sexta-feira, 6 de março de 2015

Selma de Ava DuVernay (2014)



O que é preciso para criar um mártir? Derrubar um homem/mulher enquanto luta pelo seu direito ou busca um direito que merece, mas que ainda não é reconhecido? Sim. Quem elege um mártir? O tempo e a violência. Se basta uma fagulha para estourar um barril de pólvora, um mártir é fogo perpétuo pronto para estourar barris de pólvora ao longo da história em nome da ideia que representa. Escrevo estas linhas para comentar o filme Selma. Trata-se de uma obra que pode ser tratada como a biografia de um episódio da vida de Martin Luther King, mas que consegue ser mais do que isso. É um filme sobre uma coletividade, um movimento construído por muitos humanos em busca dos direitos que eram negados a uma parcela da população. King é certamente a figura central do filme e do acontecimento político narrado, mas não é o único responsável por seu sucesso. Daí a atitude acertada da diretora de voltar sua câmera aos demais personagens e com isto criar um filme não com um, e sim com muitos heróis e alguns mártires.

É um filme que parece cair perfeitamente nos dias atuais do Brasil, se o leitor me permite este desvio. Isso porque os século XIX e XX marcaram uma tomada de consciência dos oprimidos frente a sua condição, e isto os levou a lutar contra seus opressores. Se hoje no Brasil temos uma leva de político retrógrados, será o tempo e somente o tempo que mostrará o absurdo de seu posicionamento. Uma obra como Selma faz este trabalho do tempo. É um filme de posicionamento político muito bem firmado que sente necessidade de defender sua visão. Por muito tempo os negros estadunidenses foram silenciados, e agora que estão verdadeiramente libertos (ainda que não totalmente, mesmo que soe paradoxal) necessitam afirmar seus direitos por meio da arte.


Fazer este grito por meio da arte é a decisão mais acertada que se possa ter. A esposa de Martin Luther King tem uma fala no filme que diz mais ou menos, tudo isso acontecendo por causa da aparência das pessoas... Sim, em grande parte dos preconceitos partem de uma aversão estética: um homem que não pode amar outro, o sujeito de cor diferente da dominante ocidental, o deficiente (este sendo lindamente retratado no hoje clássico Freaks de Tod Browning). E a arte é este meio estético para mostrar que são todos iguais, belos em sua individualidade típica dos humanos.

Selma não é um documento histórico, e sim uma afirmação política, a defesa pela liberdade e por direitos merecidos e conquistados. Quando os negros saem em marcha e a polícia age com truculência, agredindo homens e mulheres independente de suas idades, todo espectador com um pouco de humanidade sentirá cada um daqueles golpes. Quando policiais perseguem uma família que se refugia num café, o som é cortado. Não é necessário ouvir o choro da mãe para compreender sua dor pela morte do filho. E muitos são os momentos neste filme em que a bem realizada montagem deixa o espectador as suas mãos. É um trabalho humano necessário. Não estamos lá e não sabemos a dor daqueles que lá estiveram lutando por seus direitos brutalmente negados. Se a distância histórica repara erros, ela é igualmente capaz de esquecê-los por conveniência. 


Neste ponto Selma lembra o cinema de Eisenstein. Longe do brilhantismo estético do soviético, o projeto do filme de Ava DuVernay assemelha-se aos primeiros filmes do gênio soviético por sua formulação de tratar a história. O filme deve mostrar como as pessoas no passado sofreram, como era difícil a vida no passado. É o tratamento que o soviético dá ao massacre de Odessa por forças do Czar em Encouraçado Potenkim. Aquele passado não retornará e é necessário que as gerações seguintes, ou mesmo aquelas que viveram na mesma época mantenham vivas as memórias daquele tempo para que ele não volte a acontecer e que justifique determinadas medidas que foram tomadas para que elas deixassem de acontecer.

A palavra de Martin Luther King ecoa por Selma. Sua figura é costumeiramente fotografada no centro do quadro. Ele é o líder daquelas pessoas, mas não é o único responsável pelo sucesso da empreitada. E aí volta a questão estética. Quando um canal de tevê decide acompanhar a marcha ao vivo e mostra para a população do país a violência do estado contra um grupo indefeso, fica mais uma vez demonstrada a importância da questão estética dentro do problema. A estética da violência, o realismo da imagem em movimento que sacudia espectadores e provocava-os. Selma não segue o mesmo caminho de construção de um retrato realista daquele acontecimento, prefere seguir o caminho da representação fílmica tradicional. E com isto tentar trazer ao espectador contemporâneo um pouco do que era viver nos anos 1960. E, para aqueles um pouco mais atentos, pode-se dizer que por lá não foi tanta coisa que mudou.

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