terça-feira, 30 de junho de 2015

A desumana de Marcel L'Herbier (L'inhumaine, 1924)


Em texto já conhecido da cinefilia nacional, Fernanda Martins afirma* que o impressionismo francês não possui uma unidade estética, apesar de ser reconhecido como um movimento artístico do cinema. Isso porque, ao analisar os filmes dos cineastas creditados enquanto "impressionistas" não se encontra uma semelhança na proposta estética entre eles. Talvez aquilo que mais chame atenção dos espectadores dos filmes deste "movimento" seja a montagem, esta sim surgindo nos mais diversos filmes com semelhante atribuição: a criação de sensação. A sensação criada pela montagem pode ser imaginada pelos estudiosos como sendo premissa suficiente para transformar um filme em "impressionista", mas não é o caso. Até porque ao lermos os escritos de Epstein, por exemplo, veremos que suas ideia de montagem difere de seus colegas, ainda que o uso seja parecido.

Faço este preâmbulo para poder comentar um dos filmes ditos impressionistas, daquele que foi o primeiro grande momento do cinema francês. A desumana, filme de Marcel L'Herbier de 1924, apresenta certas características que poderiam vinculá-lo a uma estética impressionista (como a montagem acelerada), mas também podem ser encontradas outras características, tão bem notadas por outros autores brasileiros que estudam o "movimento"**. Dentre eles, o que logo salta aos olhos é o futurismo. Se em O gabinete do Dr. Caligari, Wiene inaugura o expressionismo cinematográfico com a manipulação dos cenários, em A desumana, L'Herbier se vincula ao futurismo também por meio do uso dos cenários exóticos que evocam um futuro desejado - avançado, tecnológico. E nada mais justo nesta proposta que colocar um dos personagens como sendo um engenheiro.


O filme se constitui de um melodrama sobre uma cantora popular de muita fama internacional, desejada por muitos empresários e donos de teatros, e que anuncia um afastamento de Paris para viajar pelo mundo. No jantar em que ela faz o tal anúncio estão presentes diversas figuras que fazem o devido papel de bajulação daquela estrela, não sendo eles menos importantes que ela, mas cada um possuindo um plano de como valer-se de sua companhia para também sair ganhando. O cenário um tanto destoante, exemplo da participação do ideário futurista, faz uma alusão à segunda metade do filme. 

Dentre os convidados está o jovem engenheiro Einar Norsen, que chegara atrasado. Hesitante se deve ou não entrar no salão para jantar ele ouve a cantora, Claire Lescot, comentar sua viagem. Num dos momentos que deixa clara a diferença de L'Herbier para seus "parceiros" de movimento fica justamente nesta cena crucial para o entendimento da obra: Claire fala de sua viagem (muitos inter títulos ao longo do filme) e diz que somente não o fará se algo a impedir. Este algo salta aos ouvidos de seus visitantes, inclusive daquele que não estava presente na ocasião. O que ou quem poderia ser este algo? A palavra (no francês: quelque chose) surge em tela em diversos momentos na cena para reafirmar o mistério deste algo que a cantora não revela ser o que é. A palavra surge por sobre idealizações de Einar, mas num corte sugestivo de L'Herbier o olhar de Claire cruza com uma cadeira vazia da mesa (a cadeira de Einar?) e por cima dela surge o famigerado "quelque chose".


Digo que esta cena faz o diferencial entre L'Herbier e seus parceiros impressionistas porque, enquanto uns apoiavam o cinema puro (a exemplo de Louis Delluc), A desumana surge com um caráter muito diverso: é um filme que se propõe a fazer aquilo que é chamado de "sétima arte", ou seja, englobar no cinema todas as demais artes. Nesta proposta, L'Herbier faz o uso cansativo dos letreiros que cortam a ação da cena, por vezes para explicar como num romance escrito aquilo que acomete seus personagens. Tais letreiros tornam-se redundantes e desejamos que eles sejam retirados ou parem de surgir em tela o quanto antes, um insulto à nossa inteligência enquanto espectadores de cinema, que somos perfeitamente capazes de assistir à obra e entender o que está sendo "dito" naquela cena sem o auxílio de palavras. O mais curioso disso tudo é que L'Herbier consegue nos exprimir tudo, perfeitamente, por meio das imagens (sem necessidade dos letreiros insistentes).

Mas faz muito sentido a ideia da construção de uma obra de "sétima arte" em um filme como esse. A começo de conversa, o filme foi financiado pela atriz protagonista que na vida real era uma famosa cantora de ópera (Georgette Leblanc). O filme se torna uma história sobre esta mulher e sua arte - mais tarde o engenheiro fará Claire cantar para todo o mundo graças a uma de suas invenções que abole o espaço, segundo um dos letreiros. A interrupção dos letreiros poderiam ser uma tentativa de compensação por fazer um filme sobre uma cantora e não poder fazê-la cantar durante o filme? É uma explicação aceitável, mas não suficiente.


No fim das contas, A desumana é um filme para mostrar o quão humana é sua protagonista, cheia de emoções e passível de sofrimento como qualquer outro humano. Mais que isso, L'Herbier a envolve em meio à maquinaria para mostrar que por trás de tudo aquilo ainda exite o homem, o humano, o emocional - aquilo que talvez de mais importante se encontre nas artes. É necessária esta emoção para que as máquinas se movimente, nem que seja pelo sentimento de ambição. O engenheiro se põe por trás de toda maquinaria, mas para levar a emoção de ouvir Claire cantar para os cantos mais inóspitos do planeta, até mesmo nas tribos africanas como nos é mostrado. E o que seria o cinema senão esta maquinaria que busca as emoções humanas? O cinema é uma arte maquinal, feita graças à ciência. É industrial, mas busca aquela pessoalidade. É maquinal, mas precisa deste detalhe: a emoção. Reprodutível, mas busca a individualidade dos espectadores e personagens. A desumana não poderia pertencer a nenhuma outra arte senão ao cinema. Porque, assim como o homem de lata de O mágico de Oz, o cinema é a coisa com um coração.

*Texto Impressionismo francês de Fernanda Martins faz parte do livro História do cinema mundial organizado por Fernando Mascarello.
** Encontrar texto aqui.

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