quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Eu Matei Jesse James de Samuel Fuller (I shot Jesse James, 1949)


Começo esse texto com uma impressão anterior ao visionamento de Matei Jesse James, filme de Samuel Fuller. Esperava que o filme fosse narrar a relação entre o famoso bandido do velho oeste e seu assassino. Apesar de desenhada ao início da película, a relação das duas figuras é encerrada brevemente pelo assassínio. James, que não treme antes de atirar nos funcionários do banco assim que ouve o alarme, leva um tiro pelas costas enquanto arruma um quadro em casa. Bob Ford, parceiro de banditismo, é quem desfere o golpe mortal. Esse é o princípio do filme, o ponto chave de construção da psicologia do protagonista de Fuller: Bob Ford é um homem violento, que não pensa por si, e de emoções à flor da pele. Matou o líder de seu bando desejando a liberdade. Sonha com poder andar pelas ruas sem ser alvo de atenção ou de uma arma; tudo isso acompanhado de sua futura esposa, Cinthia.

O sonho de uma vida normal não vem. Bob se arrepende de seu ato, mas não admite em voz alta. Esse arrependimento surge nos gestos. O principal deles quando interrompe uma briga de bar. Assistindo dois homens trocando socos e chutes, Bob Ford vê o parceiro de um deles puxar uma arma para dar fim ao homem que levava vantagem. O assassino de Jesse James puxa o mesmo revolver que utilizou para matar a lenda do faroeste, e atira no braço do homem. Caminha lentamente para ele, que arregala os olhos. Faz um discurso sobre atirar nas costas de um homem, coisa indigna. Dá entender de que teria deixado ele atirar se não fosse para fazê-lo com o oponente de costas: o ataque desleal. É neste momento em que uma memória surge não só para Bob Ford como para o espectador. O assassinato de Jesse James: a ação pacata do homem que observa seus pertences e corrige seus posicionamentos. O arrependimento de Bob Ford surge com força nesta cena. E Kelley, o homem que foi protegido, sabe disso.


Jesse James era o mentor de Bob Ford, nesta fábula de Fuller. Foi ele quem presenteou Bob com o revolver que viria a tirar-lhe a vida. O revolver é como uma presença constante daquele momento. Fuller não faz ressalva quanto a isso, mas ele está sempre ali. Bob Ford não se livrou da arma que usou para matar James, e continua a utilizá-la, seja para impedir um homem de atirar em outro pelas costas, seja para matar um puma que ameaça um amigo nas montanhas. O revolver é o símbolo da ordem em muitos faroestes, mas neste torna-se sinal de outra coisa. Está muito próximo de ser uma imagem-lembrança. Quando alguém nos presenteia com algo, fica a lembrança dela junto com o presente. E a imagem de Jesse James dificilmente poderá ser separada daquele revolver que ele escondia numa manta e que presentou a Bob Ford enquanto tomava banho.

É esse o ponto absurdo que ressalta em meio à narrativa. O Estado que promete absolvição e recompensa para quem do bando de Jesse James que entregá-lo vivo ou morto para as autoridades. Quando Bob Ford o faz, não tem respeito nem do policial que não lhe entrega a recompensa que deveria. A ordem e a lei que se encontram com o revolver se mostram falhas. Mais que isso, mostram-se injustas. Bob Ford assassinou seu amigo em busca de uma vida melhor, que batalhou por encontrar, mas que não consegue. Se junta a Cinthia, sua noiva que trabalha como atriz e diz que também entrará para o mundo do entretenimento. Fazendo o quê?, pergunta ela. Reencenando a morte de Jesse James. Ela fica chocada. Já não pode mais amá-lo. Temos um sopro da fantasia da tragédia, como tão bem Billy Wilder nos mostra em A montanha dos 7 abutres (Ace in the hole), mas esta lembrança dolorosa que acompanha Bob Ford por todo filme é resgatada. O ator de costas, o cenário montado, e ele com a mesma arma na mão. Sai do palco e o público vaia, espera ver o acontecido como nós, espectadores de cinema, vimos.


Como o protagonista de La Jetée, Bob Ford também é um homem assombrado por uma imagem. Mas desta vez não é uma imagem da infância - apesar de Jesse James ter contornos de um pai*. É a imagem de uma vida passada. O faroeste perde, assim, seu ponto de base: o assassinato. O protagonista assassino se sente culpado. Já não consegue realizar nenhum outro ao longo da película, por mais que tente, nem mesmo numa encenação. Sua noiva também não consegue embarcar neste caminho. Não acredita que ele teve coragem de matar um velho amigo. Não pode perdoá-lo por isso. E deixa de amá-lo. Quando Bob Ford encara Kelley, a nova paixão de sua noiva, ele está nas sombras. Kelley, sabendo que seu opositor teme esta lembrança, se volta de costas. Bob Ford grita, mas não atira. Em seu leito de morte revela o que em todos estes momentos Fuller já nos tinha mostrado: ter matado Jesse James não tinha melhorado sua vida. Como pode a sociedade corroborar com algo tão medonho? No fundo, ela não o faz - olha sempre torto para este sujeito que buscava liberdade. Bob Ford é sempre um marginal, esta figura do escuro, que se abaixa sob a janela de Jesse James à noite, essa figura que precisa de alguém mais imponente a sua frente. É um jogo do absurdo. Por mais que Bob Ford tente, ele nunca se redimirá por este ato. E por que permitir que ele fosse fazê-lo na esperança de mudar de vida?


*Ler texto da contracampo que faz tal sugestão.

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