segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Ganga Bruta de Humberto Mauro (1933)



direção: Humberto Mauro;
roteiro: Humberto Mauro, Otávio Gabus Mendes;
montagem: Humberto Mauro;
música: Radamés Gnattali;
produção: Adhemar Gonzaga;
estrelando: Durval Bellini, Déa Selva.

É maravilhosa a inventividade do cinema brasileiro. Por vezes os empecilhos causados pela falta de recursos materiais força a criatividade dos artistas desta terra. O poder desta criatividade se apresenta em diversas figuras em todos os pontos da história do cinema dito brasileiro. Desde Mario Peixoto com sua obra única, Limite, passado por Humberto Mauro, Glauber Rocha, Ruy Guerra, Olney São Paulo, até os mais jovens Edgard Navarro, Cláudio Assis e Kleber Mendonça Filho. Faço este breve comentário para introduzir um dos mais famosos filmes da cinematografia brasileira: Ganga Bruta.

Este filme de Humberto Mauro representa um momento específico do cinema nacional. Nas primeiras décadas tentou-se construir um mercado nacional, somente obtendo sucesso em sua primeira década, antes que as grandes empresas internacionais tomassem conta do cenário cinematográfico do país. O sucesso nunca foi parceiro do cinema brasileiro. Sempre houveram aqueles filmes que fizessem sucesso, mas ficavam isolados dos demais, separados no tempo de outros sucessos de público. Assim como o sucesso crítico. Sim, porque os filmes que hoje são lembrados como clássicos não foram sempre celebrados. A exemplo disso temos os citados Ganga Bruta e Limite.


O sucesso de Ganga bruta somente veio com o passar dos tempos. Outrora chamado de "o pior filme de todos os tempos", o filme de Humberto Mauro encontrou a glória tão logo da primeira retrospectiva do cinema brasileiro, ocorrida no MAM de São Paulo. O filme fora assistido por espectadores que souberam prestar os devidos créditos à obra de Mauro, que por sua vez encontrou seu devido lugar na cinematografia brasileira - mas não foi o suficiente para fazer com que seu autor viesse a produzir outros filmes. Neste mesmo encontro já foram escritos artigos sobre a inventividade desta que é a obra mais conhecida da filmografia de Humberto Mauro.

O filme possui os seus traços de vanguarda - o que já nos permite entender os motivos de sua rejeição inicial. A trama que segue um empresário que assassina sua esposa na noite de núpcias não segue uma linha cronológica, sendo assim de difícil entendimento para o espectador acostumado com um cinema pouco inventivo. Iniciando com as imagens do casamento, que nos mostram a noiva e o noivo em close-ups de seus rostos, de suas roupas, de suas pernas a caminhar, o filme já traça o seu destino. Um grito ecoa pelo casarão. Um dos empregados do jovem empresário corre em direção ao quarto do casal. Abre a porta do quarto: o homem está de pé, a mulher com olhos fechados está deitada no chão e a arma sobre seu vestido.


Este princípio trágico nos leva até o desenrolar de uma trama em que a memória do homem - cujo resultado do julgamento ficamos sabendo por meio de uma notícia de jornal - desempenha papel principal. Humberto Mauro, sempre buscando colocar a câmera no centro do embate dramático de seus personagens (como muitos outros cineastas de sua época), põe a câmera a serviço da memória de seu protagonista devastado por um ato impulsivo. Sua rotina não mais é a de um homem de negócios, mas a de um vagabundo que passa seus dias indo a bares ficar bêbado e brigando com a clientela. Esta câmera que percorre a memória deste personagem que tem somente nas lembranças o consolo de um passado feliz, assume em determinado momento até mesmo o ponto de vista de seu personagem a caminhar, olhando para as próprias pernas. É belíssimo o trabalho de câmera de Humberto Mauro neste filme.

Somente a memória pode trazer a felicidade para o presente. Assim, o filme que iniciava com o assassinato termina com um casamento. A vida deste protagonista fará sempre este retorno, do assassinato ao casamento. Este breve momento de felicidade sempre será seguido pelo momento de tristeza que vem em seguida.


A estética buscada por Mauro em seu cinema. Este filme diferencia-se das demais obras de Mauro por sua ambientação urbana, mas ainda assim está presente nele o senso cômico do cineasta. A comicidade é construída partindo do exotismo do rosto de determinados personagens encontrados quando das bebedeiras do protagonista. Esta comicidade tosca, que é o único ponto de fuga do protagonista de sua constante tristeza, é também um marco do cinema de Mauro que usualmente utiliza este exotismo em seus filmes. Ele lembra um tanto o exotismo cômico dos filmes de Fellini, daquelas personagens deslocadas - deslocadas até mesmo em seu corpo. É muito interessante pensar na proposta estética de Humberto Mauro, já que ele seria um dos primeiros a pensar numa estética cinematográfica brasileira. Foi influência direta do cinema novo. Provavelmente influenciado pelo movimento modernista iniciado em 1922.

Vale muito a pena voltar a estes primeiros tempos do cinema. Tempos em que o cinema não possuía este modelo industrial, embora explorasse seu poder mercadológico. Mas no caso de Humberto Mauro e Ganga bruta temos um cinema artesanal. Partindo deste sentido de artesanal, encerro este texto deixando um comentário de Alex Viany sobre Mauro:

"O mineiro Humberto Mauro, nascido em Volta Grande, perto de Cataguases, sempre foi um curioso das coisas artísticas e mecânicas. Engenheiro, eletricista, musicista, entendido em rádio, seria capaz de fazer ou consertar um bonde, ao contrário do mineiro de anedota, que preferiu comprá-lo. Não é de admirar, portanto, que se tivesse interessado pela mecânica e pela arte do cinema: é tão capaz de cinegrafar e dirigir um filme como de consertar uma complicadíssima câmara"*.


*(em Introdução ao cinema brasileiro, p. 64).

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