segunda-feira, 5 de maio de 2014

Jogos Vorazes (the hunger games, 2012)


estrelando: Jennifer Lawrence, Wes Bentley, Stanley Tucci, Josh Hutcherson, Woody Harrelson.

Certa vez li uma entrevista do cineasta Fernando Meirelles sobre a concepção da famosa série infantil Castelo ra-tin-bum. Nela, Meirelles fala que o formato do programa foi pensado quando o cineasta, observando o comportamento de sua filha que tinha três ou quatro anos de idade, notou que a atenção que uma criança dá para uma atividade é de dois ou três minutos no máximo. De um lado bem oposto está Memórias do subdesenvolvimento, clássico de Tomas Gutiérrez Aléa em que o cineasta observa partindo de seu protagonista que o subdesenvolvimento afeta a atenção das pessoas, sendo que as pessoas que aceitam o subdesenvolvimento não conseguem manter o foco em uma única atividade, sua atenção se dispersa - para estas pessoas é difícil ler um livro, por exemplo. 

O cinema feito hoje em Hollywood aponta em grande parte para esta falta de atenção de seu público, esta falta de atenção que é causada pelos próprios filmes que adaptam seu público para esta falta de atenção. Cria-se com isto a estética de videoclipe. O que é a estética de videoclipe? Os videoclipes são conhecidos por possuírem uma estética ágil para poder contar uma história no mesmo ritmo da música que representa, e por isso os planos e tomadas são extremamente ágeis. O cinema não exige este ritmo acelerado porque um filme (idealmente) possui tempo suficiente para desenvolver seu enredo. O tempo de um filme é desenvolvido pelo cineasta pela montagem, em que ele decide a duração de um plano, assim como parte do ator que desenvolve o tempo da ação de seu personagem (as pausas durante a fala, a duração de seus movimentos...).


A estética de videoclipe é extremamente prejudicial para um filme de ficção. O tempo necessário para a criação emocional dos personagens e os efeitos que estas emoções causam no espectador não são bem desenvolvidos para que o filme possa ser bem sucedido dramaticamente. Neste sentido, os filmes que são atualmente feitos em Hollywood aparentam ser feitos seguindo uma fórmula. A fórmula padrão segue o desenvolvimento de um roteiro em que temos um personagem que será o herói da história, um caso amoroso deste personagem, um vilão que de tempos em tempos surge na trama para manter certo interesse até alcançar o clímax, temos a queda do clímax, em seguida desenvolve-se a reviravolta e termina o filme pouco depois. Durante este processo temos a estética de videoclipe, uma coleção frenética de imagens que tentam nos contar uma história que em grande parte nos é apresentada pela fala dos personagens em demérito da construção fílmica realizada pelo diretor. Para poder acentuar o valor emocional das cenas é muito comum vermos o uso da música (que diga John Williams...) que é o que realmente desenvolve no espectador as emoções que ele sente e atribui ao filme.

Fiz toda esta argumentação para poder falar sobre o filme Jogos vorazes, que me decepcionou muito devido ao uso da estética de videoclipe. Ouvi falar muito bem deste filme, mas o lado bom dele reside somente no enredo (que é mérito da autora do livro no qual o filme se baseia) e na atuação de Jennifer Lawrence, embora a estética de videoclipe em muito atrapalhe o trabalho que a atriz fez sobre sua personagem. Quando um cineasta está a apresentar o drama de um personagem deve mostrar o drama deste personagem, e não ficar a desviar a atenção em milhares de planos deste personagem para mostrá-lo chorando através de diversos planos. Não há nenhuma outra forma melhor para retratar um personagem chorando do que um longo plano. O espectador aos poucos sente o crescente desespero ou tristeza de seu herói, mantendo-se sempre ao seu lado, torcendo por ele.


O filme narra um mundo diferente em que existem 12 distritos que prestam contas à Capital. Em lembrança de uma rebelião acontecida 74 anos antes deste momento narrado no filme, acontecem os chamados "jogos vorazes" que dão título à história, em que um garoto e uma garota, com idades entre 12 e 18 anos, são escolhidos em cada distrito para lutarem por suas vidas em um jogo violento exibido na televisão. Detalhe: somente uma pessoa pode sair viva deste jogo. A protagonista desta história diferente é Katniss Everdeen  (Jennifer Lawrence) que se oferece para participar do jogos no lugar de sua irmã mais nova que fora inicialmente sorteada. 

A estética de videoclipe destrói qualquer pretensão artística do filme, sobrando apenas o lado comercial. O que parecem não perceber os produtores que criam filmes como este é que uma obra cinematográfica é bem sucedida quando o espectador consegue se identificar com ela, desenvolvendo emoções partindo do filme assistido. Aqui, o trabalho do lado emocional e o desenvolvimento do personagem é atrapalhado por esta montagem que picota o filme. Digo pretensão artística porque o diretor prefere apresentar o filme valendo-se sempre da câmera na mão, marca dos filmes que pretendem fazer uma análise sociológica em que o diretor deixa bem clara a sua assinatura na obra. Não é o caso deste filme. A câmera na mão se apresenta somente como uma opção estilística para fazer do filme mais moderno do que ele poderia parecer. Mas ele não é um filme moderno, embora tenha pretensão de ser. Ele é antes de tudo um filme de produtor, no pior sentido do termo - um filme de encomenda. O que é uma pena porque a união de uma história tão interessante com uma das melhores atrizes surgidas nestes últimos anos em Hollywood (vinda do cinema independente que é de onde saem as grandes obras cinematográficas atualmente do cinema estadunidense, enquanto Hollywood se preocupa apenas com arrecadar dinheiro com filmes cada vez mais voltados para o público infantil ou infantilizado) poderia fazer deste filme um lago no meio do deserto criativo que parece ser a indústria cinematográfica hollywoodiana dos últimos anos.

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