sábado, 11 de abril de 2015

Caminhada noite adentro de F. W. Murnau (der gang in die nacht, 1921)


O cinema de Murnau é fascinante. Alguns de seus filmes figuram com muita propriedade as listas dos melhores. Listas são sempre contraditórias, e que perdem sua competência ao deixar de citar uma obra de Murnau. Há muito que existe um culto envolvendo Aurora, sem dúvida o filme mais bem acabado do diretor e que demonstra o ápice de sua maturidade artística. Me pergunto se ele não tivesse morrido pouco tempo depois se teria sido capaz de fazer obra melhor. Aurora é um daqueles filmes incontestavelmente belos que só não é assim enxergado por quem não tem amor pelo cinema. O mesmo pode ser dito de Era uma vez em Tóquio de Yasujiro Ozu.

Murnau nas décadas de 1920 e 1930 conquistou o reconhecimento e admiração dos maiores cineastas do mundo, assim como dos críticos. Sua obra passou a ser tomada como o alcance da excelência do fazer fílmico; claro, muito devido ao sucesso artístico de Aurora. Mas se este é um grande filme, não devemos nos esquecer das demais obras do cineasta que são igualmente importantes para a história do cinema, e para a construção do mito Murnau: A ultima gargalhada é um filme fascinante que demonstra o que de fato o arsenal cinematográfico é capaz de compor; Fausto é a demonstração da sabedoria de composição de quadros de modo a tornar o cinema mais que uma arte do momento, do presente, mas uma arte feita para a universalidade: ela dialoga com espectadores de qualquer lugar do mundo, a qualquer momento da história; Nosferatu é aquele clássico do expressionismo que suplantou enquanto estética a obra fundadora do movimento. É a referência primordial de todo um gênero (terror) e o filme que desrespeita tal base merece nosso desprezo. Por fim o filme que comentaremos neste texto: Caminhada noite adentro.


Certamente um filme menos conhecido de Murnau. Muito curioso se deparar hoje com uma obra inicial de um cineasta mítico. Isso porque Murnau aparentemente foi crescendo de acordo com os filmes que ia fazendo. Sua capacidade e seu vocabulário iam se ampliando de filme para filme, ganhando os contornos de classicismo. E é esta, a meu ver, a grande qualidade da obra de Murnau, e aquilo que faria dela uma cinematografia tão ímpar: a universalidade. Suas obras dialogam com as pessoas independente de lugar ou tempo, tal como dito no comentário sobre Fausto. Mas, e o que dizer daqueles filmes menores, aqueles filmes que aparentemente foram esquecidos? Seriam eles erros neste meio do caminho necessários para que o cineasta alçasse a este pódio dos grandes mestres do cinema? Certamente que não. Porque uma cinematografia que se faz de altos e baixos diminui a obra do autor. O citado Ozu possui uma constância na qualidade de suas obras. O mesmo acontece com Hitchcock. Ou Chaplin. Estes quatro cineastas - contando com Murnau - possuem uma característica em comum: a estética de seus filmes é aprimorada de obra para obra. Em todos estes cineastas há certa quebra no momento de passar do cinema mudo ao cinema falado, o que foi um grande choque. Em especial em Murnau e Hitchcock que continuaram a filmar tão logo o cinema ficou falado, ou seja, eles foram alguns dos desbravadores desta terra desconhecida, enquanto Chaplin e Ozu se arriscaram no cinema falado um tanto tardiamente (e no caso de Chaplin resultará numa das experiências mais fascinantes do uso de som em Tempos modernos).

Caminhada noite adentro é um filme do início da carreira de Murnau, feito ainda antes do arrebatador sucesso de Nosferatu. Antes de Caminhada ele já tinha filmado alguns, daí a surgir nesta obra um desenvolvimento maduro para um cineastas que havia se profissionalizado há tão pouco tempo. Fazendo um caminho que era um tanto natural em sua época, Murnau migra do teatro - que começara a trabalhar ainda nos tempos de estudante - para o cinema. Este detalhe é valioso no momento de enxergar sua obra uma vez que será partindo de planos abertos que os filmes de Murnau são compostos. Remando em caminho inverso de seus contemporâneos da vanguarda, o cinema do diretor não se rende facilmente ao corte excessivo-estilístico. Neste filme, em especial, o uso do close-up, popularizado por Griffith após seus grandes sucessos, surgem em Caminhada com raridade. São sempre pontuados, partindo muitas vezes dos próprios personagens. É o caso de Lily, uma artista de teatro que, dando uma espiada para a plateia pela cortina do palco enxerga um homem num dos camarotes: um médico, lhe é dito. Sua curiosidade cresce e ela coloca o olho no buraco da cortina. O rosto do médico cresce e se torna um close-up na tela. É a perspectiva dela que tomamos e por isso o espaço é modificado. É a percepção dela de mundo, que neste momento passa a ser ocupada somente por aquele médico que assiste seu espetáculo.


Em seguida, quando ela vai se apresentar, finge torcer o pé enquanto dança. A cortina rapidamente se fecha e o médico no camarote, que inicialmente não gostara da performance da jovem, fica atordoado. Logo surge alguém da produção em busca de um médico na plateia para poder ajudar, e será Eigil (o médico) quem irá. O plano de Lily mostra-se, assim, bem sucedido. O homem que ela queria conhecer vai até seu encontro. Ele a examina e não consegue encontrar nada de errado. Preocupado com sua capacidade de diagnóstico - Eigil tem grandes pretensões com sua carreira - ele vai visitar a moça em sua casa. Não tarda para que esta relação de médico e paciente se torne algo mais e os dois se casem. 

O filme assim ganha contornos românticos. A paisagem urbana que tomava o cenário anteriormente, desaparece dando lugar a presença agradável do campo. Ao invés das construções, apresenta-se a folhagem, o vento, o mar. As casas são poucas, e o que resta é o sossego. Neste sentido o cenário de Caminhada assemelha-se muito àquele de Aurora. Em ambos os casos Murnau se vale deles para poder desenvolver o romantismo de seus personagens, o aparente "felizes para sempre". E como num presságio para sua obra-prima, a paz do casal alegre será interrompida pela chegada de um estranho. Mas neste caso o estranho não é um simples turista que surge para interromper a paz dos habitantes locais. O pintor Maler já mora no vilarejo, apesar de não sair muito. Está perdendo sua visão, naquela que seja talvez a melhor ideia do roteiro do filme: o pintor cego.


Quando Lily vê o estranho homem chegando pela embarcação, uma figura muito semelhante ao Nosferatu que Murnau filmaria no ano seguinte, ela fica atordoada. Não quer encontrá-lo. Sente uma angústia que não consegue explicar, e suplica ao marido que não faça deste encontro um fato. Então o sopro de genialidade do cineasta: uma tempestade se abate por sobre o local. Os relâmpagos, o mar revolto, o vento forte que balança as cortinas da casa. Lily mistura suas emoções ao desenrolar da tempestade. Aquela ação natural torna-se uma alegoria de seu estado interior. Suas emoções são como o mar revolto iluminado pelos clarões da tempestade. Eigil cura a cegueira do pintor e o leva para jantar em sua casa junto com sua esposa. Depois de uma viagem faz a ingrata constatação: o pintor e sua esposa passaram a ter um caso.

Como toda tempestade, algo de ruim ficará em seguida, seja uma enchente, um barco virado. Neste caso, a tempestade serviu para fazer a angústia e o medo que Lily sentia pelo misterioso pintor se tornasse uma paixão arrebatadora. Ela deixa seu marido, que vira um sujeito rancoroso. Já não aceita os agradecimentos de seus pacientes, como quem espera receber novamente a punhalada que levara certa vez. Não tarda para a melhora da visão do pintor Maler se mostrar passageira, e ele passa a ter dificuldade de enxergar as coisas, ou de reconhecer o que se encontra ao redor. Lily vai pedir ajuda a seu antigo marido, que lhe nega. Aquele plano conjunto em que os dois atores são fotografados da cintura para cima demonstra aquele poder humano que o cinema de Murnau sempre demonstrou. Ele tenta se fazer difícil, rancoroso, negar, fazê-la miserável tal como ele se sente. Mas na face chorosa dela ele ainda enxerga a paixão, ainda que tente manter a severidade. Aquela boca entreaberta enquanto as sobrancelhas permanecem enrugadas em sinal de raiva e os braços cruzados como quem demonstra que não está aberto para discussão, dão espaço para a dubiedade de sua performance. Ele ainda a ama, mas não quer amá-la. Ele se arrepende de dizer que não se importa de que ela se mate, mas ela já havia dado as costas.

Diferente de Aurora, Caminhada noite adentro não dá espaço para um final feliz. Ainda assim constitui-se uma obra bela. Demonstra a permanência da qualidade das obras de Murnau, desde o seu início. Esta competência de ser capaz de mostrar o humano, suas falhas e virtudes, na tela de cinema é o que fazem um grande cineasta. Se o tema do amor aparece em Fausto, Aurora, e aqui em Caminhada noite adentro, é porque é um tema universal que não se esgota. Que merece ser visto e revisado por todos os ângulos, que neste caso são todas as situações e com todos os personagens. 

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