segunda-feira, 24 de agosto de 2015

E o papel social da crítica de cinema?

esta postagem segue como continuação de "O que é crítica de cinema, afinal?"
Godard no maio de 68
No último texto publicado aqui no blog fizemos uma breve discussão sobre o que seria a crítica de cinema. Mas nela ficou um gosto amargo. Dizíamos que o crítico de cinema não pode detratar uma obra partindo de sua ideologia, o que absolveria, de certo modo, o cinema de propaganda fascista. Sim, é verdade que lá dissemos que um crítico pode se posicionar dentro deste debate, mas não no sentido de denegrir a obra, que pode ser muito bem construída dentro de sua própria proposta. O que vale a um crítico de cinema é, antes de tudo, o cinema.

O problema que nos surge é: qual seria o papel social do crítico? Por que seria necessária a sua existência? Ainda retomando ao texto anterior, o crítico de cinema não pode ser posto como o sujeito com certo conhecimento de uma arte e que faz indicações de quais filmes, dentre os lançamentos da semana, vale a pena assistir. O papel dele não é o de publicitário. Sua importância está na sobrevivência de um mundo artístico. Assim como é necessário o artista é necessário o pensador da obra de arte. É preciso que exista o sujeito que vá enxergar naquela proposta a sua base e a construção dela.

A obra de arte se dirige sempre a muitas pessoas. Na verdade, nunca se sabe ao certo o tamanho da quantidade populacional que uma obra poderá alcançar. Ela pode tanto ficar restrita a determinados grupos político-ideológicos, a uma classe social, quanto chegar a toda a sociedade por igual (o que é sempre mais raro, mas acontece). Em qualquer um dos casos, existe uma ideia sendo abraçada pelo artista e que poderá ser comprada por seu espectador/leitor. E sabemos muito bem o poder agregador e manipulador dos discursos por trás das artes, em especial do cinema.
 
Eisenstein e Disney
Façamos um breve passeio pela história do cinematógrafo: em 1915, David Griffith lança O nascimento de uma nação. Hoje vista como uma obra racista, na época fora vista como apresentando o perigo que representam os negros para a população "de bem" dos EUA. Resultado: a Ku Klux Klan nunca teve tantos membros na história!: pouco mais de 2 milhões. Na União Soviética, Lênin decreta: das artes, o cinema é, para nós, a mais importante. O que significa que a revolução seria filmada pelas câmeras soviéticas, tanto para sonhar a utopia abraçada, quanto para lembrar o motivo de terem feito a revolução (como em Encouraçado Potemkin). Na década de 1930 é a vez do nazi-fascismo abraçar o cinema como arma de propaganda. Todo o cinema alemão e italiano é convertido em máquina de manipulação de suas respectivas populações. Nos EUA de 1940, dezenas são os filmes realizados em prol dos esforços de guerra: é preciso convencer a população de que há um perigo real e justificar a entrada do país na guerra (conquistando seu apoio incondicional, até mesmo para permitir seus filhos a partir).

E então? Qual seria o papel do crítico de cinema frente a estes filmes de bandeira ideológica tão agressiva assim? Calar-se frente aos seus discursos? Em primeiro lugar, a atrocidade do discurso muda de pessoa para pessoa. Há até mesmo quem acredite que o discurso dos filmes nazistas não seja tão ruim assim. E isso pode ser influenciado na crítica. E a crítica passaria, deste modo, a ser mais uma arma de manipulação da população. Não bastando o bom serviço dos cineastas em fazer a tal obra. Por isso dizemos aqui: o crítico de cinema não pode defender uma ideologia em sua crítica. Deve abster-se. O que ele tem que fazer é, antes de qualquer coisa, analisar o filme.

O maior problema que haveria nestes casos não é nem tanto o trabalho do crítico, mas o espectador/leitor procurar o amparo de uma crítica depois de ter sido convencido pelo discurso da obra. Ao depararmo-nos com um filme não devemos aceitar o que ele nos diz, mas digerir suas informações - o mesmo deve ser feito com tudo, até mesmo com textos jornalísticos e a presente tentativa de ensaio. E aqui entra algo que já havíamos falado no texto anterior: a verdadeira motivação da existência de um crítico.
 
O falso cego do M de Fritz Lang
A crítica de cinema (e de todas as artes) deve ampliar a experiência do espectador/leitor com a obra, mesmo depois desta já haver terminado. O que significa que por meio deste texto de comentário o sujeito que acabara de ver/ouvir uma obra artística passará a pensar nela. E, por meio das próprias formulações, dizer se o discurso empregado na obra se sustenta ou não. Se o artista insere o espectador/leitor em outro mundo, em que lhes são mostradas novas possibilidades, o crítico lhe questionará: isso se sustenta?

Enquanto filme pode, sim. Enquanto fala para um mundo melhor, pode ser que não. O que é necessário numa crítica é fazer com que esta digestão da obra se mantenha por tempo prolongado. Por tempo suficiente. Para que aquela propaganda ideológica seja vista enquanto tal e não me servindo. Ou me servindo. O real papel social da crítica de arte é pôr o leitor a pensar para além daquilo que ele simplesmente viu e ouviu. Será que é realmente todo mundo mau, ou Fritz Lang só escolheu a escória da sociedade para retratar em M - o vampiro de Dusseldorf e assim fazer crer seu espectador (de que há o mau em todos)? A reflexão do filme transcende a própria obra. E os filmes políticos são os que mais perigo trazem à sociedade - envolver a população em uma ideologia própria ao autor. Mas será que o filme é realmente um retrato da sociedade? É o que é preciso ser perguntado pelo crítico e, por extensão, pelo espectador.

O papel social da crítica de cinema, assim colocada, faz eco ao esclarecimento (também conhecido por iluminismo) kantiano: é preciso dar as possibilidades ao sujeito para que ele pense por conta própria e não seja enrolado por ninguém. Posso me emocionar com um filme de propaganda fascista, mas não abraçar sua mensagem - e com isto criar a barreira entre a ficção e a realidade. Mas posso enxergar a vida humana em um filme - é o que fazem os Lumière, De Sica, Kiarostami, Coutinho... Mas é necessário que pense por mim mesmo, enquanto leitor de crítica e cinéfilo, e não seja convencido por ninguém. E o papel do crítico é exatamente este: abrir-me o mundo de possibilidades de interpretações da obra para que não vá cegamente abrir uma única porta - aquela que me fora apontada.

Aos filmes se é dada a possibilidade de abraçar a ideologia que for: afinal de contas, o que é o cinema se lhe for tirada a capacidade de sonhar?

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