quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Antes do Amanhecer de Richard Linklater (before sunrise, 1995)


diretor: Richard Linklater;
roteiro: Richard Linklater, Kim Krizan;
estrelando: Ethan Hawke, Julie Delpy.

Antes do amanhecer é um daqueles casos de filmes que passam despercebidos quando de seu lançamento, e com o tempo encontra seus espectadores. A trama do filme não poderia ser mais simples: um casal que se encontra em uma viagem de trem. E não há muito mais do que isso. Eles descem do trem em Viena e passam a conversar sobre suas vidas, seus pensamentos, seus desejos... A relação do espectador com os personagens se constrói pouco a pouco por meio dos diálogos simples, em que as ambiguidades das pessoas normais aparecem em suas falas - é um filme sobre pessoas, não um tratado filosófico, não há obrigação do personagem seguir um determinado pensamento o tempo todo - e dos gestos contidos que aos poucos vai demonstrando o crescimento de uma emoção (amor? desejo?) entre Celine e Jesse, os personagens desta trama.

Em alguns textos que li na internet notei o equivoco de alguns blogueiros que, acostumados com a tradição cinematográfica focada no personagem masculino, tratam a trama como sendo a história do garoto estadunidense que conhece a garota francesa durante uma viagem de trem pela Europa. É um equivoco fazer uma análise como esta. O filme não segue um deles em separado, ele segue o casal. Os dois aparecem em cena em quantidades semelhantes, isto desde o início do filme quando estão em poltronas separadas no trem e o casal alemão começa a brigar. Talvez seja este um dos fatores que faça o filme parecer tão delicado. Não é um personagem em especial que nos comove, mas o casal. Remando contra toda uma tradição de filmes românticos, o herói deixa de ser uma figura concreta para ser uma entidade, semelhante a fala de Celine sobre a existência de um deus: se existe uma divindade, ela não está nas pessoas mas no espaço entre elas. O filme de Richard Linklater faz o mesmo. O herói da história não é Jesse ou Celine, mas esta entidade que se cria da união do dois.


Mas como sempre, meu foco em um filme não fica no enredo. Até aqui os motivos dados fazem do filme uma peça de teatro interessante. O que vale para que um filme seja considerado enquanto tal é a sua forma (unida ao seu conteúdo, claro*). E neste caso, Linklater se vale de diversos planos-sequência para construir o seu romance. O plano-sequência é um parente próximo do "teatro filmado", como alguns o chamam, dos tempos áureos do cinema. Só que ao invés da câmera ser um instrumento de observação passiva da realidade, ele torna-se ativo. Ativo porque busca expressar a duração própria daquilo que ele retrata.

Antes, uma breve explicitação deste problema. Na década de 1930 alguns cineastas - como Jean Renoir e Orson Welles - passaram a fazer a encenação de seus filmes em profundidade. Isso significava o melhor uso do espaço cênico, em que os atores poderiam se locomover pelos cenários em busca de ampliar o poder da dramaticidade de sua encenação. Diferenciava-se do cinema que até então havia ganho mais espaço, o cinema da montagem em que o espaço era plástico, objetivo, que permitia o desenvolvimento das emoções por aquilo que o diretor moldava em suas imagens. Por meio do plano-sequência não mais era priorizado este espaço plástico, mas o espaço cênico. Teóricos como Marcel Martin e André Bazin afirmavam que por meio deste novo modelo, é possível encontrar a duração das coisas, porque filmava-as em sua inteireza. 


O termo duração provém da filosofia de Henri Bergson. Para diferenciar-se do uso que havia sido dado até então ao termo tempo, Bergson cunha outro conceito e o chama de duração. A duração bergsoniana volta-se para um tempo das emoções, que não pode ser medido porque possui multiplicidade diferente daquela que é tratada pela matemática. Este tempo das emoções é chamado de qualitativo. Numa inspiração bergsoniana, Martin e Bazin vão afirmar que o cinema é capaz de expressar a duração do mundo. Martin, por um lado afirma que a montagem é o melhor meio de expressá-la, mas que o plano-sequência também possui o seu efeito. 

Trata-se de um apanhado breve sobre a teoria de Bergson, Bazin e Martin para que possa tocar naquilo que Antes do amanhecer é bem sucedido: a expressão da duração de seus personagens. Sei que este texto soou muito mais denso e petulante do que deveria, mas segue um pouco no sentido que o filme também vai. Porque Jesse e Celine também se fazem questionamentos filosóficos (como todos nós em algum momento do dia - sejam eles beirando o metafísico ou os fenômenos do cotidiano).

Linklater faz a forma de seu filme baseando-se em diversos planos-sequência. A decisão não poderia ser mais acertada. Por não tratar de um indivíduo que conhece outro, mas de um casal, o plano-sequência fornece ao diretor este meio de mostrar esta relação entre estes dois corpos em cena. E destes planos que são apresentados surge a expressão da duração. O espectador, por sua vez, reconhece a duração que lhe surge e aceita aqueles personagens. Vive a duração deles.

Interessantíssima a cena em que Jesse e Celine entram em uma cabine de música para escutar uma canção. Naquele momento em que eles tem que ficar em silêncio para escutar a música, surge um primeiro arrebatamento. Filmado em câmera fixa em contra-plongée**, os dois sorriem enquanto evitam o contato do olhar do outro. Mesmo evitando este contato sentimos um emaranhado de emoções que os envolve***. O curioso deste filme é que por meio de uma falsa simplicidade - muitos cineastas podem tentar repetir, mas poucos conseguiriam fazer algo parecido - ele se torna cativante. Aqueles personagens transbordam da tela e passam a parecer reais. O destino de Celine e Jesse torna-se uma curiosidade. Será que eles cumpriram o acordo e se encontraram seis meses mais tarde em Viena? Cabe ao romantismo do espectador o sonho. 



*não podemos filmar um drama num campo de concentração seguindo a forma de Transformers...
**a câmera mostra algo de baixo para cima.
*** emaranhado porque, ainda segundo Bergson, as nossas emoções presente juntam-se às passadas formando o conjunto que somos. Não é possível separar umas das outras.
Para quem se interessou pelo plano-sequência pode ler A linguagem cinematográfica (ed. brasiliense) de Marcel Martin e o texto A evolução da linguagem cinematográfica (ed. cosac naify) de Andrá Bazin.

3 comentários:

Daniel Curval disse...

bom texto, gostaria de partilhar contigo este: http://unraccord.blogspot.pt/2013/06/before-midnight-dont-fuck.html

Yves São Paulo disse...

Obrigado Daniel.
Vou conferir seu texto, sim.

Daniel Curval disse...

Yves, Obrigado por leitura do meu texto e pelo comentário. Não tens conta no facebook? Há muitos cinéfilos por lá a partilhar informação sobre cinema. Serás bem-vindo.

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