quarta-feira, 15 de julho de 2015

O medo do goleiro diante do pênalti de Wim Wenders (Die Angst des Tormanns beim Elfmeter, 1972)


O homem tem uma preferência pela ação. Seu pensamento é todo moldado para o ato. Seja ele qual for, o objetivo é fazer algo. Sempre. Mas e se esta lógica é revertida? Difícil de pensar. Estamos habituados a pensar na ação, utilizar a consciência em prol da produção prática de eventos. Nisso, até mesmo nosso ato de olhar o mundo é influenciado: estamos sempre em busca da ação. Ao ir para o teatro, buscaremos no palco o movimento - nosso olhar se dirige a quem pega a arma na mesa. No futebol é a mesma coisa. Olhamos para quem está com a bola. Se numa história de mistério queremos saber quem é o assassino para ter certeza de que ele pagará por seu crime ao final, num jogo de futebol temos que seguir a bola para que ela chegue ao gol, o objetivo principal do esporte. Mas, e o goleiro?

Na ação do gol, o goleiro é tão importante quanto a bola. A bola passa a mera coadjuvante quando o guardador do objetivo consegue defender um pênalti, por exemplo. Ele é o salvador do time, o carrasco do adversário. Mas o seu momento de protagonismo é dado somente neste curto tempo de glória. A atenção do jogo somente se volta a ele quando a bola, este objeto inanimado que parece ganhar vida durante a partida, aproxima-se de sua área. Enquanto o resto da partida se desenrola, lá está ele, simplesmente de pé em uma das extremidades do campo, a espera de que a ação que também ele assiste chegue até ele.


E é assim que Wim Wenders nos propõe um desafio: olhemos para o goleiro. Deixemos de lado a ação principal e busquemos algo naquele sujeito. O que primeiro vemos é a falta de ação: o jogo acontece do outro lado. Dá até tempo do goleiro sair de campo e beber água. Ao voltar, a ação se aproxima, mas o foco já não é ela, mas o personagem do goleiro. Assim, quando a bola finalmente passar não lhe será dada atenção. Nem ao resto da jogada. Nem ao jogador que tenha feito o gol. O goleiro corre. Diz ter sido falta e o gol inválido. Agride verbalmente o juiz e o resto dos jogadores. A câmera sobe. Está no meio da arquibancada. O goleiro agora é protagonista do espetáculo, mas pelos motivos errados - faz arruaça. É expulso. O jogo é deixado de lado, e vemos o goleiro sentado no banco de reservas, simplesmente observando a ação que se dá no fora de campo (da imagem).

Encerra o jogo. Com o goleiro expulso, ele passará uma partida de punição sem jogar. O que significa que não precisa ir treinar. Então toma estes dias para perambular pela cidade. Vai ao cinema. Ao café. Está sempre em busca dos jornais. Conhece mulheres com quem passa a noite. Percebe-se, então, que há ação no acompanhar o goleiro, ainda que ninguém pareça notar. E quase ninguém o reconhece durante todo o percurso do filme, somente uma antiga conhecida sua. No cinema que ele frequenta há uma moça bonita. Como bom observador - o goleiro mais assiste do que participa dos jogos, está sempre à espera - ele a nota. Quer sair com ela, mas hesita. Por fim, a segue. Próximo à casa dela, faz contato. Ela o convida a passar a noite juntos. E sem motivo algum, ele a enforca. O absurdo existencialista: a ação sem motivo.


Depois disso ele foge, discretamente. Vai para o interior onde uma antiga conhecida sua dirige um hotel. Não se hospeda nele, fica em outro, num vilarejo próximo. Pode ir andando de uma localidade a outra, são 3 quilômetros, lhe dizem. E ele vai, todos os dias. Coloca uma moeda na jukebox - tudo funciona à base de moeda, da jukebox ao elevador - e escuta música, sempre estrangeira, sempre música de sucesso "na américa". O vilarejo em que vive a amiga é calmo, fronteira com algum lugar que não é revelado. Existe uma alfândega e o avião do correio está sempre pousando ou decolando. E há torres de vigília. A margem do país, local ideal para o goleiro se esconder afinal, quem olha para o goleiro no canto do campo quando sempre procura a bola no centro da ação, entre os jogadores de linha?

Por fim, é divulgado nos jornais o retrato falado do assassino da bilheteira do cinema. A moça do hotel em que o goleiro está hospedado diz que o sujeito pode ter criado bigode, a esta altura. Pois é, ninguém enxerga o goleiro, nem mesmo quem está ao seu lado. Wenders, ao nos dar a oportunidade de acompanhar o goleiro, deixando o centro da ação de lado, nos mostra que todo um mundo de possibilidades podem aparecer. Este mundo de possibilidades é um mundo marginal, de pessoas não protagonistas cujas vidas são vividas de modo semelhante àquelas postas debaixo dos refletores. O goleiro briga e tem romances. Não é visto porque não tem ação ao seu redor. Não promove ação, é tão somente seu receptor. Será mesmo?

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