quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Woody Allen e a adaptação


Na época do lançamento de Blue Jasmine, um dos filmes mais falados de Woody Allen da mais recente safra, muito se foi apontado pelos críticos online a "cópia" que o cineasta novaiorquino fazia do clássico de Tennessee Williams Um bonde chamado desejo. Tal acusação era feita como se diminuísse a beleza da obra. Como se Woody Allen não tivesse sido capaz de pegar aquele clássico da literatura teatral e adaptar para a tela. Penso o contrário. Tivemos um filme de Woody Allen tão bom como não se via há tempos. E não podemos dizer que ele já foi original em outros momentos porque sua obra, tal como a de Quentin Tarantino, sempre foi devedora do cinema, da literatura e do teatro de outros autores. Ele pode até não colocar logo de cara que se trata de uma adaptação (como Tarantino também não faz), mas para o seu público sempre será entendida.

Quem assiste aos filmes de Allen sabe muito bem sua paixão pelo cinema de Ingmar Bergman. Isso ele já falava, mesmo travestido pelos personagens de seus filmes ou colocando nos cartazes dos cinemas a que ia (a exemplo de Annie Hall quando vemos o cartaz de Face a face na parede do cinema e imaginamos que é aquele filme que ele verá). E mais tarde ficou explícita em filmes que saíam por completo de seu modelo habitual de construção narrativa, a exemplo de Interiores e A outra. São filmes em que o ar cômico do cineasta fica de lado para adotar a aura dos filmes de Bergman: um pesado clima de conflito subjetivo que extrapola para a exterioridade num combate com as pessoas mais próximas. Em A outra Allen chega até mesmo a tomar emprestado o grande parceiro de Bergman, o diretor de fotografia Sven Nykvist, responsável pela fotografia de, entre outros, O sétimo selo.


A composição das imagens, para além da escrita dos roteiros, se assemelha aos filmes de Bergman. Em Interiores temos algumas cenas em que surge em tela um close-up do rosto das três irmãs lado a lado, desenhando seu perfil umas nas outras. Isso remete, em especial, aos filmes realizados pelo cineasta sueco na década de 1960. Ainda nesse sentido, é impossível deixar de lado Memórias, filme odiado por muitos e amado por tantos outros. Odiado pelo mesmo motivo que levaram tantos espectadores a olhar torto a Blue Jasmine. Em Memórias está uma homenagem de Allen a Fellini, em especial à grande obra do italiano, Oito e meio. Tanto que a película fora filmada em preto e branco e inicia com uma cena muito semelhante à de sonho. Se em Oito e meio Guido estava dentro de um carro num engarrafamento, Sandy - o personagem de Woody Allen em Memórias - está num trem que ruma para o fim da vida. 

O que parece irritar a muitos dos espectadores de Woody Allen é o que torna de seu cinema um atrativo. Se Quentin Tarantino faz um revival do cinema B dos anos 1970, Allen faz semelhante trabalho com uma arte clássica, erudita. Seus personagens conversam sobre música clássica, sobre os mestres da literatura da virada do século XIX para XX, e sobre o cinema europeu. Nada mais natural neste exercício do que, no modo de compor sua obra, fazer presente também aquele sinalzinho de gratidão a quem tanto lhe ofereceu e influenciou. E neste sentido a obra de Woody Allen está cheia de referências, basta ter conhecimento suficiente para ser capaz de captá-las. Mas não vamos esperar sempre do cineasta obras como Meia noite em Paris. Esta foi a mais clara obra de homenagem à arte, mas um cineasta diversificado como Allen não pode passar sua (longa) carreira somente fazendo filmes abertamente de homenagem. Isso pode aparecer como algo sutil, como em grande parte de seus filmes. 


A adaptação, seja de uma história seja de uma forma de apresentar tal história, não significa transposição de uma obra para outra. Ao adaptar um livro para o cinema o cineasta não fará a sua transposição, mas a sua adaptação, o que significa uma leitura própria de tal obra. Foi o que Woody Allen fez em Blue Jasmine, em Memórias e até mesmo em Interiores. Só prova a competência de tal cineasta de absorver suas influências num ato antropofágico: absorve-se o que a de melhor e torna-o seu.

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