domingo, 2 de março de 2014

Trabalhar Cansa de Juliana Rojas e Marco Dutra (2011)


direção: Juliana Rojas, Marco Dutra;
roteiro: Juliana Rojas, Marco Dutra;
fotografia: Matheus Rocha;
edição: Caetano Gotaro.

Muitos são aqueles que queixam de que o cinema brasileiro da retomada é incapaz de fazer filmes de gênero. É fato que os cineastas nacionais prezam por um fim do cinema de gênero e que os filmes que se encaixam neste grupo (dos filmes de gênero) não são tão facilmente encontrados. Mas desde o imenso sucesso alcançado por Tropa de elite em 2007, muitos foram os cineastas que enxergaram neste cinema uma forma de poder expressar suas agonias ou suas críticas ao que quer que fosse dentro de um filmes de gênero.

Trabalhar cansa é um dos filmes surgidos nestes últimos anos que procura partir de um gênero que é aceito pelo grande público (o cinema de terror/horror) para poder fazer uma crítica social. Com esta união ele se apresenta como sendo um sopro de novidade no cenário nacional. É um filme que possui uma crítica social, mas que não necessita ser posta de forma escancarada como se apresentam nas demais produções nacionais (como o já citado Tropa de elite). 


A película conta a história de Helena (Helena Albergaria), que aluga um espaço para montar um mercado de bairro. Neste mesmo período seu marido é demitido da empresa em que trabalhava há dez anos. Nem Helena nem Otávio (Marat Descartes) podem ficar em casa cuidando de sua filha, então contratam Paula (Naloana Lima) para trabalhar e morar na casa, sem carteira assinada. No mercado, coisas estranhas começam a acontecer...

O filme é muito bem construído. O clima de suspense, do perigo que parece estar cada vez mais próximo, escondido nas paredes, comprimindo a protagonista Helena , é muito bem cronometrado em um filme cujo roteiro se guia a história por meio de pequenos casos que desenvolvem uma áurea de que algo não está certo com aquele mercado recentemente alugado. São produtos em desaparecem, correntes espalhadas pelos cantos, e até mesmo uma coleira de ferro. É a selva em que vivem as pessoas da cidade. Finge-se que as coisas são organizadas, mas todos os dias, seja de forma sutil ou mais aberta, a selva de pedra se mostra igual às selvas tradicionais, em que sempre existe um predador em busca de sua presa.


Em meio a tão peculiar visão da vida moderna numa grande cidade, Juliana Rojas e Marco Dutra fazem uma interessante história de suspense. Helena é o predador, mas existem outros predadores por aí que podem tomar o seu lugar, que a controlam. Ela fica perturbada quando os produtos de seu mercado começam a desaparecer do estoque, quando o prédio que ela alugou continua a apresentar problemas em sua estrutura. Existe até mesmo a ameaça de um cachorro que fica encarando-a todos os dias que ela sai do trabalho. O capitalismo é selvagem, finge que trata a todos nós como seres racionais, mas na verdade somos todos animais de testes, animais de carga, que trabalham e sofrem em busca de uma recompensa. Daí a cena final, que está presente no trailer do filme, em que um palestrante típico de ser apresentado em empresas faz uma apresentação para pessoas que estão em busca de emprego e Otávio está no meio deste grupo. Ele fala que a cidade é uma selva de pedra e que eles são todos animais. Pede para que todos retirem seus ternos e gravatas e que soltem seu lado animal por meio de um grito. O grito dado por Otávio em close é a libertação do animal do casulo em que havia ficado enclausurado durante toda a vida.

Não tenho muito o que falar mais sobre este filme a não ser o fato de que tenho de bater palmas para Juliana Rojas e Marco Dutra por esta obra de poder impressionante que revigora o cenário do cinema nacional.

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...