domingo, 25 de janeiro de 2015

O lobo atrás da porta de Fernando Coimbra (2013)


direção: Fernando Coimbra;
roteiro: Fernando Coimbra;
fotografia: Lula Carvalho;
estrelando: Leandra Leal, Milhem Cortaz, Fabíula Nascimento.

A produção continuada de filmes vem fazendo muito bem ao cinema brasileiro. Há cerca de uma década o incentivo estatal de construção de filmes vem fazendo com que cada vez mais apareçam filmes de grande qualidade, seja artística, seja no ato de contar uma boa história. Em ambos os casos surgem bons exemplares: Trabalhar cansa, O som ao redor, Eu me lembro, e por aí vai. Com o exercício contínuo surge também uma maturidade intelectual no narrar os filmes, e isto se apresenta naquelas sutilezas metafóricas que aparecem durante a narração. O motivo de um personagem estar vestido de tal jeito, o motivo pelo qual tal enquadramento é feito, tudo isso pensado de modo a harmonizar com o filme como um todo, não simplesmente como uma boa escolha estética para parecer "mais legal".

O lobo atrás da porta surge neste cenário como um dos filmes mais falados destes tempos pós O som ao redor, o filme de Kleber Mendonça Filho que sacudiu os espectadores e trabalhadores de cinema brasileiros. Se O som ao redor demonstra a maturidade intelectual e artística de seu autor, os filmes feitos posteriormente passarão a ser visualizados com maior cobrança. Sim, porque agora já sabemos que o cinema nacional é capaz de grandes obras a exemplo do filme pernambucano citado. E O lobo atrás da porta, apesar de não ser tão fascinante quanto o debute de Mendonça Filho, cumpre devidamente com suas expectativas. Isso porque o grande desafio de Fernando Coimbra com seu filme era de simplesmente contar uma bem uma boa história. História esta que não é tão incomum, mas que não é tão simples de ser contada.


O que é mais interessante na construção do filmes de Coimbra é justamente as suas escolhas para contar a tal história comum. É um filme que se passa no Rio de Janeiro, mas que toma distância dos pontos turísticos da famosa cidade. Passa-se nos subúrbios de casas de pintura desgastada, dentro dos metrôs. Para além desta escolha de localização temos planos longos cujo peso de sua duração não é sentida pelo espectador. Não é necessário o corte constante para que se crie a atmosfera desejada, o roteiro e o trabalho dos atores já faz isso por conta própria. E é no texto falado por seus atores que o filme irá se ancorar. E nada mais justo uma vez que a película partirá dos depoimentos de um homem casado e de sua amante para poder recriar os passos que levariam até o desfecho da história de um sequestro da filha do tal homem.

As histórias serão tratadas como flash-backs, mas não teremos acesso à narração dos envolvidos ou de quem conta a história. Sua narração é feita pela própria câmera que optará por filmar quem conta a história. E se ele diz ao delegado que seu caso com a amante era bobagem, coisa passageira, física, sua história será também curta e com poucos detalhes. Para ela, a amante interpretada por Leandra Leal, a história não foi tão boba assim, tanto que tomará o desfecho apresentado. A narração deste passado que levará os envolvidos a uma delegacia terá somente aqueles pontos mais importante para as duas figuras envolvidas. Ele procurará mostrar a personalidade distorcida dela, ela procurará mostrar-se a vitima da história.


Muito curiosos são dois pontos da história. Um deles, quando Bernardo e Rosa (Leal) terminam uma transa e ela levanta e vaia até a cozinha nua para beber água, retorna com um sorriso no rosto falando que comprou uma arma. Ele fica transtornado ao ouvir tal declaração. Para que ela precisaria de uma arma? Tudo o que ela diz é que é muito mais simples do que parece ter uma. Isso não responde a pergunta. Ele continua transtornado. Narra tal história (sem voz off, excelente escolha do diretor) para mostrar ao delegado a figura desequilibrada da amante que provavelmente foi quem pegou sua filha mais cedo na escola.

Ela, por outro lado, conta uma história diferente. É posta como a vítima de um homem agressivo. Eles transam. Ele quer colocar o preservativo e ela não deixa. Diz que toma pílula para não engravidar. Mas engravida e fala para ele. Bernardo a pede para tirar o filho, e ela se recusa. Cria-se um conflito. Ele é casado e já tem uma filha e não pode assumir esta criança senão seu casamento poderá chegar a um fim - a fragilidade de seu casamento é narrada por Rosa (também sem voz off) numa conversa que tem com a esposa de Bernardo, de quem fica amiga sem que ele saiba. Ele vai até a casa dela amigavelmente um pouco mais sensível e fazendo-se suscetível à criação do bebê. Leva-a para um médico para confirmar a gravidez, e ela aceita. Ao chegar lá, ela se dá conta de que trata-se de uma clínica de aborto, mas somente depois que o médico já lhe aplicou uma injeção. Esta revolta de Rosa de não poder ter tido seu filho a levará para suas ações mais drásticas.


Quando ela conta a ele que comprou uma arma, Leandra Leal é filmada nua no quarto. Esta nudez não é gratuita nem vem compactuar com o realismo buscado pelo filme em seu gravação em locações. É aquela metáfora discreta da qual comentava no início deste texto. É o momento em que Bernardo percebe que há algo de errado com aquela mulher com quem mantém um caso. É a nudez de sua personalidade representada pela nudez da atriz. É naquele momento - e talvez devido àquele momento - que Bernardo percebe que há algo de perigoso em sua relação com a mulher que encontrara no metrô. É por isso que ele a denuncia à polícia como possível suspeita de ter pego sua filha.

Por outro lado temos uma mulher extremamente magoada por não ter sido respeitada em sua liberdade de ter sua filha. Fizera o aborto contra sua vontade. E aquele detalhe da arma não passará despercebido. Rosa teve algo que muito lhe era valioso retirado e agora faria o mesmo com Bernardo. O sequestro da criança torna-se uma punição frente à violência à qual sofrera e que conta ao policial. Estes detalhes fazem com que O lobo atrás da porta destaque-se como uma obra muito bem construída porque pensada em todos os seus detalhes. Cada cena conta um pouco para a construção da atmosfera que faz com que aqueles personagens mantenham-se unidos e termine em seu desfecho trágico. Coisa de um cinema que amadurece.

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