segunda-feira, 20 de julho de 2015

Terra em chamas de F. W. Murnau (Der brennende Acker, 1922)


É muito curioso como o sucesso de Nosferatu imergiu a obra de Murnau sob a impressão de ser ele um cineasta de filmes fantásticos. Salvo exceção de um ou outro (como Fausto), este é um gênero que quase não se repete na filmografia do diretor. Ainda assim, a esperança em cada novo filme de sua fase alemã, a esperança ressurge. Em especial quando se trata de seus filmes do início da década de 1920. Mas a esperança não é cumprida. O que não significa que os filmes sejam ruins. Pelo contrário.

Neste Terra em chamas, o início parecia nos dirigir exatamente para este caminho. Mas a parceria de Murnau com Thea von Harbou mostra que não será este o percurso. A escritora e roteirista tem uma tendência muito grande de fazer de seus filmes-debate sobre economia, sobre negócios - e o problema do capitalismo. Não será difícil de imaginar a problemática deste filme caminhando por semelhante direção. O que parece diferente aqui é que o filme já não será submetido à interrupções de letreiros como aconteceu em O castelo Vogelod, ultima parceria entre von Harbou e Murnau antes de Terra em chamas.


Tudo começa com um grupo de mulheres num cômodo de uma casa rural. Elas se perturbam pelo vento vindo de uma das propriedades ao lado. Nada é plantado naquele chão, e nada nasce. A lenda diz que é um lugar amaldiçoado. Ninguém na região o quer, e o seu valor é, aparentemente, muito baixo. Uma das mulheres do grupo, uma senhora, torna-se o centro das atenções por ser a única capaz de contar a história do campo de fogo. Ao contrário do que poderia acontecer em O castelo Vogelod, aqui a história contada pela senhora já não será por meio - unicamente - dos letreiros. A câmera fará este trabalho de retorno ao passado para mostrar-nos um grupo de homens explorando a terra. Após terem aberto um buraco na propriedade, um dos homens desce com uma lanterna e o buraco explode. Desde então surgiu esta noção de que a propriedade é inútil - que é "o campo de fogo".

Com seu pai morrendo, Johannes retorna à casa da família na fazenda. São camponeses pobres, e o letreiro logo anuncia que ele é muito ambicioso. O pai morre, e Johannes consegue emprego como secretário de um fazendeiro rico da região. Contrariando o desejo do pai, Johannes não se casa com Maria - a típica camponesa de Murnau, a personagem que ganha todo nosso afeto - e vai trabalhar na casa de Rudenburgs. Escutando uma conversa entre o fazendeiro e alguns pesquisadores, descobre o que realmente se esconde por trás daquela terra ignorada pelas pessoas da região: petróleo. Esconde-se para que não percebam sua presença ali. Mais tarde lhe é dada a oportunidade de ser o redator do testamento do moribundo patrão - que não sabia que ele escutara sua conversa. Exatamente por isso ele irá até a esposa do fazendeiro dizer que está por ela apaixonado - e ela igualmente. Isso porque no testamento o fazendeiro deixa o campo de fogo para sua esposa.


A história, que parecia descambar para um terreno fértil à escrita de von Harbou, transforma-se numa obra essencialmente "murnauniana". É o problema do homem ambicioso que põe em sua frente a própria felicidade em busca do ganho financeiro. Ele se casa com uma mulher que não ama para poder fazer negócios. E mais uma vez esta a dualidade entre o homem da cidade e o camponês simples. O primeiro quer sempre mais, o segundo não possui grandes demandas e se contenta com o simples para ser feliz. Peter, irmão de Johannes, pede a mão de Maria em casamento somente para fazê-la feliz. Mas ela nega, está apaixonada por Johannes e não poderá ficar com mais ninguém - mesmo que seu amado esteja agora com outra mulher.

Em mais um conto moral de Murnau, a ambição será o próprio golpe de misericórdia. A filha do fazendeiro, também apaixonada por Johannes, descobre que ele somente se casou com sua madrasta pela terra de fogo e o petróleo dela. Quando começam a extrair petróleo ela invade a terra e ateia fogo ao petróleo. A desolação de Johannes se apresenta. Seu trabalho para finalmente ter conquistado tudo aquilo estava acabado. Sua chance de felicidade arruinada. Sai do quadro vermelho do fogo que queima o petróleo para o quadro azul do frio da neve que congelou as margens do rio. Acredita estar sozinho, mas Maria o segue de perto. Mal imagina ele que o calor da presença dela poderá acender-lhe algo mais profundo que o que o petróleo enterrado jamais poderia.


Os personagens de Murnau frequentemente demonstram este caráter: o desapego da posse para que se contente com a companhia uns dos outros. A felicidade está em viver com quem se ama, não com aquilo que deseja possuir (a coisa impessoal). E por vezes nesta construção surge o retorno à simplicidade da vida, sempre representada pelos camponeses que não desejam grandes fortunas, tão somente compartilhar a presença dos outros. E o trabalho como sendo um modo de permanecer sempre nesta presença. Também o trabalho deve ser pessoal. Estas ideias se perdem ao chegar à cidade, e os personagens urbanos de Murnau sempre o demonstram. É necessário, então, um retorno ao campo - aos valores de uma boa convivência. O homem não como produto (como a garçonete de Pão nosso de cada dia), mas como emotivo. Não enquanto meio, mas enquanto fim.

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