domingo, 26 de abril de 2015

As Finanças do Grão-Duque de F. W. Murnau (Die Finanzen des Großherzogs, 1924)


Fazer um percurso por esta parte menos conhecida do cinema de um cineasta é algo muito curioso. Certas obras nos abrem os olhos para notarmos um autor mais amplo do que o que acreditávamos. É o caso de Casamento ou luxo (a woman of Paris) de Charles Chaplin, obra de 1923 em que o autor não aparece em cena. Mais ainda: é um drama. Outro caso é Um casal do barulho (Mr. & Mrs. Smith), filme de 1941 de Alfred Hitchcock que contrariando as expectativas, é uma obra cômica. Faço este preâmbulo para poder chegar ao ponto principal deste texto: o cinema de Murnau. Os filmes do alemão são muito famosos por serem obras densas, que buscam o lado humano de seus personagens. Coisa que parece estar muito distante deste As finanças do Grão-Duque, uma história fictícia, sobre um país fictício.

Datando de 1924, o filme surge em meio ao resto da obra de Murnau com a estranheza que os títulos citados no parágrafo anterior despertam. Trata-se de uma obra cômica. Os traços de seriedade são nelas postas pelo texto de Thea von Harbou, mais uma vez deixando nas entrelinhas suas críticas à movimentação econômica capitalista. De um cineasta que nos presenteou com obras tão fabulosas como Aurora e Nosferatu, encontramos neste As finanças... um filme de humor sutil. Sutileza presente em alguns momentos de Charles Chaplin, mas ainda assim longe do mestre inglês; ela surge no desenlace das relações, do papel de cada personagem na trama.


O filme se divide em seis capítulos, sendo que no início de cada um é posto um letreiro que introduz a ação que se desenrolará. Logo em seu primeiro momento, Murnau deixa bem clara quem é seu protagonista e seu comportamento: um homem que somente quer viver a vida e a felicidade de quem está ao seu lado. Mas nesta atitude, suas ações enquanto governante ficam negligenciadas, e a dívida de seu país cresce. Surge então um empresário que quer comprar uma determinada localidade por uma quantidade considerável de dinheiro. Ao descobrir que o empresário quer extrair enxofre, o Duque se nega - pelo bem de seu povo, mostra Murnau. Revoltado, o empresário inicia uma revolução às escondidas para tomar o poder e, finalmente, ganhar seu dinheiro.

O país passa a enxergar uma luz ao fim do túnel quando o Grão-Duque recebe uma carta da Duquesa russa que demonstra suas intenções de com ele se casar. Tendo ela muito dinheiro, os problemas de Abacco - a terra do Duque onde o filme se passa - serão solucionadas. O desenlace desta história se faz aos poucos com a introdução dos muitos personagens que a compõe. O empresário que quer colocar o governo abaixo para poder lucrar, é seguido por alguns revolucionários ridículos que se colocam ao seu redor somente para ganhar alguma coisa. Semelhante é a construção do personagem do banqueiro que trata da dívida de Abacco, homem que está sempre por perto para cobrar aquilo que acredita ser seu, mas que também não se passa de mais um aproveitador que sairá correndo junto aos rebeldes quando as coisas se acertarem.


As finanças do Grão-Duque foi lançado nos cinema em 1924 pouco antes de A última gargalhada. São dois filmes extremamente diferentes, em que o segundo demonstra toda a genialidade de seu autor. São duas peças distintas para se compreender o "fazer cinema": enquanto a primeira se faz por meio dos textos que surgem nos letreiros, necessita destes, o segundo os abole por completo. O segundo demonstra sua preocupação humanista de relatar a vida de um homem e o descaso do empresariado com esta subjetividade do indivíduo. O primeiro, também fazendo uma leitura político-econômica, não se centra em um sujeito (apesar de possuir um protagonista).

Trata-se de um filme menor, cheio de ação para que a atenção do espectador naquela trama seja sempre mantida. Por outro lado, oferece também aqueles detalhes de composição fílmica que são interessantes: as aparências nem sempre são o que são.  Ilusão do cinematógrafo, tanto na criação das imagens quanto naquilo que as imagens apresentam. Cito duas cenas: a primeira quando o banqueiro vai a uma casa onde há um homem construindo uma fantasia de leão. Ao se levantar de trás de uma placa, somente a cabeça do leão é vista, dando a impressão de que se trata, realmente, do animal. Com o desenrolar da cena se vê que não é, e o susto levado transforma-se num riso (uma situação cômica). A segunda se dá com a transformação da duquesa, que foge de uma perseguição. Ela é fantasiada por um professor de Abacco para parecer uma senhora velha. Se para as lentes da câmera esta transformação é aceita, também será para os personagens. E quando ela se apresentar para o Grão-Duque sem a maquiagem, ele se surpreenderá com a beleza da moça. Este detalhe da ilusão é posto no filme como complemento da situação cômica. A comédia se fazendo em dizer que aquilo que você vê não é a verdade, coisa um tanto curiosa para uma formulação cômica.

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