segunda-feira, 14 de abril de 2014

O Enigma de Outro Mundo de John Carpenter (the thing, 1982)


direção: John Carpenter;
roteiro: Bill Lancaster, (baseado no livro de) John W. Campbell;
fotografia: Dean Cundey;
edição: Todd C. Ramsay;
estrelando: Kurt Russell, Wilford Brimley, Keith David, Donald Moffat.

John Carpenter viu seu nome crescer e se tornar objeto de culto nos últimos anos. Seus filmes são constantemente analisados e não mais vistos como obras comerciais, e sim possuindo a visão de um artista. Algumas destas análises procuram em suas obras críticas sociais - tal como fazem com o "pai" dos filmes trash de zumbi: George Romero - escondidas por debaixo de camadas e mais camadas de fantasia. Não creio que um filme deva ganhar o status de obra de arte por isso. Uma crítica social presente em um filme não o faz se destacar em meio as demais produções cinematográficas; um filme deve se apresentar enquanto arte naquilo que lhe caracteriza como arte. É por meio da estética desenvolvida pelo diretor que vemos se o filme é ou não uma obra de arte (estamos a falar de uma peça artística e não de uma tese de doutorado).

No caso de O enigma de outro mundo, temos um filme de entretenimento. Não que os filmes de entretenimento não possam ser tidos como obras de arte - e Hitchcock e Clouzot estão aí para dizer o contrário -, mas em determinados casos uma obra de entretenimento pode ter a visão de seu diretor deturpada em vista de conquistar os espectadores. Mas este não é o caso de John Carpenter. Carpenter é um cineasta do cinema de entretenimento que visa em seus filmes a diversão de seu espectador. Foi assim em todos os filmes, utilizando-se do cinema de gênero para contar suas histórias.


Ao contrário do que muitos podem pensar, fazer um filme de gênero pode ser um caminha muito mais dolorosa que um filme que não se encaixe em gênero algum. O cineasta tem que saber como construir a trama e colocar o filme dentro daquele padrão. Num filme de suspense, por exemplo, em grande parte de seu sucesso se deve ao saber fazer o espectador esperar. O espectador espera por algo e cabe ao diretor saber dosar o tempo de cada plano, de cada cena, para fazer com que quem está assistindo a seu filme continue a esperar ou perca o interesse. No caso deste filme, O enigma de outro mundo, temos uma obra de horror; só que ao contrário dos demais filmes de horror, Carpenter prefere não jogar tudo de uma única vez na cara do seu espectador.

A ação se passa na Antártica. O filme tem início com um helicóptero caçando um cachorro na neve. Um homem pendurado na porta do helicóptero atira e joga bombas com o claro objetivo de acertar o animal. Eles chegam até a base estadunidense, onde devido a um número impressionante de erros e equívocos, os dois tripulantes do helicóptero vem a falecer. Os cientistas na base de pesquisa estadunidense ficam extramente confusos com aquela situação, assim como nós, espectadores, que vimos um problema se desdobrar em nossa frente sem sabermos o motivos. Mas sabemos uma coisa a mais! Sabemos que os noruegueses que estavam no veículo voador caçavam o cachorro, enquanto os pesquisadores norte-americanos achavam que os dois sujeitos estavam simplesmente malucos e que representavam um perigo para qualquer um. A influência do cinema de entretenimento já se faz presente nesta primeira cena. Um dos cientistas estadunidenses atira no norueguês com um revolver na mão no estilo de um filme de faroeste, quebrando uma janelinha de vidro e atirando no sujeito que chega "em seu território".


Vemos assim a primeira influência do cinema de entretenimento na forma com que Carpenter molda o seu filme. Ele não tem o objetivo de fazer um filme de arte, para circular por festivais e ganhar prêmios, mas de ter o espectador de seu lado. E para ter o espectador ao seu lado, o diretor nos apresenta um filme de horror que mais parece suspense. Seus típicos monstros não se apresentam logo de início, a sua presença é teorizada por um dos cientistas da base e nós acreditamos que aquilo venha a ser verdade. Por meio do computador, Carpentar anula um falatório "técnico" sobre como este corpo estranho de um extraterrestre consegue copiar os outros animais que estão ao seu redor, mostrando-nos imagens fictícias da ação das células deste alienígena. E é aí em que está o trunfo do filme. O perigo se encontra escondido, ele pode ter copiado qualquer pessoa da base, todos são suspeitos. 

Cria-se com esta suspeita o clima de que o perigo pode estar em qualquer lugar. Unido a este perigo oculto está a impossibilidade de fugir da base. Estão no meio de um deserto de gelo, as comunicações não funcionam há muito tempo, e seus veículos não poderão levá-los muito longe. A câmera de Carpenter, embora não faça qualquer trabalho extraordinário no momento de apresentar a história - ele se vale de um modelo tradicional de filmar -, consegue nos fazer sentir o perigo pelo qual estão passando aquele grupo de pessoas. A base é pequena, com corredores estreitos e cheios de caixas que diminuem ainda mais o espaço pelo qual poderiam caminhar (ou correr) os personagens. Desenvolve-se um temor referente aos espaços. O lado de dentro é perigoso devido ao monstro escondido. O lado exterior também é perigoso devido à tempestade de neve que está chegando e qualquer pessoa que se arriscar a ficar do lado de fora não conseguirá sobreviver.


É o caos e o perigo de uma extinção que Carpenter parece abordar neste filme, e que consegue fazer com sucesso. As pessoas não conseguem se comportar de maneira adequada frente a este perigo que as assola, a morte está sempre à espreita esperando-lhes e eles sabem, e alguns não conseguem esconder seu temor. Do outro lado da tela existe o espectador, que fica sentado em sua cadeira esperando; esperando a resolução da trama, esperando para ver o monstro ser desmascarado, quem foi daquele grupo que fora copiado pelo extraterrestre. E foi com uma estética convencional, que evocava o cinema clássico hollywoodiano, que John Carpenter conseguiu nos apresentar um bom filme.

2 comentários:

Marcelo Keiser disse...

Particularmente adoro esse filme. Tem uma atmosfera tensa que prende a atenção, bem diferente de outros filmes de Carpenter (de estética mais escrachada dos filmes B oitentistas). Esse não estampa exageros, e sim segue uma fórmula ajustada ao convencionalismo do gênero em que habita. Adoro mesmo!

abraço

Yves São Paulo disse...

É isso mesmo, Marcelo. Ele filma de forma simples e com isso consegue prender a atenção de quem assiste.

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