sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Uma manhã gloriosa (morning glory, 2010)


Existe um cinema de entretenimento que parece seguir uma fórmula. Os filmes se repetem. Os roteiristas são contratados para desenvolver uma história já pronta. Os diretores são contratados para poder filmar tal roteiro. E o que parece no fim das contas é que o diretor tenta provar por meio de seu filme que aprendeu muito bem como se faz um filme... de manual. Começamos a assistir tais obras e nos envolvemos. Mas, de repente, tudo começa a parecer embaraçoso. Vem a sensação de transtorno. Diverte-se assistindo a tais filme? Sim, mas algo se perde. E este algo é a paixão pelo cinema. Parece um filme feito por uma máquina, não por pessoas com emoções. Nos envolvemos com o filme de modo automático tal como jogamos paciência pelo Windows

Uma manhã gloriosa é um desses filmes. Possui todas as características tradicionais de um filme de manual. Segue seus padrões e cumpre as expectativas. Mas é somente a repetição de uma fórmula já muito conhecida por quem assiste filmes. Tudo começa com a apresentação da protagonista. Nas primeiras cenas a conhecemos junto com algumas de suas características mais marcantes que a seguirão pelo resto do filme. Serão estas características que seguirão suas relações com os demais personagens. Num segundo momento temos o desenvolvimento do filme. Criam-se as situações cômicas que marcam o filme e o transformam em comédia. Uma vez que os personagens já possuem empatia uns pelos outros, e mais importante, uma vez os espectadores já sentindo empatia pelos personagens e suas relações, o lado cômico desaparece para dar uma espaço a uma outra faceta da obra: o drama. Não um drama pesado. Deixa-se de lado as piadinhas para poder acertar as relações dos personagens - como se o filme passasse a ser visto de modo mais sério do que ele é.


Esta sequência de construção da história pode parecer muito interessante das primeiras vezes em que se assiste, mas depois de vista em diversos filmes começa a se desgastar. Mais que isso, se enxerga as suas falhas. Por qual motivo se deixa de lado a comédia do filme para acertar as relações entre os personagens? Isso significa algo de muito grave para alguém que se propõe desenvolver uma obra cômica: não enxergar a comédia como um gênero sério. Coisa que os grandes mestres da comédia não faziam. A conclusão de seus filmes podiam até não ser cômicas - como o plano final de Luzes da cidade - que isso não significaria deixar a comédia de lado no desfecho do filme. Ainda no citado filme de Chaplin, pouco antes do encontro de Carlitos com a florista, dois garotos brincam com o vagabundo em uma cena cômica. Isso significa que Chaplin via, de fato, a comédia com seriedade, ao contrário do que é feita em filme como Uma manhã gloriosa - e não enxergar a comédia com seriedade é não dar valor ao próprio trabalho - que aqui serve somente como exemplo, pois existem muitos filmes que a este se assemelham e o leitor provavelmente lembra de alguns.

Ainda levando em conta a obra de Chaplin, podemos também levar em conta que um filme de comédia não precisa ser acrítico sobre aquilo que trabalha. Uma manhã gloriosa trata o jornalismo com desinteresse. Procura mostrar pessoas apaixonadas por seu trabalho que não demonstram qualquer senso crítico. O que sobra são personagens caricatos: a jornalista alegre que faz matérias alegres, o jornalista rabugento que faz matérias sobre tragédia. Nenhum aprofundamento do pensamento de nenhuma destas duas figuras ou do mundo jornalistico é feito, nem mesmo no quesito "comercialização da mídia" que o filme trata a todo momento, mas que passa como uma simples fase do roteiro, um momento necessário para mostrar os diferentes estágios da carreira da protagonista e seus embates dentro de seu trabalho. Diferente do que Chaplin faz em Tempos modernos, O grande ditador, Ombro armas. É possível, sim, fazer um bom filme cômico crítico - e que entretenha seu público. Mas Uma manhã gloriosa não é esse filme nem procura ser. 

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