domingo, 5 de julho de 2015

A luz azul de Leni Riefenstahl (das blaue licht, 1932)


Na época das eleições, ano passado, o crítico de cinema Inácio Araújo escreveu que não compreende esta coisa de artistas darem apoio aos candidatos. Isto porque, em muitos casos, eles podem ficar marcados por suas posições políticas. Alguns conseguem demonstrar sua militância somente naquele período restrito das eleições. Outros o extrapolam, e aí sim, filiam-se a um pensamento político que pode fazer parte de seu público passar a ter ojeriza à sua imagem. Está fala de Inácio possui um fundo de verdade. Isso porque os odiadores do comunismo nunca gostarão de um filme de Eisenstein. A vinculação política aí destroça até mesmo a beleza de seu cinema, e toda a sua genialidade enquanto criador de uma estética inovadora.

E isso nunca foi tão verdadeiro quanto ao lembrarmos de Leni Riefenstahl. A famosa "cineasta de Hitler", diretora de Triunfo da vontade, coligou-se ao pensamento do partido nacional socialista, o que fez com que a posteridade renegasse seu trabalho. Mesmo seus filmes feitos a pedido do partido nazista, como o citado e os filmes Olympia, possuem uma larga diferença dos demais filmes feitos sob o mando de Goebbels. São belos, plásticos. A composição das imagens é cuidadosa para que a mensagem ali passada seja absorvida - em especial em Triunfo.... Foge-se da propaganda barata de um O eterno judeu, que compara judeus a ratos, chamando-os de preguiçosos enquanto os mostra carregando dois em dois blocos de cada vez numa construção.


Mas não é uma defesa do cinema de propaganda de Riefenstahl sobre o qual venho escrever aqui. E pretendo deixar desde então claro de que não é o conteúdo dos filmes que deve ser visto com deslumbre, mas a forma, como o filme é feito para passar a sua mensagem - a adequação da forma ao conteúdo. Neste texto buscaremos um filme da cineasta anterior à subida do partido nacional socialista ao poder, uma obra de ficção sem maiores pretensões políticas, ainda que possa ser lido como tal (assim como alguns filmes de Fritz Lang, mas este nunca chegou a sequer cogitar a aproximação ao ideário hitlerista).

A luz azul foi feito ainda em 1932 e conta com roteiro de Bela Balazs. Nele temos a história de uma garota - Junta, interpretada pela própria Riefenstahl - que mora nas montanhas próxima a um vilarejo. A história aproxima-se de uma fábula ao colocar a tal personagem como uma espécia de gata borralheira. Má vestida, ela está na cachoeira. Coloca a mão dentro do rio e retira uma pedra preciosa do tamanho da mão. Põe a pedra dentro do cestinho que carrega, e depois cobre a pedra com frutinhas que colhe no caminho. Um estrangeiro, alemão, chega ao vilarejo e logo se depara com a garota, que por algum motivo ainda desconhecido é renegada pelo resto da população.


O uso primitivo do som, dublado posteriormente em estúdio, nos deixa em frente a um filme curioso. O tempo todo a obra é marcada por uma trilha sonora que não cessa, tal como nos filmes mudos. No vilarejo, algumas pessoas falam italiano, outras alemão. O estrangeiro recém-chegado logo acha curioso o comportamento dos moradores do local. Eles não conversam, não sorriem. Estão sempre de cabeça baixa como se buscassem modos de esconder o rosto. Isto porque é noite de lua cheia. As pessoas têm que ir para casa e ficar trancadas lá dentro. Mais importante, não deixar os jovens saírem. Isto porque numa das montanhas brilha uma luz azul que os convida a uma escalada mortal. Todos que sobem, morrem, não conseguem completar a escalada.

Todos menos um: Junta. Ela é uma bruxa, diz o gerente do hotel em que o estrangeiro fica hospedado. Afirmação que parece ser semelhante à dos demais moradores do local. Todos os demais jovens morrer, mas ela consegue subir a montanha pelo lado mais íngreme, e nunca cai. Há algo de errado com ela. Mas por mais que se diga isso, menos Riefenstahl nos passa esta imagem de Junta. Ela é sempre posta em frente à câmera com uma aura de pureza intocada. Ela é aquela natureza ainda não corrompida pelos homens. Daí as vestes em farrapos, diferente de seu irmão, que também possui vestes com furos, mas em melhor estado que as dela. O menino é o pastor, vive pelos animais, ela pelas pedras preciosas que cata no chão do local.


Como ninguém dá valor àquela menina que vive sempre acuada, com medo da ação dos outros, será o estrangeiro que surgirá para enxergar a beleza daquela criatura. Riefenstahl nos revela ser ele pintor. Ou seja, ele possui a capacidade de enxergar a beleza daquela figura exótica. Não tarda para que a lua cheia apareça e Junta decida fazer a escalada. Ela é seguida de perto pelo estrangeiro, que chega ao topo onde há a tal luz azul, que nada mais é do que uma caverna de pedras preciosas que a luz da lua cheia ilumina, criando a coloração diferente que os moradores do vilarejo veem. O estrangeiro não é aquele personagem ganancioso que busca a riqueza para si. Ele o faz pela população local. Mas não compreende que a pureza daquela paisagem é correspondente à pureza de Junta, que ao ver, horrorizada, o que fizeram com sua caverna, cai da montanha. 

Riefenstahl filma tudo como uma fábula, beirando o conto de fadas, em que tudo é idealizado. A figura de Junta em sua pureza de natureza intocada é fotografada com bastante cuidado. Quando em presença dos homens ela não pode se misturar, deve parecer deslocada. Quando na natureza ela é filmada como fazendo parte daquele cenário: ela é o reflexo na água, tal como uma pedra preciosa. As imagens bastam para contar estas história, assim como bastam para poder mostrar-nos uma personagem romântica num filme idealista. 

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