quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

A história da eternidade de Camilo Cavalcanti (2014)


Vamos por partes.

1. O que primeiro chama atenção quanto a este filme é seu título: A história da eternidade. Trabalho complexo, que já serviu de matéria até para Jorge Luis Borges em ensaio de mesmo título. No caso do debute de Camilo Cavalcanti, o filme se passa num lugarejo no meio do sertão que parece não caminhar num mesmo ritmo que o resto da civilização. A tevê chegou, fica na praça central, mas quase ninguém perde seu tempo assistindo, e ela permanece sempre ligada falando para ninguém. O telefone também é compartilhado por todos, um telefone público à margem do vilarejo, para onde as pessoas correm quando querem falar com o mundo do lado de fora, não só em outro espaço mas também em outro tempo.

2. O sertão em processo de desertificação eterno parece ser o local ideal para se filmar a história da eternidade. O tempo não marca sua presença no deserto sertanejo. A paisagem é sempre a mesma, e aos poucos vamos descobrindo que as pessoas também são as mesmas, quase que numa brincadeira nietzscheana de mal gosto. O tempo passa para as personagens, mas para aquele cenário elas são sempre as mesmas postas numa eternidade. Num tempo que nem se sucede nem é simultâneo, é sempre permanência. O Deus de Agostinho não sente a passagem do tempo porque não envelhece. O sertão de Camilo Cavalcanti também não sente a passagem do tempo. Quem sente a passagem do tempo são as pessoas nele alocadas, que envelhecem, que morrem.


3. A eternidade é como um grande baile de vida e morte e nova vida. Tudo começa com o céu, esta extensão do mar que cobre o sertão desértico, que acalenta as esperanças de uma chuva ocasional para surgimento e manutenção da vida. Em quadro entram um garoto e um pássaro. Com um estilingue o garoto atira no pássaro que cai no chão agonizando e é tomado pelo menino que o guarda numa bolsa. Ao fundo um sanfoneiro cego sentado debaixo de uma árvore sem folhas toca a música de introdução ao filme. Entra em quadro uma procissão, um homem segura um caixão pequeno sob um dos braços. A morte é uma constante neste baile de sobrevivência na eternidade. O pássaro morre para servir de alimento. Os bodes morrem para servir de alimento. E o sertão se alimenta das pessoas que são por ele engolidas nas covas rasas abertas em terra seca. É preciso que as pessoas mudem, o único eterno é o deserto.

4. São três histórias contadas ao mesmo tempo, dividias em três capítulos. A primeira das histórias que nos surge é a da mãe do menino morto na cena de abertura. O pai da criança vai embora de casa sem dizer uma palavra. A mulher entra em depressão e se tranca em casa. Logo surge uma luz ao fim do túnel em sua vida: o sanfoneiro. Tal como o menino de Cinema paradiso, ele promete para ela que ficará na porta de sua casa todos os dias até que ela o chame para dentro. Toca suas músicas embalando os dias da pobre mulher.


A segunda história é a de uma senhora que vive só no vilarejo. Sua filha se mudou há muitos anos para São Paulo, como ela revela em uma ligação recebida. Seu neto, que somente conheceu quando criança, aparece em casa agora já homem feito, de cabelo pintado e brincos nas orelhas. Uma imagem destoante do resto das pessoas daquele lugar. A avó não está acostumada com aquela relação. Confundida por uma das revistas pornográficas que encontra nas coisas do jovem, imagina sentir por ele uma atração sexual. Mas há nela um desejo há muito esquecido de mãe. Este sentimento carnal de proteção. De trazê-lo de volta ao útero, como em canção de Chico Buarque. Quando o neto diz que está lá fugido porque fez coisas ruins, ela o amamenta. Ele se torna este bebê que chora e que necessita do peito para se acalmar e dormir. O problema é que ele é de uma temporalidade diferente. Não poderá se adequar àquele cenário. E os leões logo surgem para abater a zebra.

A terceira história é a da menina, Alfonsina, que assumiu o lugar da mãe de organizadora do lar. Enquanto seu pai e seus quatro irmãos trabalham fora ela tem que cuidar do almoço, da janta e da limpeza da casa. Seu convívio melhor é com seu tio, um artista que não consegue se encaixar muito bem dentro daquele vilarejo, em especial pela relação conturbada com seu irmão. A menina sonha com o mar. Tem na parede do quarto diversas imagens do mar. Deita em frente a elas e fica sonhando. O tio, que já viu o mar, conta para ela por meio da recitação de poemas como é a sensação de ver o mar pela primeira vez. A relação que se pauta é de admiração. Como no caso da avó com seu neto, a menina também confundirá esta relação com seu tio. Quando ele lhe abre os horizontes imaginativos para que ela possa, finalmente, ver o mar em meio ao deserto, ela se acredita apaixonada por ele.


5. São três gerações de mulheres que passam por um mesmo problema e que tem que manter a cabeça erguida e continuar a vida. É a lei do sertão eterno. A menina perde o tio, a mulher perde o marido, a avó perde o neto. Antes disso a menina perdeu a mãe, a mulher o filho, a avó a filha (que foi para São Paulo, como dito). Mas as coisas não param depois destas perdas. O deserto permanece o mesmo e a vida delas deve continuar para que mais vida possa vir e manter este ciclo eterno. Por pouco que se viva, ainda assim vale a pena. É o que o personagem de Irandhir Santos está lá para mostrar: para além disso tudo há a beleza.

6. Na roupa do artista, ao interpretar Fala de Secos e Molhados, há o globo terrestre. E um osso. E algumas pedrinhas como pedras preciosas. Ele é o personagem mais comedido do filme, apesar do mais sábio. Interpreta a canção para todos do vilarejo numa dança mostrando-lhes que é necessária esta compreensão anterior à ação, coisa que seu irmão é o primeiro a ignorar. As três mulheres, neste momento, vivem um momento de confusão natural frente o desenrolar dos fatos de suas vidas. Mas é somente a passagem do tempo que lhes mostrará como as coisas são.

7. As portas da libertação desta eternidade faceira que mantém as coisas num eterno retorno será quebrada pela mãe. Após finalmente acolher o sanfoneiro ela desaparece. Retorna tempos depois, numa elipse, com uma filha. Um rompimento neste destino traiçoeiro.

8. E eis que brota da eternidade desértica, o amor.

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...