quarta-feira, 23 de julho de 2014

Jacques Rancière - de uma imagem à outra? Deleuze e as eras do cinema


"Existiria uma modernidade cinematográfica. Opor-se-ia ao cinema clássico, da relação, narrativa ou significante, entre as imagens, um poder autônomo da imagem, duplamente marcado: por sua temporalidade autônoma e pelo vazio que a separa das outras. Esse corte entre duas eras teria tido duas testemunhas exemplares: Roberto Rossellini, inventor de um cinema do imprevisto, opondo à narrativa clássica e descontinuidade e a ambiguidade essenciais do real, e Orson Welles, inventor da profundidade de campo, oposta à tradição da montagem narrativa. E teria tido dois pensadores: André Bazin, teorizando, na década de 1950, com armas emprestadas da fenomenologia e com as segundas intenções da religião, o advento artístico de uma essência do cinema identificada com sua capacidade 'realista' de 'revelar o sentido oculto dos seres e das coisas, sem quebrar sua unidade natural' (Bazin em 'a evolução da linguagem cinematográfica'); e Gilles Deleuze, fundando, na década de 1980, o corte entre as duas eras numa rigorosa ontologia da imagem cinematográfica. Às intuições justas e às aproximações teóricas do filósofo ocasional André Bazin, Deleuze teria dado fundamento sólido: a teorização entre dois tipos de imagens, a imagem-movimento e a imagem-tempo. A imagem-movimento seria a imagem organizada segundo a lógica do esquema sensório motor, uma imagem concebida como elemento de um encadeamento natural com outras imagens, numa lógica de conjunto análoga àquela do encadeamento finalizado das percepções e das ações. A imagem-tempo seria caracterizada por uma ruptura dessa lógica, pela aparição - exemplar em Rossellini - de situações óticas e sonoras puras que não se transformam mais em ações. A partir daí constituir-se-ia - exemplarmente em Welles - a lógica da imagem-cristal, na qual a imagem atual não se encadeia mais com outra imagem atual, mas com sua própria imagem virtual. Cada imagem separa-se, então, das outras, para se abrir à sua própria infinidade. E o que estabelece à relação, agora, é a ausência de relação, é o intervalo entre imagens que comanda, no lugar do encadeamento sensório-motor, um reencadeamento a partir do vazio".

(Jacques Rancière em "A Fábula Cinematográfica", p. 114) 

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