terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Paixão juvenil de Kô Nakashira (Kurutta kajitsu, 1956)


direção: Kô Nakashira;
roteiro: Shintarô Ishihara

Um travelling cinematográfico é todo movimento em que a câmera deixa um ponto fixo do cenário e passa a se locomover sobre ele. Pode ser feito com o auxílio de um trilho, numa steady-cam (um colete preso ao corpo do cinegrafista), no ombro, na mão (no caso de uma câmera menor) ou sobre um automóvel. Fora descoberto como que por acado quando um dos cinegrafistas dos Lumière colocou a câmera sobre uma gôndola de Veneza para filmar o casario histórico. Desde então tal movimento foi aperfeiçoado para que se acomodasse às mais diversas ocasiões. Tornou-se um dos planos mais expressivos do cinema - assim como um dos mais utilizados. Quando um homem e uma mulher se descobrem apaixonados um pelos outro, a câmera lentamente corre em sua direção para desnudar tal paixão. Quando um homem, irado com outro, promete sua vingança a câmera move-se lentamente em sua direção para captar o sentimento arrebatador daquele sujeito filmado.

Faço este breve comentário sobre o travelling cinematográfico para poder escrever sobre Paixão juvenil, filme de Kô Nakashira, que abre exatamente com um travelling. Os créditos se dividem em dois planos. Primeiro o mar aberto, uma lancha que cruza velozmente em direção à câmera; no segundo um travelling em direção ao protagonista que encerra num close-up de seu rosto. É curioso que, mesmo não tendo visto o filme, tal movimento - ainda que por debaixo dos títulos dos créditos iniciais - parece anunciar uma tragédia. Dele emana todo um poder que coloca o espectador mais atento e disposto a colaborar com o filme em suas mãos. Isso unido ao som de um jazz que faz eco ao travelling realizado. Por trás do rosto do personagem está o mar. A água que sobe devido ao movimento da lancha m alta velocidade.


O início da trama parece deixar de lado este chamado feito pelos créditos. Temos dois irmãos em tempo de veraneio que vão até uma área praieira do Japão. Eles estão felizes com isso, conversam. Falam sobre suas roupas novas, os cortes de cabelo, os amigos, as moças. Logo nestes primeiros diálogos é posta uma diferença importante entre os irmãos: o mais novo é um romântico à moda antiga (que aparece nesta primeira cena), o mais velho somente quer se divertir e não quer seguir os ditos das gerações mais velhas. Esta fala do irmão mais velho ecoa a de seus amigos que dividem cena com os dois garotos que protagonizam o filme. O que lhes interessa é se divertir sem pensar no futuro. Lembram aqueles jovens rebeldes de Nicholas Ray, ideia que permanece quando eles passam a se valer de termos ingleses para poder se expressar.

Ainda na estação de trem o irmão mais novo, Haruji, se depara com uma garota que desperta seu interesse. Logo ficara apaixonado por ela e procurará marcar encontros. Daí surge uma relação amorosa. O modo como Nakashira filme esta relação nascente, o desejo que arde e pede para ser externalizado, é muito interessante. Coloca o garoto e a garota deitados numa pedra à beira mar tomando sol. Seus corpos próximos. Olhares trocados sem que o outro veja, apesar de terem ciência do ato de seu parceiro. E logo surgem as mãos, que se contraem delicadamente, expressando aquilo que, verbalmente, eles estão impossibilitados de expressar. Querem, mas temem. 


O grupo de amigos resolve dar uma festa. A obrigação do grupo de garotos é de encontrar belas mulheres para a festa. Todos fazem como concordado, mas é a garota de Haruji quem chama atenção. Eles dançam juntos sob os olhares curiosos dos demais. Mas algo trai o jovem apaixonado, a voz conquistadora de seu irmão, que faz a atenção da moça de voltar da dança que tem com seu parceiro para a voz de Natsuhisa, o irmão mais velho. E aqui se dá mais um travelling. A câmera lentamente atravessa o espaço em que estão os casais de dançarinos em direção ao irmão cantor. É a curiosidade de Eri, namorada de Haruji, pelo cantor. Logo os demais dirão que a voz de Natsuhisa sempre conquista as garotas. Poderia estar acontecendo o mesmo com Eri? Na via das dúvidas, melhor retirá-la da festa, como faz Haruji.

O interessante desta cena é o uso do travelling por Nakashira. Nos filmes de romance, em especial os hollywoodianos que seguem uma fórmula, a corrida da câmera em direção a um personagem significa o desejo de um personagem por outro. E neste caso se dá algo semelhante. Temos um cantor charmoso com uma voz sedutora, uma garota que o observa com o canto dos olhos, e um travelling para suscitar no espectador a seguinte dúvida: estaria se formando um triangulo amoroso? 


Quando Natsuhisa descobre que Eri, a namorada do irmão é casada, seu desejo por ela ganha força. Ele agora tentará ficar com ela, já que ela não é o que seu irmão pensa. E daí surge um triângulo amoroso bem articulado e que permanece em silêncio até o desfecho do filme. Haruji não sabe da existência do marido de Eri ou de seu relacionamento com Natsuhisa. Quando toma ciência, aquele anúncio trágico do travelling do início do filme irrompe. Surge o sentimento de aturdição. E assim o filme fecha seu ciclo exatamente nas voltas que Haruji dá em torno do veleiro em que estão seu irmão e sua namorada. 

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