quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Boyhood de Richard Linklater (2014)


Uma das ambições dos pensadores do neorrealismo italiano era poder realizar um filme que acompanhasse a vida de um homem comum, sem grandes acontecimentos. Cesare Zavattini era a mente por trás de tal proposta que nunca chegou a realizar, apesar de chegar bem perto quando cooperou com Vittorio De Sica em filmes como Ladrões de bicicleta e Umberto D. Ainda assim este é um projeto ousado. A tradição narrativa do cinema dita uma história sendo apresentada nos moldes tradicionais, com um clímax claro e acentuado, reviravoltas... Isso se encontra em grande parte dos filmes. Mas numa busca por um cinema realista como fazia Zavattini e De Sica este modelo não se encaixava tão bem. A vida das pessoas nem sempre é envolta em tramoias, conspirações, e isso o cinema deveria mostrar também. Boyhood surge como um filme que trás essa proposta. Não existe um clímax nem grandes conflitos para além daqueles do cotidiano. E aquele que poderia se tornar o grande conflito do filme, que prenderia boa parte dos cineastas - o casamento da mãe de Mason com um professor universitário alcoólatra e agressivo - é deixada de lado a tempo, antes que contamine o resto do filme com uma única situação dramática.

Esta fuga de Richard Linklater, roteirista e diretor do filme, possui fundamento em sua proposta inicial que deve (e é) ser mantida: a representação do crescimento de um garoto comum. Este crescimentos do garoto comum pode entrar em conflito com algumas passagens do filme em que Mason diz ser diferente, e o mesmo é apontado por seus amigos e sua namorada. Mas quem não é diferente? Este é o preço que se paga por ser individual, e Mason orgulhosamente exterioriza a sua diferença, estranha aos demais, em uma ação adolescente de formação de sua própria figura numa busca por identidade. E é nesta fase de amadurecimento em que fazemos aquelas escolhas essenciais que nos guiarão pelo resto de nossas vidas, isso independente da escolha do que cursar na universidade, tópico muito bem deixado de lado por Linklater e que torna-se ponto alto de muitos filmes que se focam em um único momento da vida de um sujeito como se estivesse ali o ponto de nascimento de sua individualidade. Não. O processo de identidade de qualquer pessoa se forma lentamente partindo de sua vida, não necessariamente de suas escolhas, mas de como você vive sua vida. Estas escolhas nem sempre se apresentam nuas às pessoas, tal como não aparecerá para Mason.


A estética do filme, apesar de sua trama ecoar aquele desejo dos neorrealistas, distancia-se desta forma realista de apresentar o mundo. A câmera se move pelos cenários, corre atrás do garoto que filma, mas em outros momentos se põe estática. Diferencia-se dos filmes da trilogia Antes do amanhecer em que os planos são longos focando-se nos diálogos entre o casal protagonista. No caso deste, quando dois personagens estiverem conversando, Linklater não permanecerá num único plano e optará por fazer o famoso campo/contracampo para mostrar os dois personagens a dialogar.

Seguir um garoto tímido que permanece em silêncio em boa parte das conversas, que não puxa assunto com outras pessoas poderia ser a chance de ouro de Linklater para fazer um filme que prezasse pelas imagens como faz Nicolas Winding Refn em Drive. Não, aqui o cineasta procura mostrar as vidas tais como ela acontecem, e as pessoas gostam muito de falar e dar conselhos. Alguns deles funcionam, como é o caso da mãe de Mason que diz a um encanador para ir estudar, ir para a universidade, e ele de fato o faz - aquele momento em que se percebe que fez diferença no mundo, ao menos para alguém mais além de si próprio. A cena em que o encanador surge como o gerente de um restaurante em que a família de Mason vai comer é muito interessante porque demonstra bem a ideia que teria seu cineasta ao filmá-la. O mundo não é formado de heróis, e nem todos nós queremos ser um. Poucos se atirarão em frente a balas para defender outro. Ainda assim, numa fala ou ação cotidiana é possível se tornar este herói, mesmo sem as grandes glórias. Seja ajudando um desconhecido, como no caso da mãe de Mason com o imigrante que entra para a universidade, seja simplesmente sendo um bom pai e auxiliando seus filhos a serem boas pessoas.


Mason não é um herói na significação tradicional do termo. Ele é um garoto simples que apenas quer viver o momento, ou ser aproveitado pelo momento, como vai dizer ao fim do filme com uma recente amiga de universidade. E são estes momentos simples em que aparentemente nada acontece que Linklater se foca em diversos trechos da película, especialmente no início do filme. Mason aparece deitado no gramado olhando as nuvens, ou sentado no quintal de casa escavando a terra. Ele contempla o mundo e mais tarde descobrirá poder fazer isso como trabalho, e começará a tirar fotografias e participar de competições com elas. É a eternização dos momentos que é praticada tanto pelo protagonista quanto pelo diretor que o filma.

Com sua simplicidade, Boyhood torna-se um filme fabuloso. Isso porque na busca por mostrar a simplicidade da vida, Richard Linklater filma com simplicidade sua trama. Não são necessários efeitos de computador ou invenções estéticas vanguardistas. Tudo o que é necessário é um ator em frente à câmera. E daí para frente as histórias se desenrolam. Tudo o que existe é o presente, diz Mason na cena final já comentada. É um filme que junta o passado no presente para mostrar que este presente somente existe graças a um passado: um homem tem sua identidade desenvolvida a partir da vida que leva, do conjunto de estados pelos quais passou. E isso está em Boyhood.

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...