quarta-feira, 21 de maio de 2014

Era Uma Vez na América de Sergio Leone (once upon a time in america, 1984)


direção: Sergio Leone;
roteiro: Harry Grey (baseado em seu livro), Leonardo Benvenuti, Pierro De Bernardi, Enrico Medioli, Franco Arcalli, Franco Ferrini, Sergio Leone;
direção de fotografia: Tonino Delli Colli;
estrelando: Robert De Niro, James Woods, Elizabeth McGovern, Joe Pesci, Tuesday Weld.

Nestes tempos corridos, em que a pressa faz com que até mesmo pretensas obras de arte se percam devido à pressa, um filme que se apresenta com quase quatro horas de duração torna-se um desafio a muitos cinéfilos. Esta duração prejudica o visionamento de muitos filmes porque o espectador não acostumado a assistir películas com tal metragem, pausa-o e parte para fazer outra atividade. Este é um crime contra a arte presente em uma obra cinematográfica - especialmente em um filme como Era uma vez na América

Sergio Leone, cineasta mítico que remodelou um gênero (o faroeste), desenvolveu para consigo uma trilogia sobre "a América". Começou com o clássico Era uma vez no oeste, filme de 1968, mas a trilogia dos sonhos do diretor nunca chegou a ser concluída. Leone passaria mais de uma década batalhando para tirar dos papeis este projeto, sem ter muito sucesso. Ainda no início da década de 1970 lhe fora oferecida a direção de O poderoso chefão, à qual ele recusou. Queria filmar a sua própria história sobre gangsteres, sobre a "evolução da América". Foram muitos anos de tentativas e negociações, até que finalmente, no início da década de 1980, o filme viria a ser realizado.


Trata-se de um projeto ambicioso. Transita por três décadas diferentes, com cenários grandiosos para que o período que está a ser retratado pudesse ser bem representado nas telas e soar crível ao espectador. O roteiro demorou um longo tempo para ser concluído, necessitando-se de sete roteiristas diferentes - incluindo-se aqui o próprio Leone - para que ele finalmente chegasse ao ponto certo. Mas ainda assim estava ali um grandioso épico de proporções colossais. Eram mais de trezentas páginas, o que daria mais de quatro horas de projeção. Depois de filmado, os primeiros cortes contavam com algo em torno de oito a dez horas.

Mas a longa duração do corte final é justificável. A construção daquela fábula sobre os EUA necessitava de um filme com uma longa duração. Esta fábula nos é narrada através dos olhos de Noodles (Robert De Niro), que passa pelos mais diversos períodos da história recente daquele que viria a ser o país mais poderosos do planeta. É uma fábula sobre como um país que age sem piedade sobre os demais se ergueu, tendo sua base nos criminosos mais simples que favorecem os criminosos mais poderosos - e os criminosos menores podem chegar a se tornarem criminosos maiores. Este argumento está presente também em Era uma vez no oeste e que, como já coloquei, constituiriam juntos a trilogia sobre a América (a ascensão da "América" por meio da violência, portanto).


Deixemos de lado o tocante político do trabalho que nos é apresentado e foquemos no lado cinematográfico: no filme enquanto filme. Leone possui um estilo muito interessante de filmar e me pergunto sempre que assisto a um filme seu se seria ele um devedor do Dreyer de O martírio de Joana D'Arc. Seus close-ups e super-close-ups que buscam sugar dos personagens a verdade, o que sentem, o que desejam, ou o desnudar dos sentimentos dos outros personagens presentes em cena. Neste Era uma vez na América, o personagem de De Niro se vê de volta à um cenário de sua juventude e começa aquele involuntário processo de reminiscência dos tempos idos. Aqui, Noodles retira um bloquinho do banheiro, espaço este em que ele outrora via a jovem Deborah - sua grande paixão da juventude - dançar. Sergio Leone filma Noodles em um de seus típicos super-close-ups em que vemos apenas os olhos do personagem em uma tela em scope, arrancando dele suas lembranças e expondo-as na grande tela.

Estes close-ups constantes desnudam os personagens a todo momento, fazendo de Sergio Leone um cineasta atípico - e ciente de suas capacidades enquanto diretor. Ele filma seus personagens tentando retirar deles algo mais do que aquilo que o simples roteiro poderia proporcionar. Esta é uma das capacidades que o tornaram um diretor tão querido. Trata-se aqui da derradeira obra do cineasta italiano - um testamento de sua capacidade artística para a humanidade.

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