segunda-feira, 6 de abril de 2015

Platoon de Oliver Stone (1986)


Com o sucesso da revolução do operariado em 1917, muitos foram os cineastas que se agrupam em torno do cinematógrafo para poder filmar este momento histórico. Seu líder, Lênin, é entusiasta da tal forma artística e lhes dá suporte. Entusiasmo este que estava presente não somente nos membros do movimento político, mas também nos membros do movimento artístico. Se eles foram capazes de revolucionar sua política e alcançar o que até então era utópico, o que permanecia somente no âmbito dos livros de Marx e do próprio Lênin (afinal é uma revolução marxista-leninista), o que poderia impedi-los de fazer um cinema revolucionário? Daí surgem figuras como Eisenstein, Vertov, Dovzhenko, Pudovkin: isto somente na primeira década da revolução. Fica marcado neste momento não somente as invenções formais de seus filmes, como também o seu discurso de suporte aquele ideal defendido por grande parte da população de seu país.

Este modelo de cinema que pudesse transformar em imagens os desejos sentidos e denúncias vistos pelos olhos dos cineastas esquerdistas ganharia o mundo e mudaria a cinematografia de boa parte do planeta. Na França surge Jean Vigo (que filma com o suporte do irmão de Vertov, Boris Kaufman) assumidamente anarquista como se vê em Zero de conduta; na Itália, Roberto Rossellini com Roma, cidade aberta; no Brasil, Nelson Pereira dos Santos com Rio 40 graus e Glauber Rocha - abertamente marxista - com Deus e o diabo na terra do sol; na Inglaterra Ken Loach e Lindsay Anderson..., a lista é grande e melhor não continuar. Este cinema demora a alcançar seu espaço nos Estados Unidos, em especial depois da "caça às bruxas" promovida pelo macartismo - que baniu cineastas como Orson Welles e Charles Chaplin de Hollywood sob alegação de serem comunistas. Chegando ao fim dos anos 1960 por meio de alguns jovens cineastas movimentados pelo sentimento hippie e beat. Formam a contracultura no cinema, um tanto tardiamente.


Platoon é um filme que segue esta tradição do filme de esquerda, que possuía poucos exemplares na cinematografia estadunidense (salvo algumas exceções, como Sem destino). Escrito pelo ex-soldado Oliver Stone, o cineasta dizia que o filme fora originalmente concebido, ainda em meados da década de 1970, para que ele pudesse esquecer os horrores vividos quando de sua participação na guerra do Vietnã. E assim ele o fez. Estão impressos na película de seu filme todos os horrores que uma testemunha ocular poderia ter partilhado. Esta testemunha ocular viu os horrores, o que significa que possui imagens mentais em forma de memória e que poderiam ser partilhadas com seu público por meio de uma arte apenas: o cinema.

Apesar de seu um detalhe relevante ao se falar de Platoon, o fato de seu autor ter participado da guerra torna-se irrelevante ao pensar a obra artisticamente. Porque o que passa a contar aqui é o que está na tela ou o que nela é sugerido, nada mais que isso. E num primeiro momento uma análise de Platoon que o insira nesta tradição do cinema de esquerda faz com que a obra máxima de Oliver Stone fique bem longe do grupo de frente em que se apresentam Encouraçado Potemkin, Terra, e Hiroshima, meu amor (de Alain Resnais). Isso porque Stone fez um filme extremamente simples que serve tão somente como relato sobre a vida de um recém-chegado soldado ao Vietnã. Passa bem longe das inovações estéticas de um Eisenstein e nem se preocupa em afinar seu discurso formal como faz Resnais.


Isto, que poderia parecer uma fraqueza da obra de Oliver Stone frente a seus pares do cinema de esquerda, torna-se uma defesa de seu cinema. Porque a localização do cinema é muito importante ao se falar de sua forma: exemplo disso é o realismo soviético cheio de alegorias como pode ser visto em Eisenstein ou Dovzhenko. E neste caso Stone se filia à forma tradicional de se filmar em Hollywood para poder construir seu filme. Antes de dizer respeito a uma denúncia do que teria existido no Vietnã, os absurdos cometidos pelo exército que não era bem-vindo, era necessário que ele se fizesse compreendido por sua própria população para que seus conterrâneos pudessem compreender que a guerra não era bem-vinda e que eles não levaram ao longínquo país a tranquilidade que discursavam em terras nacionais.

Assim a simplicidade de Platoon casa com o desejo de falar com sua população. E para isso é necessário o uso de uma linguagem que eles compreendem, e não a sofisticação estética de um Resnais ou mesmo de um Kalatozov. Era necessário focar naquela denúncia e fazer sua população já muito habituada a um espetáculo ao ir ao cinema compreender o assunto. O mais importante: fazer com que seus espectadores não torçam pelo assassinato de seus inimigos, muito comum nos filmes de guerra que buscam uma significação pelo motivo pelo qual aquilo estava sendo feito.


Sem mostrar os soldados vietnamitas, Oliver Stone faz seu espectador compreender muito bem que eles defendem sua paz. Isso porque os estrangeiros que lá chegaram para poder impor uma ordem não desejada passam a causar transtornos e, aí sim, criar a desordem. Os olhos de um recém-chegado é tão válido para o discurso de Oliver Stone quanto para Kubrick, apesar de aqui ser mais seco e lá buscar um estudo interno da criação de um assassino. Se Chris mata, ele não pensa, nem Oliver Stone lhe dará um tempo para que pense nos seus atos de matar. A grande preocupação do filme não é com o assassínio isolado, mas com a condição da invasão e da perturbação que aquele exército invasor passa a causar. Agindo como agiam os soldados estadunidenses, em lugar algum poderiam eles chegar, a não ser que destruíssem o país por completo.

O momento mais simbólico disso tudo é quando o exército estadunidense entra em uma aldeia em busca de soldados vietnamitas ou de armamento que eles poderiam estar escondendo - um soldado dos EUA fora morto nas proximidades. Na aldeia Chris encontra um aleijado que se escondia com sua mãe idosa num buraco debaixo da cama de palha. O homem que não tem uma perna e um olho, poderia ser vista como uma alegoria deste país pobre que é invadido e acossado por outro todo poderoso. É nesta cena em que os olhos ainda virgens de Chris testemunham a desumanidade de seu exército contra aquela população. Eles matam inocentes, destroem sua comida, suas lavouras, violentam as crianças. Tudo isso numa orquestração de posicionamento de câmera e montagem impecável da parte de Oliver Stone que faz o espectador sentir uma agonia humanitária: lá estão pessoas em sofrimento que não podemos, enquanto espectadores de cinema, ajudar.

Miklos Jancsó mostra em Vermelhos e brancos que todo exército em guerra, independente de seu lado, é desumano. O que Oliver Stone mostra vai além, torna-se uma afirmação política de: metemos nosso dedo onde não fomos chamados e nossas sinceras desculpas não serão suficientes.

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