sábado, 14 de fevereiro de 2015

O grande hotel Budapeste de Wes Anderson (the grand Budapest hotel, 2014)


O simples ato de contar uma história parece cada vez mais distante do cinema de arte atual. Os filmes procuram ser mais sensualistas do que seguir o modelo clássico de construção de uma obra narrativa nos moldes que sempre se viu ser feito desde os tempos de Méliès. E de repente nos surge no meio deste mundo um filmes como O grande hotel Budapeste de Wes Anderson. O diretor é uma das figuras mais interessantes desta safra mais atual do cinema estadunidense que filma com o suporte dos estúdios de Hollywood. Isso porque o cineasta filma suas história num molde de filme de estúdio que muitos considerariam ultrapassado, mas que demonstra sob os olhos perspicazes de Anderson que tem ainda muito a oferecer ao cinema. Aproveitando este momento em que aquilo que é "vintage" está na moda, o cinema de Anderson ganha espaço em meio aos grandes lançamentos dos estúdios e garante uma vaguinha nas salas de cinema conquistando novos adoradores de sua obra.

E O grande hotel Budapeste é um destes filmes que preza por contar uma história e deixa isso claro desde os primeiros momentos quando uma garotinha entra em um cemitério em que está enterrado um de seus escritores que aparentam ser de seus preferidos. Ela senta num banco do cemitério coberto de neve e passa a ler o livro do escritor que possui um busto no centro do cemitério. A primeira narração nos leva até o escritor-narrador já em idade avançada quando resolve escrever o livro que nos serve de guia. É este livro imaginário que será ilustrado por Anderson. Da fala do escritor retornamos a um passado quando ele se hospedara no hotel título e encontrara um homem que passou a narrar a ele uma história - que será a história do filme.


O formato da tela logo muda. Do scope das cenas em que o escritor em idade jovem encontra o homem solitário que lhe fala sobre o passado do grande hotel, passamos para uma imagem quadrada que persistirá por grande parte do filme. Esta imagem que pode parecer estanha a um cinéfilo contemporâneo, consegue ajustar-se muito bem ao modo como Anderson filma, a seus enquadramentos cuidadosos.

O grande hotel Budapeste é um filme que milita no ato de se contar uma história. O que é mais interessante é como Anderson deixa bem clara as suas capacidades de cineasta, para além de escritor. Isso porque nas primeiras cenas do filme existe um narrador que nos conta exatamente aquilo que vemos. Tal ato é realizado por se tratarem de duas formas representativas diferentes. A literatura se vale de determinados modelos enquanto o cinema, de outros. Mesmo que pareça repetitivo, Anderson deixa a narração por parte de sua introdução. Logo a deixa de lado abraçando por completo o trabalho de narrar um filme - trabalho que faz magistralmente. Seus cortes e movimentos de câmera são pontuais e concedem ao filme a leveza que a história lhe pede. As piadas são sutis e ainda assim são capazes de gerar gargalhadas - exatamente pelo motivo como são encaradas. Quando Zero derruba a estátua de um santo sobre um trenó num mosteiro, a graça se encontra neste contexto em que se encontram o personagens e a ação do personagem naquele momento - depois que os monges os tinham ajudado. Isso tudo filmada com uma câmera curiosa e irônica, que faz curtos movimentos apressados como se tentasse entender o que se passa: tudo isso dentro de uma estética que Anderson já havia apresentado em filmes anteriores.


Aliás este lado cômico de Anderson chama bastante atenção. Suas piadas, tanto verbais quanto visuais, situam-se dentro de uma proporcionalidade estética. É aquele deslize dentro daquele mundo imaginado pelo cineasta - um deslize proposital, deixe-se logo claro. É o exemplo de M. Gustave, funcionário do hotel protagonista do filme, e que é apresentada por Wes Anderson como sendo uma figura muito fina e que tem orgulho de demonstrá-lo e fazer os outros seguirem seus passos. Mas volta e meia toda esta "pose" de M. Gustave é deixada de lado, o personagem perde sua calma e xinga aos berros. É este deslize de uma figura que sempre buscou manter as aparências de uma certa classe. É também o caso de Jopling, uma espécie de capanga que faz tudo a mando de um homem rico, que numa caçada ao advogado interpretado por Jeff Goldblum corta quatro dedos do advogado ao fechar uma porta. É um exagero cômico que poderia muito bem ser uma cena de violência se não fosse dado um tratamento infantil imaginativo. Os dedos se partem sem qualquer alarde pelo filme, sem grande música que cresce - apenas o grito de dor. É o ridículo da imaginação de uma criança que também pode ser transformado em uma grande obra cinematográfica, e este filme é a sua comprovação.

Wes Anderson cria uma obra que dá um passo para frente para que possa destacar-se como um grande filme de narração, uma verdadeira fábula cinematográfica. Muitos sãos os filmes que se valem do fantástico, mas poucos são tão bem narrados como O grande hotel Budapeste ou fazem os atributos da linguagem cinematográfica jogarem a seu favor. Na defesa de um cinema de fábula Wes Anderson deixou muito bem colocado seu posicionamento e seu espectador ao seu lado. Mesmo não havendo nada de novo em relação à sua estética, ele demonstra que ainda são necessários muitos filmes para que ela venha a se tornar cansativa.

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