sexta-feira, 18 de abril de 2014

Peões de Eduardo Coutinho (2004)


direção: Eduardo Coutinho;

A chamada retomada do cinema brasileiro tem suas peculiaridades. Existe um nome para ela, mas não há uma combinação estética que una os filmes deste período. Fazem parte da retomada todos os filmes feitos a partir de 1992. Com este ressurgimento, o cinema brasileiro foi ganhando aos poucos em técnica, embora artisticamente deixe um tanto a desejar se comparado a outros momentos do próprio cinema brasileiro. O que há de realmente peculiar neste renascimento do cinema nacional foram os filmes que se apresentaram como sendo os principais representantes deste momento de reconstrução: os documentários de longa-metragem e os curtas de ficção. São filmes que por sua natureza não são dados os devidos créditos, normalmente visto como sendo uma escada para o diretor chegar ao nobre longa-metragem de ficção que fará seu nome aparecer no mundo do cinema. Mas este não é o caso do cinema da retomada. Os filmes de destaque, que demonstram a qualidade e competência dos realizadores nacionais são os longas de documentário e os curtas de ficção, e que reforçam mais ainda que o longa-metragismo de ficção está a deixar a desejar, e muito.

No caso dos documentários ocorre um trabalho muito interessante. São muitos os filmes que se apresentam como uma investigação não somente daquilo que deveriam apresentar (aquilo que documentam), mas também o processo de documentação, de como desenvolver um filme documentário, como fazer um registro autêntico de uma época, de uma situação, de uma pessoa. Neste sentido existem, por exemplo Santiago de João Moreira Salles e Peões de Eduardo Coutinho. São filmes que não possuem muita ganância, eles procuram pensar o que eles mesmo estão fazendo. No caso de Peões, entra aqui o processo de pesquisa do diretor-pesquisador no momento de buscar seus entrevistados para que possa ter histórias para contar em seu filme.


Logo no início do filme Coutinho surge em frente à câmera de seu filme conversando com um dos seus entrevistados e falando que ela era a primeira a ser entrevistada por ele na cidade. Esta informação que pode parecer gratuita, deixa-nos a par do que o diretor-pesquisador está fazendo para conseguir coletar suas informações. Logo em seguida ele entrevista outro ex-metalúrgico em uma mercearia e este diz que levará Coutinho para a casa de um amigo seu que também poderá servir de material para o filme. É a coleta de dados para o filme que se apresenta em nossa frente, estamos perante o processo de pesquisa realizado para a possibilidade de existir um filme - sem este material não há filme.

É um filme que se identifica por meio das imagens, coisa difícil para um documentário que normalmente está apegado a fatos (por vezes documentos, papéis) e que esquece de mostrá-los, buscando fantasiá-los ou poetisa-los. As imagens que guiam as entrevistas são dos operários que identificam seus amigos em filmagens das greves de 1979 e 1980 para que o diretor-pesquisador possa busca-los e coloca-los no filme. Coutinho busca uma história para aquelas imagens que ilustraram não somente os filmes de Leon Hirzman e João Pedro de Andrade, mas também as fotografias de jornais e revistas. São os rostos que fizeram aquela multidão que normalmente são apresentadas apenas como números (como já colocava Jean-Luc Godard em Demônio das onze horas quando Anna Karina no carro escuta no rádio o número de mortos na guerra do Vietnã e se pergunta de que gostavam cada um desses mortos - no meio da multidão existem indivíduos) e que agora podem contar as suas impressões daquele momento.

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