segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

O artista de Michel Hazanavicius (the artist, 2011)


É curioso como alguns filmes crescem depois de vistos algumas vezes mais. Isso porque alguns detalhes que compõe a obra nos passam despercebidos numa primeira visualização, e numa segunda nos saltam aos olhos. Esses detalhes que nos saltam aos olhos podem muitas vezes (não sempre) demonstrar a maturidade da obra assistida, uma vez que seu autor pôs nela alguns detalhes que fazem com que cada canto da tela seja preenchido por um detalhe que diga algo a respeito da trama. Muito bem então, sobre que filme falamos neste texto? O artista, filme de Michel Hazanavicius, e célebre ganhador do Oscar. Célebre muito devido ao fato de ser um "filme mudo" em pleno século XXI do que partindo de suas escolhas estéticas. É um filme que ficou famoso pelo seu posicionamento histórico, não por sua construção estética*. 

Logo no início do filme nos deparamos com uma cena curiosa. A câmera é posta no alto de uma daquelas salas de cinema requintadas da década de 1920 permitindo-nos assistir ao espetáculo cinematográfico. A noção de "espetáculo cinematográfico" é aqui ampliada para poder se referir não somente ao filme, mas tudo aquilo que cerca a sua projeção na grande tela branca. E como esse é um filme que se passa nos últimos dias do cinema mudo temos uma composição de quadro interessante: de um lado temos a tela gigantesca que chama atenção do espectador. Nela está sendo exibido um filme no qual estrela o ator protagonista de O artista. Mas a tomada se alonga. Neste seu alongar desviamos nossa atenção das sombras moventes na tela para outros detalhes do quadro: a banda que toca a música de acompanhamento da ação em frente à tela, o público que assiste ao filme - tal como formigas devido à proporção de tamanho - e os camarotes em que as pessoas de maior poder aquisitivo ficam (será que estamos assistindo ao filme de uma delas?).


Neste primeiro momento fica desenhado que o filme não tratará sobre cinema, mas todo o mundo que envolve a sétima arte: os jornais que anunciam os filmes, o mundo das celebridades, e a vaidade de quem está por trás das câmeras (ou na frente delas). Não é a toa que antes de as luzes se apagarem Hazanavicius nos leva para trás da tela e nos mostra os astros daquele filme em sua estréia vibrando com as reações positivas do público.

Para o desenvolvimento deste filme parece que Hazanavicius fez uma extensa pesquisa sobre os modos e formas de expressão do cinema mudo. Muitas dessas coisas aparecem neste filme, inclusive em suas peças metafóricas. Quando os personagens andam pelas ruas, passam na frente de salas de cinema, não raro os cartazes pendurados nas paredes ou os letreiros indicando o filme da semana farão alusão àquilo que sentem ou passam seus personagens. Tal como a cena que fora muito citada por críticos quando do lançamento do filme: o artista faz seu filme para mostrar que ainda está por cima, e uma de suas cenas traduz aquilo que ele vem passando e não quis admitir - então ele afunda em areia movediça. 

O problema do filme não é o de traçar semelhanças entre a obra que se constrói numa atualidade e o passado ao qual tenta recordar. Sua trama por vezes lembra a de Nascimento de uma estrela mas fica bem longe do grande clássico estrelado por Janet Gaynor (este sendo ainda falado e colorido). O problema é o de não fazer o espectador voltar àquele tempo, o máximo que consegue fazer é colocar o espectador já familiarizado com este cinema do qual ele fala a se lembrar da qualidade do passado. Isto porque mesmo o diretor de O artista parece olhar para este passado com um olhar não muito saudosista. Seu filme por vezes tenta se aproximar das grandes obras silenciosas feitas na virada dos anos 1920 para 1930 - e em seu final recordando Fred Astaire e Ginger Rogers (já não mudo).


"Uma vez que o que interessa a Hazanacius no cinema silencioso não é o seu potencial de encantamento, mas sim seus efeitos que possam ser redeglutidos como metalinguagem", escreve Fábio Andrade em crítica para a Revista Cinética. E ele acerta em cheio. Fica de fora de O artista esta busca por um "cinema puro" como muitos o chamavam, num sentido de emocionar o espectador e não simplesmente de se comunicar. Não é diferente assistirmos a Aurora de Murnau ou O martírio de Joana D'Arc  de Dreyer. São dois filmes extremamente diferentes em sua composição em que o objetivo de emocionar o espectador continua vivo. Isso mostra que o cinema mudo não necessitava de grandes artifícios para se fazer entendido ou para ser emotivo. 

Diferente do que coloca Andrade em sua crítica, ou do que parece acreditar Hazanavicius, a palavra não é um faltante no cinema mudo. A palavra é um artigo imposto pelo cinema falado. A busca pela compreensão e emoção sem o uso das palavras é uma busca legitimamente cinematográfica. Não que os cineastas devam se privar do uso das palavras ou dos artigos de outras artes (como a melodia musical presente dos filmes de Fred Astaire e Ginger Rogers) em sua construção. Mas também não devemos enxergar esta vontade de permanecer em seu local original como um ato estranho - uma vez que estranho no cinema é um filme de pessoas conversando sentadas em cadeiras, onde somente há palavras e uma imagem que não muda: a de pessoas sentadas em cadeiras.


Se escrevo no início deste texto que determinados filmes crescem depois de algumas sessões, este cometário também é válido para O artista. Ele cresce, mas não consegue chegar aos pés de seus supostos homenageados. Se lançado na época retratada amargaria hoje o esquecimento. Ele fraqueja no modo como enxerga aquilo sobre o qual fala. Ele fraqueja em como mostrar, ainda que estejam nele presentes algumas boas tiradas - como os letreiros. Mas mesmo os letreiros indicam esta necessidade do cineasta contemporâneo de utilizar as palavras. Assemelha-se à impossibilidade do apresentador de tevê de ficar em silêncio, ainda que seu convidado esteja falando. Difere radicalmente de Tetro de Coppola, em que estas frases rabiscadas nas paredes de uma cidade argentina possui direta ligação com sua trama. Porque Tetro não homenageia o cinema (arte das imagens), mas os escritores, os poetas e teatrólogos (os artistas das letras). Em sua ânsia de falar, Hazanavicius não enxergou que o mais belo de sua arte é o silêncio.


*o posicionamento histórico de uma obra artística está longe de ser o seu determinante de qualidade. Tal como não é determinante de sua qualidade artística o seu conteúdo - um filme que denuncie a pobreza das favelas brasileiras não será um filme de arte porque fala da pobreza nas favelas brasileiras, mas por suas escolhas estéticas.

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...