segunda-feira, 7 de julho de 2014

Da Estética de Videoclipe e sua Presença no Cinema


Muitos são os filmes feitos na atualidade que apresentam a chamada estética de videoclipe. Mas o que seria este recurso e por que ele não deveria ser usado no cinema da maneira indiscriminada como vem sendo utilizada? Com este texto pretendo explicitar alguns pontos importantes acerca desta estética no cinema.

1. O que é a estética de videoclipe?
A estética de videoclipe é um termo normalmente utilizado de maneira depreciativa aos filmes que a utilizam. Os videoclipes são curtas produções audiovisuais em que o objetivo primordial não é o de apresentar uma história, mas de apresentar a música. Neste formato é a música que se encarrega de causar alguma emoção no espectador, afinal de contas o videoclipe funciona como uma espécie de propaganda para as obras dos músicos - se no cinema a música por vezes surge como fundo de uma cena, num videoclipe é a imagem que serve de pano de fundo para a música. Mesmo visando a apresentação de uma peça musical, muitos são os videoclipes que se encarregam de apresentar uma história - em determinados casos até mesmo para ilustrar a letra da música que acompanham (para deixar claro: no videoclipe são as imagens que acompanham a música, no cinema o contrário). Esta história, por maior que seja, é apresentada nos quatro ou cinco minutos de música, o que requer uma montagem acelerada para mostrar as diversas ações que acontecem naquele tempo e encaixando-o no ritmo da música: a montagem de um videoclipe não visa a construção rítmica das emoções do filme, mas a sintonia com a música. As imagens não possuem qualquer necessidade de atingir o espectador, este trabalho é deixado para a música que elas acompanham.


2. Da sua aplicação no cinema.
É muito comum no atual cinema hollywoodiano vermos o emprego da estética de videoclipe em seus filmes devido à agilidade que tal estética emprega. Sem dúvida seu público cativo passa a prestar mais atenção quando é utilizada uma montagem acelerada. Como Tomás Gutierréz Alea coloca em seu clássico Memórias do subdesenvolvimento, o subdesenvolvimento diminui a atenção das pessoas, elas não conseguem mais se focar em uma única ação. É exatamente desta dificuldade de realizar uma atividade que requer total atenção que sofre o grande público do cinema hollywoodiano e por isso cada vez mais os blockbusters se voltam para a produção de filmes ágeis, cheios de explosões, para que possam prender a atenção do espectador no filme. - A utilização desta estética herda a tradição do cinema estadunidense em que todos os problemas que se apresentam para o diretor e o fotógrafo do filme são solucionados com um corte, muito diferente da tradição europeia que busca solucionar seus problemas com um movimento de câmera.

Esta aplicação pode ser feita tanto em uma cena, quando o diretor ao invés de buscar com a câmera o sentimento do personagem e/ou do espectador, ele se vale de uma montagem acelerada (muitas vezes por incompetência de criar a dramaticidade que a cena pede) sendo que neste caso a ilusão que se cria no espectador de que este está sentindo alguma emoção pelo personagem é causada pela trilha sonora utilizada naquele momento. Ela [a aplicação deste procedimento] também pode ser feita com a colocação de cenas rápidas, o que consequentemente destrói o potencial dramático de uma cena ou de uma atuação em especial. O drama fílmico para ser construído requer um tempo preciso que nem todos os diretores do atual cinema sabem respeitar [esta questão continua no tópico seguinte].


3. O prejuízo para a encenação cinematográfica.
A construção de um filme de ficção (e de alguns documentários) se faz da relação entre câmera-personagem ou da relação câmera-objeto retratado. Nesta relação é por meio de uma construção temporal em que o diretor irá analisar como e em que momento o seu espectador se identifica com seu personagem a ponto de começar a sofrer os mesmo problemas que o representado. É importante deixar clara que é por meio da relação câmera-personagem que o drama se constrói, e não basta somente a exposição do personagem em frente à máquina de filmar para construir o drama. A câmera necessita de algum tempo analisando seu retratado para poder iniciar o despimento emocional de quem em frente a ela se apresenta.

A estética de videoclipe não permite que seja desenvolvida esta relação câmera-personagem, não sendo capaz de dissecar o emocional dos personagens apresentados no filme. A impressão que o filme dá de emoção fica a cargo da trilha sonora, tal como no videoclipe musical. Um exemplo magnífico se apresenta no livro O discurso cinematográfico quando Ismail Xavier cita Buñuel e um encontro seu com Zavattini*: "Para um neorrealista, eu disse a ele, um copo é um copo e nada mais; você o vê retirado da prateleira, cheio com líquido, levado à cozinha onde a empregada o lava e às vezes o quebra, o que resulta no seu retorno ou não, etc. Mas, este mesmo copo, observado por seres diferentes, pode ser mil coisas diferentes, porque cada um carrega de afeto o que vê" (op. cit., p. 94). Me valho desta citação de Buñuel para poder dizer que este copo pode, em um filme, representar as coisas mais diversas: em um romance o afeto de um personagem pelo outro; em um suspense ele pode ser o tormento do personagem A que teme ser envenenado pelo personagem B. Mas esta construção de um sentimento ao redor deste copo somente poderá surgir por meio do controle consciente do tempo fílmico, o que a estética de videoclipe desobedece. 

Conclusão:
A estética de videoclipe assassina a dramaticidade de uma obra cinematográfica. Não podemos considerar toda montagem rápida como estética de videoclipe porque em certos casos ela possui seu valor artístico, a exemplo do interrogatório efetuado pelos policiais ao senhor que é protagonista do filme Ervas daninhas de Alain Resnais: a montagem acelerada é utilizada para imprimir no espectador a mesma sensação de desespero pela qual passa o personagem que sofre o interrogatório. A câmera corta de um policial para outro em rápidos zoom-in que deixam o espectador aflito, e certamente quando o ritmo da cena é restaurada o espectador finalmente consegue respirar aliviado.


*um dos mais importantes roteiristas do neorrealismo italiano, autor do roteiro de Ladrões de bicicleta e Umberto D.
Imagens: a primeira imagem é do filme Jogos vorazes (2012), película com história interessante, mas que peca pela aplicação da estética de videoclipe - o segundo filme da saga já foge a este equívoco estético. As imagens seguintes são dos filmes citados: Memórias do subdesenvolvimento e Ervas daninhas.

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