segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Van Gogh em preto e branco - Parte II

uma análise de Van Gogh, filme de Alain Resnais
André Bazin


Depois de ter falado, a título de introdução, sobre a fragmentação do espaço da pintura pelo cinema, nos aprofundamos na análise do curta de Resnais, desta vez com a ajuda de um leitor muito atento: André Bazin. Este, tendo assistido ao curta de Resnais e tendo lido os textos que os outros cineastas que faziam este tipo de filme escreveram para as revistas francesas sobre a composição desses filmes - diferentes do de Resnais, deixemos claro - nos levará a conclusões semelhantes àquelas que chegamos no texto anterior, mas nos dará mais propriedade de vermos a obra com maior clareza.

Para compor este texto, façamos a divisão por partes.

1) O cinema rouba das outras artes para ser uma forma artística diferente das outras. Isto porque funde características das demais artes com propriedade. O espectador percebe por alto as diferentes artes que servem de material essencial ao cinema, como o teatro (na encenação), a música (na trilha sonora) e a literatura (no enredo). Mas vai além disso, mesmo nas artes citadas. Do teatro, o cinema rouba o movimento (interior ao quadro); da música, o tempo; da literatura, o ritmo; da pintura, o espaço. Estranho dividir movimento e espaço em duas artes? Sim, é. Mas, enquanto o movimento no cinema se dá em profundidade, a composição espacial respeita um padrão próprio da pintura - que primeiro serviu a fotografia. Temos uma tela que precisa ser preenchida com corpos e cores. O movimento surge da união destes quadros compostos. O tempo é algo a parte, uma categoria metafísica do cinema (não confundir metafísica com teologia, erro comum).


2) "Mesmo respeitando escrupulosamente os dados da história da arte, o cinema basearia ainda seu trabalho numa operação esteticamente contra natureza"[1], escreve Bazin. Sim, coloquei acima que o cinema rouba da pintura, mas nem por isso eles são a mesma coisa. O cinema herdou da fotografia o realismo. Ao fotografar uma pintura, o cinema passa ao espectador a impressão de ver a tela verdadeira. Não é a tela verdadeira. É uma cópia. Mais que isso, a plasticidade das duas artes é bem diferente. Em especial para este detalhe que chama atenção no título deste texto: Van Gogh é famoso pelo uso de cores, tratá-lo em preto e branco é quase um crime às artes. Mas, mesmo que fotografada em cores, como saber que estou a ver as cores do quadro real? A câmera passa por um processo técnico de adequação com a luminosidade local. No fim das contas, teríamos a impressão do fotógrafo sobre a fotografia, ao invés da fotografia. O máximo que podemos alcançar com esta exposição é que o quadro, por ter sido fotografado, existe (uma proposição bartheana).

3) Há um mal no filme de pintura: transformar-se num livro de imagens, num livro de fotografias. A medida que o tempo passa, as imagens se sucedem, como se eu estivesse a passar as páginas de um livro que contivesse aquelas imagens. Composição extremamente simplista e um tanto preguiçosa. Como visto no texto anterior, e como pontuado por Bazin em Pintura e cinema, Resnais trata a obra de Van Gogh como se fosse uma única pintura com uma orgânica. O que significa que toda a obra do pintor seria dotada de uma temática comum. Mas a obra de Van Gogh não é assim. Nem Resnais quer fazê-la assim. Não há no curta do cineasta uma busca de analisar a obra de Van Gogh em busca de respostas. Há, ao contrário, a vontade de provocar a curiosidade no espectador. Quero conhecer mais a obra de Van Gogh, mas sem um intermediário (a câmera).

a camponesa de costas para a câmera...
4) "Em certo sentido, pode-se até mesmo dizer que não se trata mais de pintura, mas sim de cinema, uma vez que a obra inicial é decomposta e recomposta pela câmera"[2]. A curiosidade do cineasta não é a de analisar a pintura, ainda que seja um filme educativo, mas se valer daquele espaço para contar uma história. E pelos propósitos educativos, a história de Van Gogh, autor daquele espaço. A câmera, então, se perde em meio àquela imensidão, encontrando suas personagens e suas tramas. Tudo parece conectada pela narração, mas surge de dentro dos próprios quadros, estes que despertam na câmera a vida que por fim enxergamos no curta-metragem. Ao invés de se arriscar numa leitura que poderia deixar sua obra datada, numa análise que poderia ser deixada de lado pelos crítico-teóricos futuros, ele opta por fazer um filme sobre o autor de seu material base. É daí que Resnais encontra a coragem de invadir as pinturas de Van Gogh com filme em preto e branco, filmar suas personagens e ainda fazer campo/contracampo das figuras. Vemos uma mulher numa janela, mas não vemos seu rosto. A câmera entra na casa para nos fornecer o close desta camponesa. Van Gogh conhecia estas pessoas, e é importante para o filme nos fazer conhecer também.

5) "O cinema não desempenha de modo algum o papel subordinado e didático das fotografias num álbum ou das projeções ficas numa conferência"[3]. Afinal, o curta de Resnais é ou não educativo? É. Mas não é um filme educativo tradicional. Um filme escolar, em que o narrador vá falar dos modos de composição do quadro. Não. É um filme educativo porque nos apresenta a obra de um autor. O que Resnais faz é uma introdução a Van Gogh, sem nos fornecer Van Gogh. Deixa a curiosidade de conhecê-los melhor.

...que invade a casa para fazer seu close
6) O filme avança num espaço estranho. A câmera se aproxima dos lugares e descobre pinceladas. O que são estas coisas diferentes? Estamos a ver um filme, com uma narrativa. Não vemos pinturas. Não estamos de frente com um livro de fotografias. Mas estas pinceladas causam estranhamento. O espaço filmado diverge do que habitualmente se vê. É cinema, mas há algo de diferente. É animação? Não. É outra obra de arte. Mas como não temos a obra por completo, continuamos a enxergar um mundo diverso. É um novo gênero de filmes: o filme de pintura. Mais que isso, é um cinema subjetivo. É a apreensão do mundo pelo pintor (que fornece o espaço) e do cineasta (que junta diferentes obras numa só). "Assim sendo, o cineasta nos introduziu psicologicamente no mundo do artista". Não podemos escapar do mundo do artista, porque o mundo é a pintura.

7) Curiosa conclusão a que chegamos, desta vez. Resnais nos introduziu ao mundo de Van Gogh, mas foi capaz de fazer uma obra de Resnais. São dois artistas em uma obra só, sem uma colaboração direta de um com o outro. Somente Resnais sabe quem foi Van Gogh. Não há cooperação, ainda assim surge este filme. Que é filme, no fim das contas, não uma pintura. E devemos respeitá-lo assim. Criticou-se, à época, o fato de ser um filme em preto e branco. De não apresentar as pinturas integralmente. Ora!, isto não é uma exposição, é um filme! É verdade que é uma interpretação cinematográfica da pintura, mas não é feita uma análise. Estamos diante de um filme. É este o ponto que defende Bazin. Resnais realiza uma união entre filme e pintura para a produção de uma obra cinematográfica. "Indignar-se com isso é tão absurdo quanto condenar a ópera em nome do teatro e da música"[4].


[1] BAZIN. Pintura e cinema. Em: O que é o cinema?. Cosac Naify, p. 205.
[2] BAZIN. Van Gogh. Em: Foco Revista de Cinema.
[3] BAZIN. Pintura e cinema. Em: O que é o cinema?. Cosac Naify, p. 209.
[4] BAZIN. Pintura e cinema. Em: O que é o cinema?. Cosac Naify, p. 209.

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