domingo, 27 de julho de 2014

O Documentário Musical

O documentário musical é um gênero que muito tem crescido nos últimos anos. Fazer um documentário sobre música ou sobre músicos é um modo interessantíssimo de poder contar uma história divertida ou triste, porque nele já se encontra presente uma trilha sonora, que é o grande motivador da existência do filme [musical]. Mas além disso, ele também pode ser visto como uma maneira de o realizador fazer uma homenagem à arte. E é em cima disso que se baseiam grande parte dos filmes musicais. Vamos fazer uma breve rememoração de três grandes documentário musicais já feitos e pensar um pouco sobre a forma dada pelos seus criadores, porque a forma de uma obra de arte é a sua essência:


Gimme Shelter (1970):
O famoso documentário que segue a banda inglesa Rolling Stones em sua turnê pelos EUA ficou conhecido principalmente pelo festival organizado em determinado momento da turnê, quando os Stones tocaram em um show gratuito em que a segurança dos artistas era feita apenas pelos motoqueiros dos Hell's Angels (que recebiam cerveja como pagamento, por sinal). O resultado de tal "aventura": músicos apanhando no meio de sua apresentação, espectadores brigando durante a apresentação, até que o show gratuito termina com um morto.
- Quanto à estética: é muito interessante a construção do filme. É um musical, então temos a execução ao vivo de muitas músicas dos Stones. Mas ainda assim ele é um filme que se baseia em entrevistas, principalmente com os membros da banda. O que realmente interessa aqui é o modo com o qual os realizadores tratam o seu material colhido. Primeiro eles montam o filme inteiro tal como seria mostrado ao público para os músicos que são personagens do documentário. Depois estas mesmas entrevistas são mostradas para os músicos, e podemos ver a sua reação frente aquilo que outrora haviam declarado. É interessante notarmos esta opção dos realizadores de desmistificar o mito. Quando em frente às câmeras dos jornalistas, em entrevistas coletivas ou em frente ao público vemos uma "persona" criada pelos músicos que não são eles. O que os realizadores conseguem com este filme é extraordinário porque podemos ver os músicos do Rolling Stones ficando com vergonha ou se arrependendo de declarações feitas anteriormente.


Don't Look Back (1967):
Dirigido por um dos grandes nomes do documentário musical estadunidense, D. A. Pennebaker, este filme marcou e muito a mente dos fãs de Bob Dylan e principalmente a mente dos documentaristas que viriam logo em seguida. É muito interessante pela forma com a qual Pennebaker segue seus personagens, naquilo que ficou conhecido como "cinema de guerrilha", com uma câmera compacta em mãos seguindo seus personagens e conseguindo mostrar a sua história enquanto eles a faziam, sem ensaio, sem que tenham combinado (com exceção da famosa cena em que Dylan segura placas com as palavras de suas músicas e as solta enquanto elas são cantadas por ele). O filme com sua fotografia em preto e branco granulado consegue imprimir no espectador a sensação da realidade do sujeito que a câmera tanto insiste em perseguir. E de tanto persegui-lo, o seu naturalismo começa a brotar. Os pensamentos jorram para fora da boca de Bob Dylan - quando ele ataca os jornalistas que insistem em fazer dele um mito, torná-lo uma imagem idealizada para a juventude - com rapidez semelhante a qual ele canta. É um filme que milita a favor do cinema enquanto reprodutor da realidade.


Woodstock (1970):
Este foi um filme que mudou a forma de muita gente enxergar o documentário musical. Trata-se de uma epopeia guiada pelo som das músicas que eram a forma de libertação dos jovens que queriam se desligar de um passado cheio de tradições repressoras. Era um grito por liberdade e por conhecimento. Durante as três horas de projeção do filme, poucas são as entrevistas. O que guia o filme é a libertação das músicas. E o que poderia ser libertador para o cinema, senão mostra mais de uma imagem ao mesmo tempo? É assim que o filme, gravado com diversas câmeras ligadas ao mesmo tempo constrói algumas das imagens mais memoráveis dos amantes do rock. A tela se divide em duas e nos são mostradas os dois lados da face de um mesmo músico, ou os dois lados de um palco em construção, ou até mesmo nos é dada a possibilidade de poder ver o palco e o que há do lado contrário do palco. A libertação aqui nos é dada não somente pela música, mas também pela expressão visual. Nós podemos enxergar o mundo inteiro por meio de uma câmera de cinema. O mundo se apresenta e quer aparecer em frente a lente da câmera, ele não se esconde. 

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