sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Noite e Neblina de Alain Resnais por Jacques Doniol-Valcroze


Noite e neblina é um filme que, a princípio, não requer nenhuma crítica de ordem cinematográfica. A matéria mesma da qual é tecido este oratório fúnebre pede respeito, uma espécie de silêncio cuja ruptura poderá, merecidamente, ser considerado como sacrilégio. Me explico. Suponhamos que, cinematograficamente falando, Noite e neblina seja um filme ruim. Não é absurdo imaginar o fato que, mesmo em posse dos mesmos documentos e fornecido das mesmas possibilidades materiais, outro realizador que não Alain Resnais resultaria em outra coisa que uma simples adição de partes de horrores ou, o que seria pior, a uma acusação de ódio, próximo à demagogia. Mesmo teria sido, se nos permite a criticar este filme, a simples presença das imagens suscitar uma soma de sentimentos ou a crítica que não teria lugar.

Poderia, então, ficar dizendo que Alain Resnais fez evidência com o máximo possível de sobriedade, de discrição e de elevação do pensamento. Seria, portanto, um falso pudor e este filme em toda sua verdade, seria o primeiro de uma franquia. É importante, então, a minha vista, de saber também que Noite e neblina é chefe de obras do filme de montagem que entre os documentários que a empregam, as passagens filmadas (a cores) na Polônia, o comentário de Jean Cayrol e a música de Hans Eisler, Resnais realizou uma extraordinária osmose a qual não é mais do que uma canção única e da qual é incrível o paradoxo, que se satisfazer em sua inelutável progressão. São assim os suplícios de Goya, ou as páginas cruéis de Kafka. Noite e neblina não faria esta força se não fosse antes uma grande obra de arte, o mais petrificante "esfolado" de todos os filmes-testemunha, se o caminho da gestação não passasse pela abstração quase indiferente da composição antes de atingir seu objetivo ou em seguida mais nada contar que os insondáveis fenômenos, o retrato inesquecível do monstro.

*

Arte do esquecimento e do tempo que passa, o cinema de repente em lembrar do sangue e do sofrimento, nos lança à face do filme da memória e do tempo suspenso pela eternidade. Eu já disse, o primeiro reflexo é o silêncio, a primeira reação, a impossibilidade de dizer duas palavras, tão grande é a impressão que nove milhões de palavras não podem fazer justiça, serão indecência e respeito perdidos; mas só o silêncio chama o silêncio, Noite e neblina é o trovão e a tempestade e, mesmo com seu próprio ruído ele sufoca sempre os ecos que fará, então ele mistura a denúncia com seu grito com a denúncia e seu grito.

Noite e neblina é o filme do escândalo e do despudor. Chega a este degrau de horror, de baixeza e indignidade do homem, quase sempre, prefere se silenciar; pelo silêncio manifesto sua recusa admite, não será em condenar, que este carrasco é seu irmão e que ele tem uma mãe. Se lembrar de sua existência, é reconhecer que é da mesma raça e que, de nossa indiferença ou de nossa covardia a ignomínia dos massacres, existe apenas uma terrificante mas simples graduação no degrau de culpabilidade, que não tem nem Deus nem o amor desta terra de desolação ou inocência, por milhões, poderiam ser torturados e morrer na vergonha e humilhação sem que a terra trema, todos os vulcões acordem e o sol exploda. É porque, durante e depois, o deportado é vítima. É porque aquele que voltou não é um objeto de constrangimento por seu semblante, portador da visão de uma luz insuportável: ele nos olha e nós sabemos que ele perdoará, talvez, a seus executores, mas não a nós, não na terra, não aos vulcões, não ao sol.

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Noite e neblina nos mostra que além do horror e da atrocidade, ainda há o horror e a atrocidade. Chegado a este ponto extremo da degradação, há mais para se salvar do nada que a fé cega no homem e a fazer todo o caminho no sentido da esperança. Esta prova desesperada de humanismo retorna para provar a santidade dos corpos pela existência do câncer e a isto descobrir: havia bondade nos homens, a coragem, a dignidade, a inocência das crianças, a graça das mulheres, a serenidade dos velhos. Depois da terceira visão, Noite e neblina, torna-se a história perturbadora da ternura e do amor. Todos estes corpos confundidos amavam-se como se estivessem vivos, porque eles não nos deixarão mais.

[Cahiers du cinema, n° 59, p. 37, 38)

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