sexta-feira, 10 de julho de 2015

Ópera do malandro de Ruy Guerra (1986)


Ruy Guerra é um dos cineastas brasileiros* mais interessantes. Desde sua estréia em princípios dos anos 1960 com Os cafajestes, o cineasta já mostrava o domínio da narrativa cinematográfica, o que salta aos olhos especialmente em Os fuzis. É nesta obra que o posicionamento político da filmografia de Ruy começa a se desenhar, até chegar nos anos 1980 a esta adaptação cinematográfica da obra de Chico Buarque, Ópera do malandro. A colocação de Ruy como diretor de obra tão querida do público brasileiros não poderia ser mais acertada. Porque o cinema do cineasta sempre demonstrou certo refinamento que faltava ao resto do cinema brasileiro - em especial na década de 1960. Esta falta de refinamento não deve ser entendida como falta de qualidade!

Mas algo soa estranho nesta obra. E não é pelo fato de ser um dos raros musicais produzidos pelo cinema nacional - o que demonstra o desconforto do cineasta com o gênero, já que não há em que se amparar ao filmar obra semelhante senão nos filmes anteriores ao cinema novo. Com os anos 1980 vieram uma estética a se impor ao cinema mundial e que muito prejudicou o trato narrativo cinematográfico de muitos filmes. Uma estética de corte ágil, propagada em especial pelo surgimento dos videoclipes da as caras no filme de Ruy. Mas não deveria. E quando surge é extremamente incômoda.


Os números musicais são bem elaborados - a equipe do filme é composta por alguns dos melhores profissionais da arte brasileira - e em alguns deles são vários os dançarinos postos em cena. Mas a escolha é de cortar. Fragmentar o espaço. E aquela multidão de dançarinos se resume a alguns pés que surgem ao redor dos pés de Max, o protagonista que dança na rua. Fred Astaire já tinha mostrado que isso não podia ser feito! E se não dá para comparar Edson Celulary a Astaire, a escolha seria preferível de misturá-lo ao meio da multidão de dançarinos.

O problema é que em meio a estes muitos cortes, existem aqueles em que nos apresentam o protagonista dançando de corpo inteiro. Se a coreografia não era tão complexa, a ponto de ser permitido aqui e ali filmá-lo de corpo inteiro, por que não fazê-lo durante toda a cena? Esta é uma lição que Ruy deveria ter aprendido assistindo aos filmes musicais de George Stevens ou Mark Sandrich. Este ultimo, o que mais filmou o par Ginger e Fred, era mestre em saber filmar musical. Se os produtores lhe incumbiam de filmar grupos de dançarinos em sincronia, era isso que ele fazia. E se fosse necessário criar um travelling para poder aumentar a exuberância da cena, ele ia lá e fazia. Não é crime algum aumentar a exuberância de um gênero artístico que já é, por si só, exuberante.


Mas não há somente equívocos no filme. Há também muitas decisões acertadas, o que valorizam em muito a obra. Uma delas é saber quando fazer uma cena sem a necessidade de corte ou mesmo de uma apresentação de dança. E daí a confiar nas capacidades representativas tanto com a câmera quanto de suas atrizes. Um destes casos é dar espaço para que uma inspirada Elba Ramalho possa deixar fluir a Margot que há dentro de si por meio da música. Mais do que isso, a correspondência entre o discurso musical que expõe o grito emocional da personagem, eu vou voltar... e a pichação no muro às suas costas em que se encontra escrito "democracia" - um clamor contra a ditadura real em que vivia o autor da obra - quando a escreveu - e a fictícia em que viviam os personagens (ainda que 1941 o Brasil, de fato, vivesse uma ditadura).

O trabalho da luz. Este é o mais surpreendente. O toque de genialidade à uma obra tão singular da modernidade do cinema brasileiro. Se a história é de um malandro, cafetão, que "namora" a prostituta que explora, nada mais justa que a iluminação de um filme se assemelhe a de um cabaré. E esta correspondência fica clara desde o princípio do filme quando os personagens se encontram num cabaré. Aquelas luzes vermelhas que inflamam os desejos ardentes por sexo da clientela se espalha pela cidade e pelas relações entre personagens, de modo muito pontual e oportunista. Poucos destes momentos são tão grandiosos quanto o canto da mãe de Ludmila para sua filha quando Max, o malandro, é forçado a fugir da cidade pelo delegado. Se eu pudesse, te traria de volta ao meu útero, canta a mãe de Ludmila enquanto as luzes do quarto vão diminuindo sobrando uma roxa que também vai se apagando aos poucos. O jogo de luzes em consonância com a canção leva a garota que dorme no colo da mãe a voltar ao útero materno, de volta à barriga, de volta à proteção - distante dos males do mundo externo que são muitos. Para além dos aproveitadores que os cercam, há uma guerra acontecendo e o país acabara de entrar pelo lado errado.


As belas canções de Chico encontram um porto seguro. O que é garantido pelo trabalho do autor como roteirista. Para além disso há o trabalho de Ruy Guerra e a encenação cinematográfica, a famigerada mise-en-scène. E para exemplificar isso num fechamento deste texto, trago a lembrança de um filme que muito se assemelha a este e que, talvez, tenha sido tomado como principal referência para a adaptação cinematográfica de Ópera do malandro. Em Amor, sublime amor o uso das cores ressalta as emoções internas de seus personagens. Emoções que também transbordam pelas danças. Estas, que ainda fazem o papel de tornar as brigas de gangues em grandes balés. A violência no filme de Ruy Guerra segue em caminho semelhante. A batida da polícia no cabaré torna-se uma dança do delegado que se introduz na narrativa cantando o Hino de Duran. O encontro entre Margot e Ludmila torna-se uma discussão sobre quem ficará com Max: a briga é cantada e dançada ao som de O meu amor interpretada por ambas as atrizes. - Amor, sublime amor, é um filme belíssimo e qualquer comparação com ele é muito bem-vinda. Mas o filme de Ruy não é tão semelhante a ele a não ser neste caráter estético de algumas cenas. Ele, assim como a obra de Chico, é uma ode à malandragem e ao submundo dos cabarés da noite carioca. 


* Ruy nasceu em Moçambique, mas se mudou para o Brasil. É considerado cineasta brasileiro por ter vivido grande parte de sua vida aqui e feito todos os seus filmes também aqui.

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