quinta-feira, 6 de março de 2014

Upstream Color de Shane Carruth (2013)


direção: Shane Carruth;
roteiro: Shane Carruth;
fotografia: Shane Carruth;
elenco: Amy Seimetz, Shane Carruth, Andrew Sensenig.

Assistindo Upstream Color uma coisa não me saiu da cabeça: a influência de Jean-Luc Godard no cinema moderno. É incrível como a cinematografia moderna é tão devedora às invenções de JLG, principalmente o cinema independente dos EUA - e Upstream Color não me deixa mentir. A montagem que foge ao tradicional, que prefere não seguir a sua sequência cronológica tradicional das ações, saltando os momentos para mostrar aquilo que realmente irá nos interessar, foi desenvolvida por Godard em seu primeiro longa-metragem, Acossado de 1960. 

Em um momento recente este sopro de juventude dado ao cinema por Godard em 1960, em uma atitude que remetia às revoluções que aconteciam na estética cinematográfica e que foram castradas com o surgimento do cinema falado, tem tomado novas caras. Estão tentado encontrar motivos para explicar a razão pela qual se valer de tal forma de montar um filme. Isto mostra que Godard tinha muito peito para fazer o que quisesse em seu filme sem necessitar dar explicações para mais ninguém. Entre estas figuras (que são bem conceituadas, por sinal) que tomam o estilo desenvolvido pelo cineasta francês em seu debute no longa-metragem estão Terrence Malick e Shane Carruth. Gosto muito do trabalho que ambos produzem. São diretores de filmes cerebrais - muitas vezes esta afirmação é tida como crítica negativa, e de minha parte não é - e por isso necessitam de explicação para tudo que fazem. Da parte de Malick, sua montagem normalmente é tida como sendo um fluxo de consciência.


Em Upstream Color, segundo filme de Carruth, temos um filme experimental, sensorial. É um filme em que as imagens se apresentam, mas tentam nos causar sensações, junto com os sons que nos não postos. Estamos diante de uma teoria filosófica sobre os ciclo e as suas quebras. Embora Carruth não tenha tanto sucesso em apresentar nas telas uma teoria, a sua tentativa já foi válida. Por isso dou créditos à esta obra e à seu autor. Não é fácil pensar um filme experimental, fazer o espectador sentir qualquer coisa partindo de sons e imagens sem que estas estejam conectadas à uma história comovente.

Mesmo querendo construir em nossa frente uma teoria sobre algo uma particularidade que se apresenta no mundo, Carruth coloca alguns elementos clássicos de um filme de ficção - como Upstream Color comumente é entendido. Um destes elementos é a inserção de personagens. Estes servem para que o diretor possa ilustrar a sua teoria.


Fazendo este trabalho, Shane Carruth constrói um filme que se aproxima ao kinoglaz vertoviano. O kinoglaz é uma compreensão de que o cinema não deveria se constituir de obras de ficção, mas de obras intelectuais, que mostrassem para a população a verdade que ela não é capaz de ver no seu cotidiano. O kinoglaz possui uma finalidade social. Neste sentido, por estar Carruth fazendo um filme que se propõe a fazer uma discussão acerca dos ciclos da vida partindo de experimentos sonoros e imagéticos, ele poderia ser posto em uma categoria próxima do kinoglaz, mas não necessariamente nele (existem diferenças gritantes entre Upstream Color e a teoria apresentada por Vertov em seus manifestos). Ele também se aproxima de Stan Brakhage quando tenta, por meio das imagens e sons, causar alguns sentimentos no espectador (e, novamente, existem suas diferenças).

Em um dos momentos mais interessantes do filme, em que os ciclos se apresentam de maneira mais explícita, cada um dos três personagens que nos são apresentados pelo diretor estão trabalhando com alguma forma circular (temos o homem que busca sons na natureza para gravar e que encontra um túnel e passa a fazer pedras girarem, Kris que costura, enquanto sua máquina gira o rolo com o fio...). A vida é um eterno ciclo, dizem alguns, e a busca deste filme é a de quebrá-los. Por se tratar de um filme experimental, um entendimento mais aprofundado somente se apresentará após algumas visualizações do filme.

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