sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Você não viu nada em Hiroshima

[este texto é um acréscimo ao texto sobre Hiroshima, meu amor]

Já nos alertava o texto escrito por Margueritte Duras em Hiroshima, meu amor: você não viu nada em Hiroshima. Esta sentença, mais do que se referir á personagem de Emanuelle Riva, volta-se a nós, espectadores. Porque nós, também, não vimos nada em Hiroshima. Mas tal como a enfermeira vivida por Riva no filme, nós vimos as imagens nos museus e nos filmes sobre aquela grande tragédia. De certa forma, estas imagens estão presentes em nossa memória. É a memória, este artifício da mente humana mais próprio para as especulações filosóficas do que para as telas de cinema, que tanto Alain Resnais quis tratar sob as formas da arte.

Já disse aqui que as imagens vistas da tragédia de Hiroshima constituem se unem em nossa mente e formam uma memória própria. Mas será que estas imagens nos são suficientes para entendermos aquela tragédia? Noite e neblina já fazia um evocamento das imagens do holocausto mostrando o que não deveria ser esquecido. A nossa memória, quando em contato com tais imagens, delas se apropriam criando uma espécie de registro. As imagens de uma tragédia que não fora por nós vivida faz agora parte de nossa memória. Mas é uma memória que não podemos dizer ser nossa, mesmo estando em nossa mente.


As imagens dos feridos pela bomba de Hiroshima, ou dos corpos desfalecidos nos campos de concentração, nos são apresentadas como um meio de manter aquelas imagens vivas. Esta é uma memória que nos é criada para que não possamos esquecer o passado. O esquecimento do passado é o meio mais rápido para que possamos repeti-lo. Assim, nos apropriamos destas imagens, constituindo-as como parte de um passado que não fora por nós vivido, mas que ainda assim é necessário que mantenhamos sempre em mente. Somente por meio deste reconhecimento que as imagens passadas nos proporcionam que podemos enxergar a repetição destes atos.

Entra, assim, outra questão: as formas da representação. Resnais se nega a fazer uma representação dramática daquelas cenas. Em Noite e neblina é muito clara a proposta de constituição de um documentário. Mas em Hiroshima, meu amor, o que temos é um filme de ficção. É em meio a esta ficção que surgem as imagens reais, no sentido de documentação. Porque aquelas imagens não podem ser envoltas em uma dramaticidade. O filme que se põe a fazer um drama, reconstituindo a tragédia passada (o holocausto, ou a bomba de Hiroshima) está fazendo um desserviço á memória. Fazer do holocausto um espetáculo é o mesmo que tentar voltar ao passado, e até mesmo, tentar modificar este passado. As imagens de Resnais são reais e não estão preocupadas em voltar para um passado que não pode mudar. Este passado existe e é dever do cinema mostrá-lo para que ele não se repita.

Decerto, nada vimos em Hiroshima, mas as imagens que nos são apresentadas devem nos manter conscientes do que aconteceu e de que não queremos ver esta história. As imagens que por vezes se assemelham com a vida real, são um lembrete de que a vida real existe e de que coisas horríveis podem acontecer nela.


Leia também:
O esquecimento começa pelo olho
Hiroshima, meu amor

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