este momento, a esta interpretação da obra do pintor, o filósofo alemão desenvolve um pensamento curioso: o utensílio - tomemos, como Heidegger, o caso particular do par de sapatos - faz parte de nosso cotidiano e não prestamos a devida atenção a ele. Simplesmente levanto da cama e calço meus sapatos. Sendo camponês, calço meus sapatos e vou para a labuta. Não me interrogo de que são feitos, a não ser que me depare com uma situação estranha. Estou a caminhar por uma estrada e me deparo com um trecho alagado. Olho para os sapatos e pergunto: será que eles resistem à água? Este questionamento do sujeito perante à água pode até nem ser feito. Quantas vezes não pisamos em poças d'água em dias chuvosos e nem nos lembramos de estar calçando um par de sapatos?

O caso em Heidegger é mostrar ao leitor um trabalho da arte frente à capacidade interpretativa do espectador. O sapato, apresentado numa pintura, está fora de seu cotidiano. Está envolto num jogo que seduz o raciocínio interpretativo para que seja feito o desvelamento - palavra chave deste texto - do utensílio e, por conseguinte, da obra. Ao ser capaz de enxergar no par de sapatos de camponês até mesmo "a ameaça da morte", Heidegger encara a obra e busca algo por trás dela, busca o seu desvelamento, a retira deste momento habitual a que estamos acostumados a encontrar o que ali se encontra retratado.


Seria uma crítica válida somente para a pintura? Certamente não. Todas as artes possuem tal capacidade. O caso particular do par de sapatos é uma ilustração. Por isso, nos voltemos ao cinema. Ao filme de Resnais, mais precisamente. O desvelamento dos apetrechos não é feito. Eles ainda assim nos são apresentados. Será?

É verdade que, para nós espectadores do filme, a impressão que passa de imediato - e até depois de visionado algumas vezes mais - é de que o filme está a apresentar o mundo de Van Gogh. Ele adentra aquele mundo. Sim, de fato ele o faz, e chegamos a esta conclusão em textos passados*. Mas ao adentrar este mundo da pintura de Van Gogh algo outro se mostra mais curioso. Desta vez, não é somente o sapato que não está em seu local habitual, cotidiano, como também a pintura não está no museu, mas numa sala de cinema. A câmera realiza uma panorâmica no interior do quadro de Van Gogh e encontra, para além de árvores e uma capela, pinceladas. O estranhamento deste encontro inesperado nos leva a uma abertura: estamos perante um filme.


Esta consciência de que não estamos perante às pinturas de Van Gogh, e sim perante ao filme de Alain Resnais já foi repetido em todos os textos desta série. Na verdade, foi conclusão dos dois anteriores. Assim, tentemos algo diferente, até porque o pensamento abordado permite que façamos.

Assumindo a premissa de utilizar as pinturas de Van Gogh como cenário para um filme biográfico do pintor, Resnais descobre algo mais: as pinturas não são meramente ilustrações para a realização de um filme educacional, elas são também confessionais, na medida em que Van Gogh colocou em cada uma delas a sua vida. Seu cotidiano no interior, seu trabalho religioso, sua ida para a grande cidade. Enquanto na pintura Heidegger é capaz de realizar a abertura do utensílio, Resnais, colocando em frente à pintura uma câmera de filmar, vê uma obra de arte realizada por um artista que registrou parte de sua vida. Temos, então, a arte que interroga a arte. Ao longo do curta de Resnais temos mais que um reconhecimento da vida de Van Gogh, como também um relato do processo de criação artística. O homem criador do mundo.


Heidegger, após realizar a interpretação do par de sapatos pintados por Van Gogh, chega a conclusão de que a obra de arte realiza a abertura do ente. "Na obra, se nela acontece uma abertura do ente, no que é e no modo como é, está em obra um acontecer da verdade"[2]. O cinema, ao encarar a pintura, encontrou nova forma artística. Uma forma artística diferente em seus modos de surgir. O cinema é maquinal, industrial. A pintura é artesanal. Acontece, no filme de Resnais, a verdade sobre a arte de Van Gogh.



* Parte I e Parte II

[1] HEIDEGGER. A origem da obra de arte. edições 70. p. 25.
[2] HEIDEGGER. A origem da obra de arte. edições 70. p. 27.

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